Fio de Ariadne: O retorno de Clarice

05 abril 2010

O retorno de Clarice


Ah, Clarice! Tão pensante! Tão metida à mulher, tão independente, tão ousada, tão livre, tão segura. Tão sozinha! Já nem se lembra da última vez que se apaixonou. É bom - disso ela se lembra bem -, mas é uma sensação que ficou perdida no tempo, meio amarelada, como os poemas que gostava de escrever na adolescência. Guarda apenas a lembrança de alguns romances que acabaram perdidos com as intolerâncias da juventude.

Achou, por algum tempo, que podia viver bem sozinha. Agora, no entanto, bate a falta de sentir de novo. Sábio Balzac que reverenciou a mulher de 30! A diferença existe. Depois dos 30, o olhar desanuvia, a cabeça esfria e o coração começa a considerar novas possibilidades. Já sabe se defender melhor, começa a ficar velhaco. O de Clarice está assim. E ela quer se apaixonar de novo.

Engraçado! Se Murphy também gosta de agir nos terrenos do coração, Clarice está sob a força da Lei. Nem um moço, de longe sequer, chama a sua atenção. Nenhum olhar masculino toca além da sua vaidade. Logo agora que ela quer tanto. Por algum tempo, ela chegou a pensar que a culpa fosse toda sua. Talvez, tanto tempo sem gostar de alguém a tivesse deixado fria de vez. Mas, no fundo, ela sabia que não era isso. Clarice tem alma de artista e artistas nunca perdem a capacidade de amar. Podem, sim, mudar o foco por algum tempo, seja por opção, auto-defesa ou falta de oportunidades do destino, mas esfriar o coração, isso não. Vai contra a arte.

Clarice sabe que ainda pode acontecer. Na verdade, sente que vai ser logo e, se uma coisa nunca lhe faltou, é a intuição. Ela tem medo. Não sabe se ainda sabe viver um grande amor. Mas é um medo que vem num lampejo, na verdade. Ela sabe que sentir, amar verdadeiramente, é como andar de bicicleta ou escrever as poesias da adolescência: o retorno pode até ter seus tropeços, mas esquecer... Ah, isso ninguém esquece.

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