Fio de Ariadne: Porque somos gente, não letras e números

19 maio 2010

Porque somos gente, não letras e números


Vivemos em um mundo em que as pessoas não estão preparadas para dar e receberem atenção. O imediatismo, o mecanicismo, o consumismo e todos os “ismos” da geração contemporânea criaram seres humanos próximos de robôs. Gosto de gente, de olhar nos olhos, de abraço, sorriso, cheiro, caras e bocas. Gosto de ler nas entrelinhas, enxergar, por trás de um sorriso torto, o indício de dor, de carência, de preocupação.

Gosto de ver na caixa do supermercado, ou na moça do hotel que responde a reserva por e-mail, uma pessoa, com todas as suas felicidades e frustrações, com todas as suas limitações, sua personalidade própria e sua necessidade, mais que natural, de atenção. Acabo externando isso, com sorrisos, gestos, palavras de atenção, um cumprimento que seja. O que muitas vezes recebo de volta é um olhar espantado ou uma gratidão exagerada, como se eu tivesse feito coisa de outro mundo.

Habituamo-nos a sermos um número na lista de espera, no cartão de crédito, na matrícula da escola. Somos um CPF, uma conta bancária, uma senha, um endereço de e-mail. É esse conformismo que me incomoda. É ele que me faz querer um mundo diferente. É ele que contribui para os meus exercícios diários de filosofia.

Está errado. É gravíssimo. Quando um sorriso e um pouco de atenção deixam de ser naturais, é motivo expresso de preocupação. O que impossibilita o diálogo entre pai e filho, o que faz um chefe ignorar que um funcionário não está bem e tratá-lo como máquina de fazer coisas, o que nos permite encarar como normal aquilo que é nitidamente aberração é exatamente esse conjunto de “ismos” que nos cerca. Está na hora de pará-los. Ainda é tempo.

É preciso ensinar aos nossos filhos o quanto um gesto de carinho e respeito vale mais que um joguinho novo, uma nova conta de e-mail, ou coisa parecida. Temos que ensiná-los a arte do abraço, do toque, da empatia, da palavra esperada. É preciso perpetuar em nossos filhos o “olhar para o outro”, certos de que, como disse um sábio desconhecido, é deixando filhos melhores para o mundo que deixaremos um mundo melhor para nossos filhos. A tecnologia evoluiu e evoluirá sempre. Nós, porém, seremos eternamente gente, não letras e números.

5 comentários :

Lígia disse...

Ei, amiga... do jeito que as coisas estão, o melhor mesmo é não ter filhos.

Pode parecer estranho, mas eu até gosto de ser um número... rs.

Abraços!

Perdido é todo o tempo que em amor não se gasta. disse...

Muito bom seu post, é incrível como as coisas estão mecânicas hoje em dia, e , mesmao as pessoas estando mais conectadas do que nunca, elas nunca sentiram tanta solidão...
É, o que resta é investirmos nos pequenos gestos que podem mudar o dia de alguém...
Abç
Neilon

Perdido é todo o tempo que em amor não se gasta. disse...

Muito bom seu post, é incrível como as coisas estão mecânicas hoje em dia, e , mesmao as pessoas estando mais conectadas do que nunca, elas nunca sentiram tanta solidão...
É, o que resta é investirmos nos pequenos gestos que podem mudar o dia de alguém...
Abç
Neilon

Leonardo Xavier disse...

É Ariadne, você tem toda a razão! Eu acho que tem um "ismo" de humanismo que todos deveríamos aprender a praticar mais.

Raquel disse...

Muito bonito isso, Di. No entanto, nadar contra a maré cansa.