Fio de Ariadne: Encantos e paixões

01 junho 2010

Encantos e paixões


Clarice sentou-se perto das árvores para descansar. Estava caminhando faz tempo. Fazia isso sempre que queria pensar um pouco mais. A natureza de Clarice já era pensante, é fato, mas naquele dia os pensamentos berravam e gesticulavam como se estivessem em rebelião. Clarice era um mulherão. Não que chamasse a atenção por onde andasse. Sua casca, na verdade, era de menina. A mulher estava atrás dos olhos negros e magnéticos. Era profunda e tinha uma insaciável sede de respostas.

Meio a toda essa curiosidade pelo mundo e pelas pessoas, vez ou outra acontecia de Clarice se apaixonar. Por vezes, era um encanto secreto e passageiro (não pouco intenso); por outras, uma relação duradoura entre Clarice e o seu sentimento (não a pessoa), em que hora Clarice amava intensamente, hora não achava muita graça.

Acontece que Clarice encantou-se novamente. Não sabia ainda que tipo de sentimento era aquele. Não estava claro. Na verdade, não estava claro nem quem ele era. Talvez por isso Clarice gostasse. E talvez por isso se irritasse também. Odiava não conseguir desvendar as pessoas. Aborrecia-se ainda mais quando era a si mesma que não conseguia decifrar. No caso, eram ambos.

Ele a encantava. E a irritava profundamente. Clarice era um mulherão. E ele? O que era? Era opaco, sombrio e irritantemente atraente. Como ousava roubar-lhe o ar de mistério que só admitia em si mesma? Como ousava não agir? Clarice gostava da atitude, essa hemorragia do sentir que tinha o poder da transformação. Seja qual fosse o resultado. Agir sempre significava não deixar as coisas como antes.

Ele não agia porém. Não se mostrava ou mostrava-se muito pouco. E Clarice, ali, naquele impasse entre a curiosidade e a indiferença. Odiava-o por ser assim tão inerte e odiava-se por ser assim tão complexa. Queria e não queria. Ele, por sua vez, parecia e não parecia querer. Clarice recusava-se a fazer o que esperava dele. Era um mulherão que gostava de, às vezes, ser mulherzinha. E estava decidido: naquela história, seria mulherzinha.

O tempo era outra coisa que a incomodava. Na verdade, detestava tudo o que a prendesse. E o tempo ria da cara da Clarice. Ria da cara dele também. Clarice sabia que o tempo não teria piedade. Nem dele, nem dela. Levaria, como uma enxurrada, tudo o que haviam construído juntos: a cumplicidade, o encantamento, as partilhas e todo aquele mistério que, por mais que a irritasse, ainda os unia. Seria o fim do que nem chegou ao começo. A menos que ele saísse da inércia. Ou ela deixasse o mulherão vencer a mulherzinha.

2 comentários :

Talita Cruz disse...

Ás vezes é difícil ser Clarice, quando a grande maioria não é. E apesar de tentar, eu acho que ser mulherzinha não é suficiente pra ela. Adoro seus textos, e como vc consegue se expressar. Parabéns, bjs!

poros-abertos.blogspot.com

Ariadne Lima disse...

Oi, linda, obrigada. :) Vou falar pra Clarice parar com essa bobagem de ser mulherzinha rsrs Um beijo!