Fio de Ariadne: Amor passageiro

17 junho 2010

Amor passageiro


Era ele. Mariana sentiu o coração bater em um ritmo estranho. Não soube explicar. Sabia que era bom. Sorriu para si mesma. Há dias observava aquele rapaz. Havia decorado o ponto em que ele embarcava e esperava ansiosa a sua chegada. A condução lotada, de sete da manhã, impedia que tivessem a oportunidade de sentarem-se lado a lado. Para Mariana, no entanto, bastava a oportunidade de vê-lo. Fazia bem aos olhos e ao coração.

Tímida, olhava de soslaio, registrando cada movimento, cada olhar, cada esboço de palavra, num Big Brother sem câmeras e sem disputas. Imaginava diálogos e situações ao lado dele, rindo-se sempre da própria tolice. Nada sabia sobre aquele homem e talvez justamente o desconhecido fosse o que mais a atraísse. Podia supor nomes, profissões, preferências.

A fita que sustentava o crachá, despretensiosamente colocado no pescoço, denunciava o local de trabalho. Mariana esforçou-se para ler o nome do funcionário. Em vão. A identificação do jovem rapaz estava encoberta pela camisa. Ah, sim, a camisa! Era sempre bem passada, de gola e botão, colocada impecavelmente dentro da calça. “Mauricinho”, pensou Mariana sem usar a palavra no sentido pejorativo. Gostava de “Mauricinhos”. Sorriu discretamente, fingindo distrair-se com algo na janela.

Por vezes, a jovem moça teve a impressão de também estar sendo olhada. Por algumas, os olhares chegaram a se encontrar, desviando-se em seguida, numa coreografia particular. Os dele eram olhos cor de mel, doces, infantis, colocados quase estrategicamente por Deus em um rosto de homem. Quantos anos teria afinal? Para Mariana não importava. Gostava daquele platonismo consciente, como forma de se distrair enquanto o amor não vem.

Incomodava-lhe, no entanto, saber que talvez nunca mais voltasse a vê-lo. No dia seguinte, ela começaria o trabalho em uma nova unidade da empresa, o que significaria outro itinerário. Em horas como aquela, gostaria de ser menos tímida, flerta-lo mais explicitamente, puxar conversa ou até mesmo ter a ousadia de lhe passar seu cartão. Condenava-se, imaginando o que poderia ser e não seria. “Pura incompetência para se relacionar”, criticava a si mesma.

Mariana olhou pela janela. Assustou-se. Distraída, quase havia passado do ponto em que desceria. Levantou de repente, lançando um último olhar para ele, numa suave fotografia mental. Desceu, já envolvida nos pensamentos rotineiros do trabalho. Como já fizera com tantas coisas na vida, deixava para trás o amor secreto. Marcante. Mas tão passageiro quanto cada um dos que seguiam viagem.

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