Fio de Ariadne: Maio 2010

30 maio 2010

Ostrachismo (ou Carta à uma ostra)


Não tenho piedade da sua solidão,
do seu ar calcificado,
do seu mundo calado.

Tenha, você, piedade de mim,
do meu ar poluído,
do meu mundo caído,
dessa guerra sem armas,
do confronto de carmas.

Hoje tudo o que eu acho
é que na minha concha
eu me acho.

E invejo seu mundo.
Unicamente seu.

26 maio 2010

Duas almas


A Alma dela vestia sandálias, jeans e camiseta. Branca. A dele estava de chinelos, bermuda e camisa social. Engomada, de gola e botão. Estava assim, sem saber ao certo quem precisava ser. Ela achava engraçado, mas gostava. Até concordava ser possível encontrar o meio termo, entre a camisa de botão e a bermuda.

O fato é que essas duas almas haviam se esbarrado numa dessas vagâncias pelo mundo. Foi um esbarrão despretensioso, inesperado e, sobretudo, indolor. Na verdade, foi bem mais que isso: um suave e delicioso esbarrão. Eram almas afins, com roupas diferentes, mas cheias de esquisitices comuns. A dela se alimentava de palavras, embora soubesse a importância do silêncio. A dele se alimentava de silêncio, embora soubesse a importância das palavras. Entendiam-se assim.

Passaram a seguir lado a lado, vezes em silêncio, vezes com as palavras. Não sabiam ainda se iriam a algum lugar, apenas seguiam. O caminhar, por si só, era agradável. Eram almas sozinhas que se acompanhavam. Zombavam de sua própria solidão, gargalhavam juntos e a gargalhada era sempre seguida de silêncio, como se ele ajudasse a assimilar o sentimento.

A alma dela era muito à vontade em sua camiseta branca e a dele gostava de sua camisa de botões, embora por vezes quisesse usar apenas as bermudas. A dela queria apenas que a dele fosse livre. A dele, apenas que a dela voasse junto. Era o que faziam, então. Voavam juntos, compartilhavam suas inquietações de alma, muitas das vezes sem precisarem dizer nada. Eram almas cheias de vida, embora a morte não fosse um assunto que os assustasse. Sabiam que a vida era um conjunto de mortes e nascimentos. O que importava era que estivessem juntos em quaisquer desses momentos.

Por vezes, ela o olhava e ria. Ele fazia que não entendia, mas no fundo sabia que era um riso sem vícios, provocado pela simples alegria de estarem ali. Ela não se incomodava com a aparente displicência. Fazia-se de tola também. Daquele jeito, eram felizes juntos. Eram duas almas leves, descompromissadas. Naquela caminhada, apenas o vínculo, aparentemente sutil, mas que, para elas, as duas almas vagantes, era claro e revigorante como água.

19 maio 2010

Porque somos gente, não letras e números


Vivemos em um mundo em que as pessoas não estão preparadas para dar e receberem atenção. O imediatismo, o mecanicismo, o consumismo e todos os “ismos” da geração contemporânea criaram seres humanos próximos de robôs. Gosto de gente, de olhar nos olhos, de abraço, sorriso, cheiro, caras e bocas. Gosto de ler nas entrelinhas, enxergar, por trás de um sorriso torto, o indício de dor, de carência, de preocupação.

Gosto de ver na caixa do supermercado, ou na moça do hotel que responde a reserva por e-mail, uma pessoa, com todas as suas felicidades e frustrações, com todas as suas limitações, sua personalidade própria e sua necessidade, mais que natural, de atenção. Acabo externando isso, com sorrisos, gestos, palavras de atenção, um cumprimento que seja. O que muitas vezes recebo de volta é um olhar espantado ou uma gratidão exagerada, como se eu tivesse feito coisa de outro mundo.

Habituamo-nos a sermos um número na lista de espera, no cartão de crédito, na matrícula da escola. Somos um CPF, uma conta bancária, uma senha, um endereço de e-mail. É esse conformismo que me incomoda. É ele que me faz querer um mundo diferente. É ele que contribui para os meus exercícios diários de filosofia.

Está errado. É gravíssimo. Quando um sorriso e um pouco de atenção deixam de ser naturais, é motivo expresso de preocupação. O que impossibilita o diálogo entre pai e filho, o que faz um chefe ignorar que um funcionário não está bem e tratá-lo como máquina de fazer coisas, o que nos permite encarar como normal aquilo que é nitidamente aberração é exatamente esse conjunto de “ismos” que nos cerca. Está na hora de pará-los. Ainda é tempo.

É preciso ensinar aos nossos filhos o quanto um gesto de carinho e respeito vale mais que um joguinho novo, uma nova conta de e-mail, ou coisa parecida. Temos que ensiná-los a arte do abraço, do toque, da empatia, da palavra esperada. É preciso perpetuar em nossos filhos o “olhar para o outro”, certos de que, como disse um sábio desconhecido, é deixando filhos melhores para o mundo que deixaremos um mundo melhor para nossos filhos. A tecnologia evoluiu e evoluirá sempre. Nós, porém, seremos eternamente gente, não letras e números.

16 maio 2010

Inquietação


Sou dona de uma inquietação que não sei explicar. Acho que é vontade de fazer as coisas acontecerem. Quero e quero tanto que o tempo, com os seus ponteiros perfeccionistas, não consegue me acompanhar. O desejo é o que me move. Em tudo. Se falta desejo, falta um pouco de mim nas coisas que faço. Não gosto quando acontece. A inquietação é o que me move. Preciso dela. A inquietação é uma sede que não passa. Quanto mais água eu tomo, mais eu quero beber.

Não, não é ambição, já aviso aos mais críticos. É um desejo infindável de viver. Uma força que me cutuca, que não me deixa esquecer a velocidade dos anos. É aí que eu tento ser mais rápida que o tempo. Isso, sim, eu não acho bom. A ansiedade é a água que escorre pelo ralo. É energia desperdiçada.

Da inquietação eu gosto. É ela que me faz escrever, inclusive. Contorce-se dentro de mim, gritando por liberdade, como se pudesse sair apenas por meio das palavras. Eu deixo. Gosto da liberdade. Prezo pela minha e pela dos outros. Convivemos bem assim. Eu e a minha inquietação. Eu a deixo livre e, em contrapartida, ela me faz seguir em frente.

Desculpe-me, mas tenho que ir agora. Preciso de mais água.

13 maio 2010

Classificados


Procura-se um amor. Que não seja como o dos livros, mas que tenha magia. Que não transforme abóboras em carruagens, mas transforme olhares em respostas. Não quero o amor das baladas, do “cala a boca e beija logo”, do “ninguém é de ninguém”. Que seja de beijos “até que os olhos mudem de cor”, que seja de paixão, de pele, mas não do agora; que seja do sempre. Ou pelo menos do “eterno enquanto dure”. E que dure.

Procura-se um amor que goste de banho de chuva, de algodão doce no parque, de brigadeiro com coca-cola nas tardes de domingo. Que tenha saco para ouvir minhas empolgações profissionais e entenda que ficar em casa em uma sexta-feira à noite pode ser uma grande idéia. Que encha minha bola quando a TPM tratar de murcha-la e murche minha barriga quando a TPM tratar de incha-la.

Procura-se um amor sem cheiro de mofo, sem medo de fantasmas, sem música sertaneja, sem rimas de amor e dor. Que fale firme quando eu precise, que me ajude a livrar-me das manias chatas, que me ensine a ser mais forte. Que ele erre como qualquer mortal, mas que erre sabendo que o erro é a oportunidade de aprender como não se fazer de novo.

Que ele ame as palavras e faça bom uso delas. Que goste do silêncio e entenda que, por muitas vezes, ele é a resposta mais sábia. Que sorria como quem revela a alma. E que chore, certo de que quem disse pela primeira vez que homem não chora inventou a maior bobagem da humanidade. Procura-se um amor que cante, ainda que no chuveiro. Que dance, ainda que meus pés o odeiem por isso.

Procura-se um amor com cara de para sempre, como o dos avós que ainda passeiam de mãos dadas pela rua e se compreendem no tom da voz, na respiração, no olhar. Procura-se um amor que adore meu pijama de elefantinhos e ache minha macarronada melhor que todas as guloseimas da casa da tia de Passa Quatro.

Procura-se um amor que tome meus pais por empréstimo e que não se importe de me emprestar os seus de vez em quando. Procura-se um amor que divida a conta, mas não se incomode se, algum dia, um ou outro tiver que pagá-la sozinho. Que goste do cheiro de mato, mesmo adorando avistar do mirante tantos prédios, ruas e histórias. Que saiba diferenciar um não sensato de um sim submisso. Que não encare o amor como moeda de troca e que não faça da companhia um compromisso formal lavrado em cartório.

Procura-se um amor que entenda que, de tanto tempo, tanta história e tanta busca, cansei-me de procurar e agora espero, serena, tranqüila, que ele me encontre.

10 maio 2010

Libertando uma lágrima


Tem uma lágrima agarrada aqui dentro. Já pedi pra ela descer, mas não adianta. Está tímida. Prefere o conforto do meu coração. Ainda que seja inverno. Ainda que esteja frio onde ela está. Ela prefere ficar. Talvez não imagine o peso de sua decisão. Já é tarde e não consigo dormir. Não consigo porque ela não sai. Na verdade, nem ela nem eu sabemos porque ela existe. Sei apenas que ela precisa sair. E ela, que precisa ficar. Permanecemos assim, nesse impasse.

É dolorido parir uma lágrima. Por outro lado, não é saudável alimentá-la. Lá dentro, ela incha, pesa, toma proporções que não tinha antes. Já cultivei lágrimas tímidas outras vezes. É sempre melhor quando ela decide sair.

Hoje ela está tinhosa, mas, cedo ou tarde, vai dar o ar da graça. Nem que seja por excesso de peso. Pensei num chocolate, mas acho que aí é que não sairá nunca. Vou deixá-la sair seca, escorrer fraca, sem amparo, que é pra aprender a não fazer isso de novo.

Ela fica lá e eu fico estranha. Uma dor extra-física, um pedaço faltando, como se ela fosse corrosiva. Anda pra lá e pra cá dentro de mim. Gosta de estar presa, sem piedade, já que sabe que, assim, também me prende. Trabalha minha paciência até o momento em que, por um segundo que seja, eu a esqueça. É, então, quando ela sai tranquila, como a dizer-me, com elegância, que me domina e que tem menos tamanho e importância que os que lhe creditei.

08 maio 2010

Os porquês de viver


Às vezes dá raiva ser assim tão guardada. Tem uma guarda imperial em torno de mim. E tudo o que eu consigo é deixar alguém burlá-la de vez em quando. Do lado de cá, as coisas são legais, juro. Dá vontade de mostrar, às vezes, mas eu tenho medo. É que já andaram fazendo bagunça aqui dentro. Complicado isso de confiar nas pessoas. Se Deus abrisse uma caixinha de sugestões, eu escreveria que pessoas boas deveriam, sim, ter estrela na testa. Seria tão mais fácil! Ultimamente, o mundo anda tão complicado, as pessoas tão egoístas e ambiciosas, que comemoro sempre que alguém me surpreende positivamente. Atitudes boas tornaram-se raridade a ser comemorada com toda a pompa.

De vez em quando, me sinto como Renato Russo. Sou meio deslocada no mundo. Lembro da música em que ele escreveu: “tenho quase certeza que eu não sou daqui”. Sabe, Renato... Eu também. Pergunto-me seriamente, pelo menos duas vezes ao mês, o que estou fazendo aqui. E, em cada uma delas, lá vai uma semana tentando encontrar a resposta. Não encontro, é claro. Talvez o sentido da vida seja exatamente este: buscar respostas. Às vezes, a gente até acha que encontrou, mas não demora a perceber que foi alarme falso. E, então, seguimos procurando. Isso embola os miolos, mas, quer saber? Acho o máximo. É o grande jogo da vida.

Adoro procurar respostas. Diria que é um dos meus maiores prazeres, se não o maior. Buscar respostas, entender as pessoas, colecionar histórias que hoje podem ser verdades universais, mas, como somos uma “metamorfose ambulante”, amanhã acabam caducando. Essa é a maravilha de viver. Nada é certo. E, por isso mesmo, essa instituição chamada vida, com todos os seus sins e nãos, é absolutamente inabalável.

Preciso confessar uma coisa: acabo de conceder férias à minha fiel e pomposa guarda imperial.

05 maio 2010

Em que espelho ficou perdida minha porção Cecília?


Em que papel ficou perdida minha poesia?
Para onde enviei minhas dores,
minhas agonias?
Terão morrido sufocadas,
asfixiadas dentro do peito,
sem caderno, sem caneta,
sem um poema sequer
que as acolhesse?

Em que mundo terá ficado minha inspiração?
Terá secado, tal qual solo nordestino,
a lembrar minhas origens,
meu passado ancestral?

Bela poeta de meia tigela!
Que se deixou perder
antes mesmo de completar
meia dúzia de leads mal feitos.