Fio de Ariadne: Junho 2010

28 junho 2010

Trocas da convivência

Conviver é uma troca. Como toda troca, pode ser vantajosa ou não. A boa notícia é que quem determina se vai ser vantajosa ou não somos nós mesmos. Quando convivemos com alguém, a relação freqüente acaba nos brindando com um pouco do que o outro carrega. Às vezes incorporamos trejeitos, expressões, ideais, visões de mundo e até mesmo características da pessoa próxima. O que percebo, entretanto, é que nem sempre há um filtro, um “controle de qualidade” do que extrair de outra pessoa.

Reparo o quanto é delicioso aprender com o outro e até mesmo mudar nosso ponto de vista por entender que o dele é mais bacana. No entanto, vejo que o que algumas pessoas absorvem de outras é exatamente aquele defeitinho chato, que lhes tira todo o charme. Uma mania, uma implicância ou até mesmo a falta de sensibilidade. Algumas pessoas têm o dom de ensinarem às outras como não sentir. Outras têm o dom de aprender. Quando duas pessoas assim se encontram, o resultado é a multiplicação de chatices.

Penso, então, que, antes de ser uma troca, conviver é uma arte. A arte de saber que o outro sempre tem coisas muito mais legais pra nos doar do que defeitinhos absolutamente deletáveis. A procura por algo de bom pode ser longa em alguns casos, mas, sem dúvida, vale bem mais que multiplicar chatices por aí. Se for para brincar de matemática, que seja povoando o mundo de boas ações, bons sentimentos, boas atitudes. Exercício de hoje: pensar sobre o que estamos, sem perceber, aprendendo. E ensinando.

22 junho 2010

Eu, mulherão


Sempre desconfiei, mas nada como ter a certeza: sou um mulherão. Não que eu tenha, de uma hora pra outra, ganhado maiô estilizado, máscara e capa de super-heroína. Mulherão também sofre, também tem suas fraquezas e inseguranças. O fato é que ela enfrenta tudo isso com cara de quem acabou de sair do cabeleireiro. Mais: ela sente-se como se tivesse acabado de sair do cabeleireiro.

Mulherão não deixa o medo a vencer e menos ainda deixa desenrolarem-se situações que a incomodam. Um mulherão sempre sabe o que quer. Se não sabe ainda, pelo menos, sabe que não sabe e aceita-se assim. Ela não cai na armadilha da auto-piedade. Não deu, não deu, ora bolas! Vamo que vamo que uma hora dá. E ela vai. Respira fundo e dispara. Dá-se o direito de fazer umas pausas de vez em quando porque sabe, como ninguém, a importância de parar a caminhada, contemplar a paisagem e conhecer a si mesma. Um mulherão está sempre em busca de si. E ela sabe, sem desânimo, que é uma busca que nunca termina porque ela, afinal, é uma metamorfose ambulante. E sabe que ela gosta de ser assim?

Pois, então. Eu sou um mulherão. Não do tipo que tem silicone farto ou uma super bunda, mas do tipo que tem caráter farto e uma super coragem. Mulherão é metida. Ela se acha. Na realidade, ela sabe que muitas das vezes tá fazendo cena. É justamente aí que está toda a sua verdade. Porque um mulherão não mente pra si mesma. Ela gosta de encarar os fatos. Eles não a amedrontam. Podem até trazer alguma dúvida sobre o futuro, mas ela respira fundo e pensa que o que tiver de ser será. E é. Sempre é.

Mulherão sofre também. E chora. Tem TPM, síndrome de Betty a feia. O que acontece, no entanto, é que um mulherão sabe que essas coisas passam e só a fazem mais mulher. E eita orgulho que ela tem dessa raça! Mulherão adora ser mulher. Nem liga pra tripla jornada, acha graça da imaturidade masculina e gosta de ter que lutar por tudo, porque, afinal, ela sabe que consegue. Além disso: ela consegue sem perder a sensibilidade que lhe é peculiar. Um mulherão nunca trai a si mesma, nunca esquece suas convicções, não atropela seus valores. É cheia de si, mas, nem por isso, deixa de contemplar o outro.

Demorei um pouco a entender. Precisei passar por algumas provas, mas acho que, no fim das contas, tirei uma boa nota. Sou, sim, um baita mulherão.

Abram o caminho que eu preciso passar.

20 junho 2010

Acima do sol (e de outras coisas)


Não faz muito tempo, soube, por acaso, que a banda mineira Skank faria um show no Mineirão para a gravação de seu próximo DVD. Achei legal, mas confesso que não fiquei muito empolgada. Algumas pessoas me perguntaram se eu iria ao show e minha resposta sempre era não. Acontece que a gente não manda nada na vida da gente. Na véspera da apresentação, que foi nesse sábado, 19 de junho, uma amiga me ligou dizendo que estava com um par de ingressos e que havia separado um para mim. Eu, mineiríssima, respondi de pronto: “uai, se é assim, eu animo”. Fiz um intensivão de Skank durante o dia, pois não queria fazer feio no show. Gostei muito da banda no passado, mas, de uns tempos pra cá, já não acompanhava muita coisa.

Combinamos de chegar mais cedo para conseguir um bom lugar. Então, lá fui eu, com o dia ainda claro, para o show. Mal sabia que estava recebendo um presente de Deus, em um dia, que sabemos bem, Deus e eu, que eu estava precisando. Enfim, conseguimos um bom lugar, a poucos metros do palco. Depois de bastante espera, finalmente a banda apareceu. Samuel Rosa estava visivelmente feliz e eufórico em ver o Mineirão lotado. Cerca de 60 mil pessoas. Realmente, foi emocionante. O show foi muito bacana, longo, e me fez lembrar o quanto Samuel Rosa manda bem nas letras das músicas.

A banda tocou muitas canções que me transportaram ao passado, muitas músicas que aprecio. Decidi colocar uma delas no blog, mas confesso que foi difícil a escolha. Eu poderia enumerar muitas que me tocam e que acho fantásticas. Poderia colocar aqui pérolas como Dois Rios, Tanto, Te ver, Tão seu, Sutilmente, Ainda gosto dela, Amores imperfeitos ou Resposta, que é uma música que mexe demais comigo, mas escolhi uma que, embora não seja tão profunda como algumas das que citei, foi uma das que mais me tocaram no show. Espero que apreciem e que Samuel Rosa continue nos brindando com a sabedoria e a doçura de suas palavras.

Acima do sol
Samuel Rosa/Chico Amaral



Assim ela já vai
Achar o cara que lhe queira
Como você não quis fazer

Sim, eu sei que ela só vai
Achar alguém pra vida inteira
Como você não quis

Tão fácil perceber
Que a sorte escolheu você
E você cego nem nota

Quando tudo ainda é nada,
Quando o dia é madrugada,
Você gastou sua cota

Eu não posso te ajudar,
Esse caminho não há outro
Que por você faça

Eu queria insistir,
Mas o caminho só existe
Quando você passa

Quando muito ainda é pouco,
Você quer infantil e louco
Um sol acima do sol

Mas quando sempre é sempre nunca,
Quando ao lado ainda
é muito mais longe
Que qualquer lugar

Um dia ela já vai
Achar o cara que lhe queira
Como você não quis fazer

Sim, eu sei que ela só vai
Achar alguém pra vida inteira
Como você não quis

Se a sorte lhe sorriu,
Porque não sorrir de volta?
Você nunca olha a sua volta

Não quero estar sendo mal,
Moralista ou banal
Aqui está o que me afligia

Um dia ela já vai
Achar o cara que lhe queira
Como você não quis fazer

Sim, eu sei que ela só vai
Achar alguém pra vida inteira
Como você não quis.

17 junho 2010

Malas feitas pra ficar


"Estou sempre de partida, malas feitas, portas trancadas, chave em punho. No fundo eu quero dizer 'Me impede de ir. Fica parado na minha frente e fala que eu tenho lugar por aqui, que não preciso abandonar tudo cada vez que a solidão me derruba. Me ajuda a levar a vida menos a sério, porque é só vida, afinal.' E acabo calada, porque não faz sentido dizer tudo isso sem ter pra quem." (Verônica H.)

*Retirado do blog Costurando Estrelas, que eu adoro.

Amor passageiro


Era ele. Mariana sentiu o coração bater em um ritmo estranho. Não soube explicar. Sabia que era bom. Sorriu para si mesma. Há dias observava aquele rapaz. Havia decorado o ponto em que ele embarcava e esperava ansiosa a sua chegada. A condução lotada, de sete da manhã, impedia que tivessem a oportunidade de sentarem-se lado a lado. Para Mariana, no entanto, bastava a oportunidade de vê-lo. Fazia bem aos olhos e ao coração.

Tímida, olhava de soslaio, registrando cada movimento, cada olhar, cada esboço de palavra, num Big Brother sem câmeras e sem disputas. Imaginava diálogos e situações ao lado dele, rindo-se sempre da própria tolice. Nada sabia sobre aquele homem e talvez justamente o desconhecido fosse o que mais a atraísse. Podia supor nomes, profissões, preferências.

A fita que sustentava o crachá, despretensiosamente colocado no pescoço, denunciava o local de trabalho. Mariana esforçou-se para ler o nome do funcionário. Em vão. A identificação do jovem rapaz estava encoberta pela camisa. Ah, sim, a camisa! Era sempre bem passada, de gola e botão, colocada impecavelmente dentro da calça. “Mauricinho”, pensou Mariana sem usar a palavra no sentido pejorativo. Gostava de “Mauricinhos”. Sorriu discretamente, fingindo distrair-se com algo na janela.

Por vezes, a jovem moça teve a impressão de também estar sendo olhada. Por algumas, os olhares chegaram a se encontrar, desviando-se em seguida, numa coreografia particular. Os dele eram olhos cor de mel, doces, infantis, colocados quase estrategicamente por Deus em um rosto de homem. Quantos anos teria afinal? Para Mariana não importava. Gostava daquele platonismo consciente, como forma de se distrair enquanto o amor não vem.

Incomodava-lhe, no entanto, saber que talvez nunca mais voltasse a vê-lo. No dia seguinte, ela começaria o trabalho em uma nova unidade da empresa, o que significaria outro itinerário. Em horas como aquela, gostaria de ser menos tímida, flerta-lo mais explicitamente, puxar conversa ou até mesmo ter a ousadia de lhe passar seu cartão. Condenava-se, imaginando o que poderia ser e não seria. “Pura incompetência para se relacionar”, criticava a si mesma.

Mariana olhou pela janela. Assustou-se. Distraída, quase havia passado do ponto em que desceria. Levantou de repente, lançando um último olhar para ele, numa suave fotografia mental. Desceu, já envolvida nos pensamentos rotineiros do trabalho. Como já fizera com tantas coisas na vida, deixava para trás o amor secreto. Marcante. Mas tão passageiro quanto cada um dos que seguiam viagem.

13 junho 2010

Inspiração que me faz expirar


Gosto daquilo que me inspira. Você me inspira, mas você não vem. Eu espero em vão, eu te chamo em vão, eu insisto e desisto. Tudo sem sair do lugar. Você será o dono incontestável da culpa, se minha poesia morrer de inanição. Ela vem, me olha, solta um sorriso malicioso porque sabe que me domina. Ela, minha poesia, sabe que vem quando quer vir e que estou à mercê dela. Presa ou liberta, conforme o que ela decide. E normalmente ela decide vir quando você está. Você a alimenta. Assim, você me cativa também. No pior sentido do verbo. Permaneço presa. Torturada pelo silêncio, seu e de minha poesia. O que, na verdade, é como dizer “por meu próprio silêncio”, já que minha poesia fala por mim. Preciso então que você venha. É como se meu futuro literário-filosófico dependesse disso. O que sinto já não importa. Coração de poeta é lenhado por natureza. Importa minha inspiração. Importa o que me esvazia, me desincha. Importa o tanto que tenho a dizer, o tanto que posso compartilhar com o mundo e quantas almas posso ajudar a esvaziar por meio das minhas palavras. Entende a gravidade da sua falta? Preciso que venha e que venha depressa. Não precisa trazer mimos nem flores, os olhares me bastam. Não quero promessas, conforto-me com a presença. Simples e certa. Sem firulas e exageros. Apenas ela. Apenas você. Minha inspiração e eu. Tudo por almas mais vazias e um mundo mais leve.

09 junho 2010

Túnel musical


Coloquei o CD pra tocar. Era um CD das antigas, daqueles que quase furam de tanto rodar. A cada nota, um passo no túnel do tempo. Há anos não ouvia aquelas canções. Incrível como as músicas têm o poder de nos remeter ao passado de uma forma tão absurda. É quase possível sentir novamente os cheiros, as sensações, ouvir as vozes. Foi um CD que marcou época. Trilha sonora suave e despretensiosa de um momento peculiar.

Adoro as músicas e o poder que elas têm. Ouvi-las é como ser telespectador da própria vida. Fundo sonoro de um filme antigo (ou nem tanto) em 3D, com uma função pra lá de avançada: a de nos fazer sentir tudo de novo. Fechei os olhos e me entreguei àquele momento, que já não era o hoje, mas o ontem perdido no calendário. Fui, por algumas músicas, a menina sonhadora de sete, oito anos atrás. Como ela, fiz planos, tive medos, chorei, gargalhei, fiz charme para o moço do prédio, esbravejei com o colega mala, aprendi coisas novas, fiz amigos, me apaixonei. Tudo de novo. Com o mesmo sentimento de menina, com a mesma imaturidade que hoje acho bonita porque era espontânea.

O CD rodou inteiro e, ao final, inteira também estava eu. Plena pela ideia clara de passado, presente e futuro. São peças de um quebra-cabeças que Deus tem prazer em montar. A menina de sete anos atrás era eu. Igual e, ao mesmo tempo, tão diferente. Acho que ela não imaginava que seria observada tão intimamente anos depois. Sorte que tenha boas histórias para mostrar.

08 junho 2010

Em queda livre


Meus olhos olham,
fogo e frio.
Meu olhos choram,
chuva e estio.

Entrego o sonho
e a certeza.
Perco a esperança
e a fineza.

E lanço ao alto
- me lanço ao alto! -
toda a vontade de ser livre,
todo o desejo que não tive,
toda a entrega que contive,
toda algema que guardei.

E no meu vôo de Ícaro,
sem sol, sem cera,
um vôo solto, quase um rito,
sem amarras, sem espelhos.
Toda a essência que retive.
Na paz da minha entrega,
a êxtase de ser livre!

05 junho 2010

Ele não está tão a fim de você


Impossível lembrar do leve e divertido filme “Ele não está tão a fim de você” sem lembrar da personagem Gigi, de Ginnifer Goodwin. O filme retrata bem o universo feminino, contando diferentes histórias, de diferentes mulheres. Identifiquei-me com muitas delas, mas criei com Gigi um elo especial. Talvez porque tenha ouvido comentários sobre nossa semelhança física, talvez porque ela goste de roxo tanto ou mais que eu, mas acho mesmo que pela forma infantil (no melhor sentido) como ela vê a vida e espera seu grande amor.

Muitas vezes me encantei por caras que “não estavam tão a fim de mim” e sei que isso pode acontecer muitas outras vezes. O que eu não quero perder é isso que Gigi tem: a certeza de que uma hora eu vou acertar. Uma das melhores cenas, na minha opinião (se você não viu o filme, não continue a ler este parágrafo), é aquela em que Gigi, depois de levar um fora do moço por quem está apaixonada, diz a ele que está muito mais próxima de deixar de ser sozinha do que ele. Verdade. Muito mais triste o amor não recebido porque fugiu-se dele do que o amor não recebido porque não encontrou-se no outro um terreno fértil.

Não quero protagonizar uma busca tresloucada como a de Gigi, mas quero ter a certeza de que SINTO, com todas as letras, e de que todo sentimento que vir de mim, correspondido ou não, será verdadeiro, intenso e eterno enquanto dure. É um exercício e tanto esse de conviver com um sentimento, e só com ele, sem que ele se materialize nos gestos de outra pessoa. Cansado de bater e ninguém abrir, como diria meu mestre Renato Russo, ele acaba mudando de alvo, mas um dia, como certamente diria minha amiga Gigi, um dia a gente acerta. E aí é só, literalmente, correr pro abraço. :)



Amor, meu grande amor
Ângela Roro e Ana Terra

Amor, meu grande amor,
Não chegue na hora marcada.
Assim como as canções
Como as paixões
E as palavras.

Me veja nos seus olhos,
Na minha cara lavada.
Me venha sem saber
Se sou fogo
Ou se sou água.

Amor, meu grande amor,
Me chegue assim
Bem de repente,
Sem nome ou sobrenome,
Sem sentir
O que não sente.

Pois tudo o que ofereço
É meu calor, meu endereço
A vida do teu filho
Desde o fim até o começo.

Amor, meu grande amor,
Só dure o tempo que mereça
E quando me quiser
Que seja de qualquer maneira.

Enquanto me tiver,
Que eu seja
O último e o primeiro
E quando eu te encontrar,
Meu grande amor,
Me reconheça.

03 junho 2010

Everybody's free

O que é belo é para ser compartilhado.
Segue mensagem que adoro. Ouça, sinta, reflita, deixe-se levar. =)

01 junho 2010

Encantos e paixões


Clarice sentou-se perto das árvores para descansar. Estava caminhando faz tempo. Fazia isso sempre que queria pensar um pouco mais. A natureza de Clarice já era pensante, é fato, mas naquele dia os pensamentos berravam e gesticulavam como se estivessem em rebelião. Clarice era um mulherão. Não que chamasse a atenção por onde andasse. Sua casca, na verdade, era de menina. A mulher estava atrás dos olhos negros e magnéticos. Era profunda e tinha uma insaciável sede de respostas.

Meio a toda essa curiosidade pelo mundo e pelas pessoas, vez ou outra acontecia de Clarice se apaixonar. Por vezes, era um encanto secreto e passageiro (não pouco intenso); por outras, uma relação duradoura entre Clarice e o seu sentimento (não a pessoa), em que hora Clarice amava intensamente, hora não achava muita graça.

Acontece que Clarice encantou-se novamente. Não sabia ainda que tipo de sentimento era aquele. Não estava claro. Na verdade, não estava claro nem quem ele era. Talvez por isso Clarice gostasse. E talvez por isso se irritasse também. Odiava não conseguir desvendar as pessoas. Aborrecia-se ainda mais quando era a si mesma que não conseguia decifrar. No caso, eram ambos.

Ele a encantava. E a irritava profundamente. Clarice era um mulherão. E ele? O que era? Era opaco, sombrio e irritantemente atraente. Como ousava roubar-lhe o ar de mistério que só admitia em si mesma? Como ousava não agir? Clarice gostava da atitude, essa hemorragia do sentir que tinha o poder da transformação. Seja qual fosse o resultado. Agir sempre significava não deixar as coisas como antes.

Ele não agia porém. Não se mostrava ou mostrava-se muito pouco. E Clarice, ali, naquele impasse entre a curiosidade e a indiferença. Odiava-o por ser assim tão inerte e odiava-se por ser assim tão complexa. Queria e não queria. Ele, por sua vez, parecia e não parecia querer. Clarice recusava-se a fazer o que esperava dele. Era um mulherão que gostava de, às vezes, ser mulherzinha. E estava decidido: naquela história, seria mulherzinha.

O tempo era outra coisa que a incomodava. Na verdade, detestava tudo o que a prendesse. E o tempo ria da cara da Clarice. Ria da cara dele também. Clarice sabia que o tempo não teria piedade. Nem dele, nem dela. Levaria, como uma enxurrada, tudo o que haviam construído juntos: a cumplicidade, o encantamento, as partilhas e todo aquele mistério que, por mais que a irritasse, ainda os unia. Seria o fim do que nem chegou ao começo. A menos que ele saísse da inércia. Ou ela deixasse o mulherão vencer a mulherzinha.