Fio de Ariadne: Vidinha mais ou menos

14 abril 2010

Vidinha mais ou menos

"Gaste mais horas realizando que sonhando,
fazendo que planejando,
vivendo que esperando porque,
embora quem quase morre esteja vivo,
quem quase vive já morreu."

Sarah Westphal Batista da Silva




Norma, a quem cabe muito bem o trocadilho “morna”, é uma mulher de estatura mediana, mais ou menos gordinha, nem feia, nem bonita. Nasceu e cresceu no mesmo lugar, de onde traz lembranças vagas da infância. Não foi uma criança das mais quietinhas, embora não colecionasse muitas travessuras pra contar. Na escola, não dava trabalho e nunca saiu da média. Hoje, mora em um apartamento padronizado, em um bairro de classe média, numa cidade de tamanho razoável.

Norma gosta de rock, mas também ouve música clássica e, vez ou outra, se arrisca no forró. Lê livros que não considera “cults”, mas acredita que a intelectualidade está no leitor, como co-autor das histórias, e não exatamente no teor dos livros. A cozinha não é o seu forte, mas faz uma média com pão como ninguém. Quando tem visitas, consegue deixar a casa quase toda arrumada. No dia-a-dia, nem sempre é possível, pois está quase sempre atolada no trabalho.

A empresa em que Norma trabalha é de médio porte, mas, como ela diz, “está em ascensão”. Ela é uma funcionária padrão. Nunca houve quem reclamasse, mas também não costuma ouvir elogios. Na verdade, Norma nem sabe ouvir elogios. Reage estranho. Melhor: não reage. Quem a conhece de perto, não se importa. Norma também não elogia.

Dia desses, ela arrumou namorado. Faziam planos de casarem-se. Ele não era um grande partido, mas para Norma estava suficiente. Era um namoro bacana. Gostavam mais ou menos das mesmas coisas e adoravam as teorias da vida, que lhes rendiam boas horas de conversa. Eram mesmo duas metades. Dia desses, quando estavam prestes a subirem ao altar (pobre Norma!), o romance teve fim. Nossa heroína chorou e quase sucumbiu, mas logo retomou sua vidinha e hoje acha até que está pronta pra outra.

Com a família, Norma consegue ser quase presente. Não falta nos aniversários e sempre leva panetones no Natal. Nos banquetes com os parentes, gosta de levar as sobras pra casa. Matulas do almoço sempre têm utilidade na casa de uma moça solteira. Dá-se bem com as tias chatas, dessas que todo mundo tem, mas tem suas diferenças com as primas mais moderninhas. Irrita-se, principalmente, com as piadinhas que elas fazem sobre seu vestuário. Devo dizer: Norma veste-se como as tias chatas.

Entre amigos, ela consegue soltar-se um pouco mais. Tem lá suas opiniões, mas, convence-se com argumentos bem amarrados. Espelha-se em alguns amigos. Gostaria de ser como algumas de suas amigas, com mais estilo, mais leveza e, até mesmo, mais doçura, mas tudo o que tenta sai sem sal ou sem açúcar. Admira também alguns de seus amigos homens, com tanta inteligência, perspicácia e convicção em suas opiniões, mas sempre que tenta parecer firme, torna-se grossa e sempre que tenta ser doce, soa falsa. Perde-se tanto entre o que quer ser e o que realmente é que acaba não sendo ninguém.

E, assim, entre o mais e o menos, Norma continua vivendo. Um dia a vida a levará, certamente, e talvez a terão preenchido (ou ao menos parte dela) os seus laços mal atados, seus amores mal vividos, suas amizades não profundas, seus projetos inconcluídos. Talvez ela siga seu caminho preenchida até a metade. Para Norma já estará bom. A vida continuaria e o mundo ainda seria mundo. Por fim, em sua lápide, alguns chamariam sua história de triste, mas é tudo uma questão de perspectiva. Prefiro ser otimista. Para mim, a história de Norma é apenas quase feliz.

3 comentários :

Anônimo disse...

Bom o texto Di...mas acho que todos temos uma fase meio Norma, digo morna...rs
Tate

Raquel disse...

Excelente texto!

Ao mesmo tempo q me irrita a vida mediana, me irrita também o elogio moderno ao extremismo. Afinal, a busca de Norma... tão legitima quanto qualquer outra? Sim ou não? Vai saber...

Leonardo Xavier disse...

Talvez sejamos todos meio "Normas", afinal de contas não há felicidade completa e talvez aceitar as vida com suas coisas boas e coisas ruins seja o melhor jeito de seguir em frente.