Fio de Ariadne: Duas almas

26 maio 2010

Duas almas


A Alma dela vestia sandálias, jeans e camiseta. Branca. A dele estava de chinelos, bermuda e camisa social. Engomada, de gola e botão. Estava assim, sem saber ao certo quem precisava ser. Ela achava engraçado, mas gostava. Até concordava ser possível encontrar o meio termo, entre a camisa de botão e a bermuda.

O fato é que essas duas almas haviam se esbarrado numa dessas vagâncias pelo mundo. Foi um esbarrão despretensioso, inesperado e, sobretudo, indolor. Na verdade, foi bem mais que isso: um suave e delicioso esbarrão. Eram almas afins, com roupas diferentes, mas cheias de esquisitices comuns. A dela se alimentava de palavras, embora soubesse a importância do silêncio. A dele se alimentava de silêncio, embora soubesse a importância das palavras. Entendiam-se assim.

Passaram a seguir lado a lado, vezes em silêncio, vezes com as palavras. Não sabiam ainda se iriam a algum lugar, apenas seguiam. O caminhar, por si só, era agradável. Eram almas sozinhas que se acompanhavam. Zombavam de sua própria solidão, gargalhavam juntos e a gargalhada era sempre seguida de silêncio, como se ele ajudasse a assimilar o sentimento.

A alma dela era muito à vontade em sua camiseta branca e a dele gostava de sua camisa de botões, embora por vezes quisesse usar apenas as bermudas. A dela queria apenas que a dele fosse livre. A dele, apenas que a dela voasse junto. Era o que faziam, então. Voavam juntos, compartilhavam suas inquietações de alma, muitas das vezes sem precisarem dizer nada. Eram almas cheias de vida, embora a morte não fosse um assunto que os assustasse. Sabiam que a vida era um conjunto de mortes e nascimentos. O que importava era que estivessem juntos em quaisquer desses momentos.

Por vezes, ela o olhava e ria. Ele fazia que não entendia, mas no fundo sabia que era um riso sem vícios, provocado pela simples alegria de estarem ali. Ela não se incomodava com a aparente displicência. Fazia-se de tola também. Daquele jeito, eram felizes juntos. Eram duas almas leves, descompromissadas. Naquela caminhada, apenas o vínculo, aparentemente sutil, mas que, para elas, as duas almas vagantes, era claro e revigorante como água.

3 comentários :

Raquel disse...

eu acho essa estrutura genial: ele isso... ela aquilo... é simples e bonita.

Malu Machado disse...

"A dela se alimentava de palavras, embora soubesse a importância do silêncio. A dele se alimentava de silêncio..." O amor do oposto que se completa. Sempre ele, o amor, eterno e tão atual. Belo texto. Chegando e te seguindo. Te convido para conhecer um pouco do meu espaço. Abs e boas escritas.

Ariadne Lima disse...

Obrigada, Malu Machado! Volte sempre. Vou fazer uma visitinha ao seu. Abraço!