Fio de Ariadne: Ajeitando-se no mundo

13 julho 2010

Ajeitando-se no mundo

"Faltava-lhe o jeito de se ajeitar. Só vagamente tomava conhecimento da espécie de ausência que tinha de si mesma. Se fosse criatura que se exprime diria: o mundo é fora de mim, eu sou fora do mundo." Clarice Lispector


É como se o mundo fosse pequeno pra mim. Tem uma coisa que me cutuca, pinica, pede pra eu me ajeitar. Eu me ajeito, mas não me acomodo. Falta alguma coisa, sabe? Como eu não tenho pra onde ir, vou ficando. Olho um e-mail aqui, outro acolá, enquanto isso. Dou uma tuitada. E eu que nunca imaginei que um dia utilizaria um verbo desses: tuitar. Um verbo inventado, esquisito e mais estranho ainda no seu significado: publicar palavras obrigatoriamente lacônicas para algumas pessoas lerem. É modernidade demais pra mim. Pior é que eu gosto. Triste de tudo é que, na busca por um cantinho neste mundo, acabei tentando me encontrar no ciberespaço. Não me encontrei, é fato, mas ao menos tenho algo pra me distrair enquanto não me resgatam para o meu planeta.

Eu às vezes tenho saudades não sei de quê. Você sente isso? Talvez seja o que Lenine disse em uma de suas canções: “é como uma saudade de um tempo que ainda não passou.” Lenine me entende. Os artistas sempre me entendem. Clarice Lispector é um exemplo clássico. Às vezes ela me entende tanto que, ao ler seus textos, acho que sou eu falando. Como é possível descrever tão precisamente o meu sentimento? É meu, pôxa! Muitas vezes Clarice faz parecer que é dela. Ou serei eu a roubar pra mim o que ela sente? Metidinha eu achar que sinto como Clarice, não? Mas eu sinto. Acho que aqui cabe um parêntese: Clarice pra mim é sempre presente. Sempre. Pra sempre.

Muitas vezes dá vontade de ter um mundinho só meu. Sei lá, algo como uma Casa da Barbie de verdade. Se bem que a Casa da Barbie, cá pra nós, era uma chatice também. Dessas fórmulas de felicidade prontas que tentam corromper a infância da gente. Ok, retiro o que eu disse. Não quero uma Casa da Barbie. Posso continuar querendo um mundinho meu. Mas só de vez quando também, porque eu acho que me cansaria fácil dele. Eu sou do tipo que reclama, mas gosta. Mulher de malandro. Com o mundo somente, que fique claro! É que dá realmente muitas vezes vontade de fugir, sair correndo dessa bola que gira, mas sou apaixonada por pessoas. Ser gente é complexo demais. E eu gosto do que é complexo. O simples é belíssimo, não posso deixar de dizer, mas é que, às vezes, de tão simples, é complexo. Acho que o ser humano passeia entre os dois extremos. O simples, puro e belo, e o complexo, esse labirinto do Minotauro, que só mesmo uma figura atrevida, com o nome de Ariadne, pra tentar desvendar.

Nessa brincadeira, lá vou eu, de novo, tentar me acomodar. Não adianta. Não vai adiantar nunca. O incômodo de viver é o que me move.

3 comentários :

Jana disse...

"O incômodo de viver é o que me move."
Hum... Gostei disso. Acho que sou um pouco Ariadne também...
(sabe que sinto muita falta das coonversas que às vezes tínhamos no trabalho? saudade, Di. Fica bem.)

Talita Cruz disse...

Me identifico muito com a suas palavras. E a cada dia tento me ajeitar mais um pouco. Eu sei que nunca vou me ajeitar completamente, mas ao mesmo tempo curto esse "desajeitamento", já me trouxe muitas coisas boas...

Também amo Clarice, e pra mim é um conforto ler o que ela escreve..estou lendo "A paixão segundo GH", e é uma viagem muito louca, parece que a minha mente foi transcrita em livro..rsrs

Leonardo Xavier disse...

Missão difícil, ou talvez impossível, essa de encontrar o seu lugar no mundo.