Fio de Ariadne: Julho 2010

26 julho 2010

Uma homenagem a todos os "Zés" (em todos os sentidos)
que encontramos por aí...




Você dita ao meu coração o que ele não quer aprender, Zé
Você faz com que o meu coração siga a tua receita só
Não, quero que aceite o jeito que eu te dou de mulher
Não! E aproveite: o resto o tempo dá jeito
Mesmo que tenha a minha oração,
Que você dispensa, Zé
Você faz com que o meu coração siga a tua beleza só
Vá lembrar a tardinha quando nos conhecemos, Zé
Havia uma beleza ali ou era criatividade minha?
Quando andava pela rua, cor de sol amarelo-ouro
Me fitava e eu me avermelhando,
Som de jardim de sonho
Zé, era seis da tarde, dia e escuridão.
Tinha tom, sino e alarme roubando o meu coração.
Hortelã, alecrim e jasmim, ave-Maria cantando.
Ela tão satisfeita por mim e eu num galho de sol,
Que nem passarinho, que nem passarinho.
Desvanecida de amor, cor de carmim.

Vanessa da Mata

22 julho 2010

Reflexões de Saturno

"E aos 29, com o retorno de Saturno, decidi começar a viver." Renato Russo


Desculpem-me a falta de literatura. Dei folga aos meus personagens. Cansei, por hora, de ser Alice, Clarice e outras “ices” que gosto de inventar. Nunca fui tão eu. Não sou exemplo. Nunca fui modelo de nada, mas agora me assumo, com todas as insapiências, inconseqüências e tolices da minha alma. Não sou só de erros também. Sou cheia de “eus”. Algumas de minhas faces são gostosas de se ver. Outras, nem tanto.

Coloco-as à mostra agora. Sou a principal espectadora de mim. Acho graça das minhas cagadas, mas não deixo de aplaudir os meus acertos. Acho que sou mais livre. E espero, sinceramente, não encontrar ninguém no caminho que me faça sentir presa novamente. Ao contrário: a partir de agora, só aceito aqueles que quiserem ser livres comigo. Ou que queiram ser libertados. É como um salto de pára-quedas sobre si mesmo. Você é o próprio ar livre.

Estou começando a aceitar a proximidade dos 30. O que é melhor: estou gostando disso. Acho que a maturidade é que me traz a liberdade de presente. É ela que me diz: olha, você é isso aí mesmo e não está ruim assim. Os astrólogos diriam que é o tal retorno de Saturno. Que seja. Se for para me fazer entender, sem culpas, quem eu sou e o que há de bom e ruim nisso, Saturno é muito vindo.

Entendi que consigo conciliar características muito diversas, sem que isso faça de mim alguém do tipo “duas caras” ou indecisa. Sei dosar cada uma delas de acordo com o que preciso. Sou contida, mas sou intensa. Sou sensível, mas sou forte. Sou metida, mas gosto de aprender. Sou leve, mas comprometida. Sou medrosa, mas provei (e gostei!) do sabor dos desafios.

Poderia gastar muitas linhas falando o que descobri a meu respeito, mas melhor parar por aqui. Seria me revelar demais. E de uma coisa sempre tive certeza: do meu gosto pelo mistério, que agora conta com um aliado a mais: a convicção de que só me revelo até onde meu bem-estar permitir.

20 julho 2010

Fábrica de Amores: Vende-se

Para os dias de inspiração em baixa, um texto das antigas.


Cansei de brincar. Estou juntando minhas coisas e indo embora, de volta ao consolo do meu travesseiro. Não quero mais inventar amores. Essa brincadeira dói. É como passar o dedo na chama da vela: é divertido, mas uma hora ou outra a gente acaba se queimando.

É curioso que depois de tantos anos as coisas não tenham mais muito sentido. Você ouve suas músicas e sonha com ninguém, escreve poemas pra ninguém, sente saudades de ninguém. Ou de todos. Ou para todos. Você diminui a velocidade, desliga as turbinas e pousa a cabeça no velho urso de pelúcia, exatamente como fazia aos cinco anos, quando acordava e não via ninguém ao seu lado. E daí você entende que não evoluiu grande coisa de lá para cá. Vinte anos se passaram e você ainda sente medo por não ter ninguém ao seu lado. E da mesma inocente forma como você inventava amigos imaginários, você hoje inventa amores.

O agravante da questão é que os amigos imaginários te ajudavam a superar o medo. Já os amores... Os amores só fazem fragilizá-la ainda mais. Você deseja sinceramente o amor dos filmes, das canções, dos livros de auto-ajuda. Bobagem. São todos de uma tremenda ilusão barata, embora, como toda ilusão, maravilhosamente mágica. Por vezes é bom e saudável sonhar, mas, depois de algum tempo, chega a hora em que a fábrica fecha ou, se não fecha, passa a produzir mais desilusões que sonhos.

Tenho minhas produções prediletas. Aqueles amores que criei e, se pudesse, os colocaria em uma prateleira, observando-me com um olhar de quase verdade. Tenho, sim, aquele que guardo a sete chaves, embora tenha anunciado a todos que o quebrei e joguei os cacos fora. Na verdade, os cacos eram meus e os tive que juntar, pedaço a pedaço, para seguir em frente. O amor, obra prima dentre todos os que já fiz, ainda guardo. Ele permanece lá, na estimada caixinha trancada, de onde eu o retiro todos os dias, às escondidas, para o polir e ressaltar seu viço. Ainda que eu não possa usá-lo, ainda que eu não possa colocá-lo em exposição aos quatro cantos do mundo, como se faz com as obras primas, ao menos, posso curti-lo no escuro do meu quarto, enquanto ouço Chico cantar minhas dores.

Hoje estou aqui para dizer que fechei a fábrica. Coloco à venda àqueles que acharem que possam tirar algum proveito. Não tenho mais talento para construir amores, se é que cheguei a tê-lo um dia. De hoje em diante, tenho espaço apenas para amores verdadeiros, naturais, que cheguem até mim com suas próprias pernas. Não os inventarei mais. Não quero mais passar o dedo na chama dessa vela. Cultivo, ainda, meus velhos amores fabricados, por mera covardia de destruí-los. E acho que, no fundo, por ter a mesma esperança de Gepeto com Pinochio: de que eles se tornem, um dia, meninos de verdade.

18 julho 2010

Cansei


Desculpem, mas tive que postar isto. Sou eu!

"Desisti de sustentar uma imagem e procurar o amor da minha vida no caminho. Quem quiser olhar pra mim vai ter que se conformar com minhas Havaianas roxas e meu cabelo despenteado, minha desatenção e minha falta de correspondência. Ando abatida e pensando demais." Verônica H.

*Retirado do blog Costurando Estrelas

16 julho 2010

Ciclos



A vida é um grande ciclo de expectativas.

A criança que não cresce, o amor que não chega, a moça que não casa, o óvulo que não fecunda, o bebê que não nasce, a criança que não cresce...

A aula que não termina, o diploma que não chega, o emprego que não sai, a dissertação que não acaba, a tese que não se defende, a aula que não termina...

A segunda que não se anima, a quarta que não ameniza, a sexta que não acaba, o fim de semana que não chega, a segunda que não se anima...

O coração que não bate, os olhos que não olham, a declaração que não acontece, o pedido que não se faz, a rotina que não se quebra, a liberdade que não vem...

E assim tudo gira. Perdemos tanto tempo esperando que nem percebemos a vida passar...

13 julho 2010

Ajeitando-se no mundo

"Faltava-lhe o jeito de se ajeitar. Só vagamente tomava conhecimento da espécie de ausência que tinha de si mesma. Se fosse criatura que se exprime diria: o mundo é fora de mim, eu sou fora do mundo." Clarice Lispector


É como se o mundo fosse pequeno pra mim. Tem uma coisa que me cutuca, pinica, pede pra eu me ajeitar. Eu me ajeito, mas não me acomodo. Falta alguma coisa, sabe? Como eu não tenho pra onde ir, vou ficando. Olho um e-mail aqui, outro acolá, enquanto isso. Dou uma tuitada. E eu que nunca imaginei que um dia utilizaria um verbo desses: tuitar. Um verbo inventado, esquisito e mais estranho ainda no seu significado: publicar palavras obrigatoriamente lacônicas para algumas pessoas lerem. É modernidade demais pra mim. Pior é que eu gosto. Triste de tudo é que, na busca por um cantinho neste mundo, acabei tentando me encontrar no ciberespaço. Não me encontrei, é fato, mas ao menos tenho algo pra me distrair enquanto não me resgatam para o meu planeta.

Eu às vezes tenho saudades não sei de quê. Você sente isso? Talvez seja o que Lenine disse em uma de suas canções: “é como uma saudade de um tempo que ainda não passou.” Lenine me entende. Os artistas sempre me entendem. Clarice Lispector é um exemplo clássico. Às vezes ela me entende tanto que, ao ler seus textos, acho que sou eu falando. Como é possível descrever tão precisamente o meu sentimento? É meu, pôxa! Muitas vezes Clarice faz parecer que é dela. Ou serei eu a roubar pra mim o que ela sente? Metidinha eu achar que sinto como Clarice, não? Mas eu sinto. Acho que aqui cabe um parêntese: Clarice pra mim é sempre presente. Sempre. Pra sempre.

Muitas vezes dá vontade de ter um mundinho só meu. Sei lá, algo como uma Casa da Barbie de verdade. Se bem que a Casa da Barbie, cá pra nós, era uma chatice também. Dessas fórmulas de felicidade prontas que tentam corromper a infância da gente. Ok, retiro o que eu disse. Não quero uma Casa da Barbie. Posso continuar querendo um mundinho meu. Mas só de vez quando também, porque eu acho que me cansaria fácil dele. Eu sou do tipo que reclama, mas gosta. Mulher de malandro. Com o mundo somente, que fique claro! É que dá realmente muitas vezes vontade de fugir, sair correndo dessa bola que gira, mas sou apaixonada por pessoas. Ser gente é complexo demais. E eu gosto do que é complexo. O simples é belíssimo, não posso deixar de dizer, mas é que, às vezes, de tão simples, é complexo. Acho que o ser humano passeia entre os dois extremos. O simples, puro e belo, e o complexo, esse labirinto do Minotauro, que só mesmo uma figura atrevida, com o nome de Ariadne, pra tentar desvendar.

Nessa brincadeira, lá vou eu, de novo, tentar me acomodar. Não adianta. Não vai adiantar nunca. O incômodo de viver é o que me move.

10 julho 2010

O peso de ser diferente

“Não me mostre o que esperam de mim porque vou seguir meu coração. Não me façam ser o que não sou. Não me convidem a ser igual porque sinceramente sou diferente.” Clarice Lispector


Nunca fui das mais populares. De qualquer forma, sempre consegui meu lugar em alguma turminha por onde passei. Sempre me senti querida. Sempre fui o ouvido que ouve, o abraço que conforta, a palavra que aconselha. Algumas vezes fiquei esquecida nessa brincadeira, mas sempre lidei bem com isso. Afinal, nunca gostei muito de me revelar. Acostumei-me a agregar à minha vida pessoas muito diferentes de mim. Amá-las, compreendê-las, aprender com elas. Com o passar dos anos, fui percebendo que a mais diferente de todos era eu mesma. E fui entendendo, e sentindo, o quão penoso isso pode ser.

Sempre consegui me entrosar, mesmo sendo diferente, mas a diferença nem sempre é compreendida, inclusive, por aqueles a quem chamamos de amigos. Sou a amiga careta. Nunca fumei, nunca fui de ficar por ficar, nunca dei um “tapa na pantera”, nunca bebi, a não ser uma caipirinha aqui, uma tacinha de vinho acolá. Nada que me deixe mais que risonha. Aprecio uma boa conversa, adoro programas culturais, odeio lugares cheios demais, não suporto ter que gritar para ser ouvida e, numa noite de sábado, o que me atrai é música suave, um barzinho tranquilo, com companhias agradáveis. Nada disso, porém, supera meu prazer de estar em casa. Amo minha casa, meu quarto, meu canto, minhas divagações.

A questão é que tudo isso , por muitas vezes, me faz ser vista como um E.T. Mais que isso: me coloca como a má amiga, a companhia chata, a pessoa esquecida. É o fardo que se carrega por ser diferente. Ele, às vezes, é dolorido. Tenho aprendido a lidar com ele, no entanto. Tenho entendido que maior que o incômodo de carregá-lo é o incômodo de fazer algo que não quero ou que não combina comigo. É o fardo de trair a mim mesma: minhas vontades, convicções, meu “estar bem comigo mesma”. Não quero me isolar do mundo, me trancar na minha caverna de Platão. Sou apaixonada pelo ser-humano e toda a sua maravilhosa complexidade. Confesso, inclusive, que, por vezes, me concedo a licença de extravasar. E faço isso com a consciência de quem sou. É tudo o que eu espero da vida: A liberdade de ser quem sou, agir conforme o que me conforta, ainda que isso seja diferente da maioria ou diferente de mim mesma, de vez em quando. A liberdade de ser quem sou e ser amada assim, exatamente desta forma, pois foi assim que aprendi a amar tanta gente à minha volta que em nada se parece comigo.

Cores e temperos


Nem era bonito. Tinha lá um certo charme no olhar, uma boca interessante talvez. Foi o caráter, na verdade, que lhe chamara a atenção. Ele reunia algumas das principais características que ela considerava importantes em um homem. A sensibilidade, pelo menos à primeira vista, era uma delas. Ele tinha brios, valores, apreciava a boa cultura, era inteligente. Era a descrição do cara (quase) perfeito, esperado por tanto tempo. Ela esqueceu-se, no entanto, que não só de características impecáveis se faz um homem. Nele, faltava um pouco de tempero. Sabe aquele sal com pimenta que não precisa ser muito, mas dá todo o charme? O tempo mostrou que sobravam algumas chaticezinhas também, daquelas que acabam desandando a receita. Uma pitada de imaturidade, outra de arrogância, uma colherinha de inércia.

Era estranho perceber aquelas coisas, depois de ter apostado tanto nele, mas uma das delícias da vida é justamente nos revelar enredo e personagens online, em tempo real, sem ensaios, sem sinopses, sem scripts. Aquilo não era suficiente para deixar de ter por ele o carinho de antes, mas tinha a medida de sua vontade de acertar da próxima vez, de não deixar a fila empacar ali, naquela alma bacana, mas sem as cores que ela sempre quis ver. Ele era o nude. Ela queria a paleta inteira.

03 julho 2010

Francesinha da Savassi

Foto: Alessandro Bastos

É inverno e os ipês colorem a Praça da Liberdade. Amo a Praça da Liberdade. Amo os ipês. Adoro o inverno na Savassi. Tem um ar que beira o europeu. Norah Jones ao fundo me transporta ao cenário, de casaco pesado, botas, cachecol, gorro e maquiagem despretensiosa. Quase posso sentir o vento que carrega as folhas e brinca com meus cabelos, pretos e curtos, que saem pelas laterais do gorro. Bem me disseram que o novo corte tinha me deixado como uma “francesinha”. Pois então: sou a francesinha da Savassi. Amélie Poulain das montanhas. Uma francesinha brazuca, metida à besta, achando que seu cachecol e gorro cabem bem ao inverno de um país tropical.

Lá vamos, então, Norah Jones e eu, caminhando entre os ipês da Praça, como se a vida estivesse ganha, como tudo o que ela esperasse de mim fosse uma caminhada matinal com ar de “rien ne compte” (ou “nada importa”, no bom e velho português). De fato, quando vejo os rosas, roxos e amarelos dos ipês, misturando-se ao azul do lindo céu de inverno, realmente nada importa. É como se aquelas cores tomassem minha alma, ampliassem meus sentidos. Visão, olfato, tato e audição: todos sobressaltados, atentos e maravilhados com tudo ao redor.

Se Monet ainda vivesse, talvez fizesse dali um de seus jardins. É como se ali, naquela Savassi metida a Paris, não existisse nada além de mim e minha alma de poesia. Como se fossemos somente eu, minhas roupas de frio e a voz doce e chorosa de Norah Jones, dizendo-me que meus sentidos me levam a qualquer lugar e fazem de mim o que minha imaginação permitir: inclusive uma francesinha da Savassi.