Fio de Ariadne: Fábrica de Amores: Vende-se

20 julho 2010

Fábrica de Amores: Vende-se

Para os dias de inspiração em baixa, um texto das antigas.


Cansei de brincar. Estou juntando minhas coisas e indo embora, de volta ao consolo do meu travesseiro. Não quero mais inventar amores. Essa brincadeira dói. É como passar o dedo na chama da vela: é divertido, mas uma hora ou outra a gente acaba se queimando.

É curioso que depois de tantos anos as coisas não tenham mais muito sentido. Você ouve suas músicas e sonha com ninguém, escreve poemas pra ninguém, sente saudades de ninguém. Ou de todos. Ou para todos. Você diminui a velocidade, desliga as turbinas e pousa a cabeça no velho urso de pelúcia, exatamente como fazia aos cinco anos, quando acordava e não via ninguém ao seu lado. E daí você entende que não evoluiu grande coisa de lá para cá. Vinte anos se passaram e você ainda sente medo por não ter ninguém ao seu lado. E da mesma inocente forma como você inventava amigos imaginários, você hoje inventa amores.

O agravante da questão é que os amigos imaginários te ajudavam a superar o medo. Já os amores... Os amores só fazem fragilizá-la ainda mais. Você deseja sinceramente o amor dos filmes, das canções, dos livros de auto-ajuda. Bobagem. São todos de uma tremenda ilusão barata, embora, como toda ilusão, maravilhosamente mágica. Por vezes é bom e saudável sonhar, mas, depois de algum tempo, chega a hora em que a fábrica fecha ou, se não fecha, passa a produzir mais desilusões que sonhos.

Tenho minhas produções prediletas. Aqueles amores que criei e, se pudesse, os colocaria em uma prateleira, observando-me com um olhar de quase verdade. Tenho, sim, aquele que guardo a sete chaves, embora tenha anunciado a todos que o quebrei e joguei os cacos fora. Na verdade, os cacos eram meus e os tive que juntar, pedaço a pedaço, para seguir em frente. O amor, obra prima dentre todos os que já fiz, ainda guardo. Ele permanece lá, na estimada caixinha trancada, de onde eu o retiro todos os dias, às escondidas, para o polir e ressaltar seu viço. Ainda que eu não possa usá-lo, ainda que eu não possa colocá-lo em exposição aos quatro cantos do mundo, como se faz com as obras primas, ao menos, posso curti-lo no escuro do meu quarto, enquanto ouço Chico cantar minhas dores.

Hoje estou aqui para dizer que fechei a fábrica. Coloco à venda àqueles que acharem que possam tirar algum proveito. Não tenho mais talento para construir amores, se é que cheguei a tê-lo um dia. De hoje em diante, tenho espaço apenas para amores verdadeiros, naturais, que cheguem até mim com suas próprias pernas. Não os inventarei mais. Não quero mais passar o dedo na chama dessa vela. Cultivo, ainda, meus velhos amores fabricados, por mera covardia de destruí-los. E acho que, no fundo, por ter a mesma esperança de Gepeto com Pinochio: de que eles se tornem, um dia, meninos de verdade.

Um comentário :

Lígia disse...

Como diria um querido meu, que coisa mais Ligiana é essa???

Eu continuo inventando os meus amores, porque só assim eu consigo sobreviver. Se eu não os inventasse, meus olhos se abririam de vez para o fato da minha vida ser uma merda! E pra certeza que eu tenho de que ficarei sozinha para sempre!

Abraços, amiga!!!