Fio de Ariadne: Libertando uma lágrima

10 maio 2010

Libertando uma lágrima


Tem uma lágrima agarrada aqui dentro. Já pedi pra ela descer, mas não adianta. Está tímida. Prefere o conforto do meu coração. Ainda que seja inverno. Ainda que esteja frio onde ela está. Ela prefere ficar. Talvez não imagine o peso de sua decisão. Já é tarde e não consigo dormir. Não consigo porque ela não sai. Na verdade, nem ela nem eu sabemos porque ela existe. Sei apenas que ela precisa sair. E ela, que precisa ficar. Permanecemos assim, nesse impasse.

É dolorido parir uma lágrima. Por outro lado, não é saudável alimentá-la. Lá dentro, ela incha, pesa, toma proporções que não tinha antes. Já cultivei lágrimas tímidas outras vezes. É sempre melhor quando ela decide sair.

Hoje ela está tinhosa, mas, cedo ou tarde, vai dar o ar da graça. Nem que seja por excesso de peso. Pensei num chocolate, mas acho que aí é que não sairá nunca. Vou deixá-la sair seca, escorrer fraca, sem amparo, que é pra aprender a não fazer isso de novo.

Ela fica lá e eu fico estranha. Uma dor extra-física, um pedaço faltando, como se ela fosse corrosiva. Anda pra lá e pra cá dentro de mim. Gosta de estar presa, sem piedade, já que sabe que, assim, também me prende. Trabalha minha paciência até o momento em que, por um segundo que seja, eu a esqueça. É, então, quando ela sai tranquila, como a dizer-me, com elegância, que me domina e que tem menos tamanho e importância que os que lhe creditei.

Um comentário :

Atena disse...

Por este texto vê-se que além de jornalista é poetisa. Adorei.
Atena