Fio de Ariadne: Abril 2010

27 abril 2010

Estou atrasado, estou atrasado!

Assisti ontem o delicioso Alice no País das Maravilhas, de Tim Burton. A história da menina que entra em um mundo mágico sempre me fascinou. Não é por acaso que minha personagem, tão presente neste blog, chama-se Alice. Como estou passando por alguns dias de bloqueio criativo (leia-se TPM), resolvi postar um texto das antigas que remete à história de Lewis Carroll. Espero que gostem!



Alice abriu os olhos. Apesar de escura, a cortina deixava escapar, por uma fresta, a claridade do dia que já começara. Colocou o travesseiro sobre a cabeça, em sinal de irritação. Fechou os olhos novamente, tentou dormir. Foi em vão. Na realidade, não sabia sequer como conseguira pregar o olho naquela noite. Acabara adormecendo pelo cansaço gerado pelas lágrimas. Ao acordar, teve a impressão de que não dormira. O turbilhão de pensamentos que a invadiu na noite anterior retornou com a mesma impiedosa voracidade de horas atrás.

Alice não conseguia compreender como pessoas, coisas e acontecimentos andavam tão descompassados em sua vida. Lembrou o coelho do conto infantil - "Estou atrasado, Estou atrasado!" - e então se sentiu como a menina do País da Maravilhas. As coisas em sua vida nunca estavam no lugar. Hora a atrasada era ela, hora, as pessoas. E, mais uma vez, Alice se sentiu como a xará da história inglesa: quase afogada em suas próprias mágoas.

Ficou mais alguns minutos na cama. Não queria levantar, mas era preciso. Arrumou-se e saiu. Não sabia ao certo aonde iria. Sabia apenas que não queria ficar ali. Caminhou sem rumo por alguns instantes, até que se decidiu ir ao parque da cidade. Era um belo parque; cheio do verde das árvores e do colorido das flores. De lá se ouvia o canto dos pássaros e o som da grama crescida sacudida pelo vento. O sossego não lembrava sequer de longe o barulhento trânsito da metrópole.

Alice sentou-se à sombra de uma árvore e mergulhou em seus pensamentos. Ria-se do próprio tormento, imaginando que, embora andasse mil léguas, seus pensamentos ainda a alcançariam. Dedicou-se às lembranças. Não que esta fosse a sua vontade, mas elas afloravam em sua mente, como se nunca a tivessem deixado. Alice sentiu saudades. Lembrou logo que a saudade é um consolo, uma lembrança de felicidade. E, naquele momento, Alice não estava feliz.

A triste moça pensava em como momentos tão especiais haviam se transformado em mágoa e dor. Ela não queria respostas. Elas não adiantariam mais. A perda era um fato consumado. O que poderia ser feito, a partir de então, era evitar que tudo se repetisse. O mais difícil para Alice, naquela ocasião, era saber que "evitar que tudo se repetisse" incluía os bons momentos.

Alice sabia que não errara por querer e que, na mesma medida, os outros não erravam propositalmente. A natureza egocêntrica do ser humano só deseja acertar. Alice, no entanto, errara. E erraram também aqueles que fizeram Alice chorar. Doía-lhe saber que o relógio era o que mais pesava naquele desfecho: "Hora a atrasada era ela, hora, as pessoas." Sentia-se como se, tal qual no conto, uma rainha perversa condenasse: "Cortem as cabeças!" Uma rainha de Copas (ironicamente simbolizada por corações) condenando-lhes por não terem sabido jogar.

Alice levantou-se e retornou a passos lentos. Doía-lhe a cabeça, os olhos, o corpo... Doía-lhe ainda mais onde o físico não seria capaz de chegar. Tinha esperanças, no entanto. Ela se recuperaria. Fora, aliás, com o intuito de não interromper a cicatrização das feridas que a jovem havia se decidido por não burlar as leis do tempo. Estava, agora, de volta à sua vida. Tentava esquecer os jogos do passado e a rainha que a tentara castigar. Jogava paciência. Era tudo o que precisava naquele instante.

14 abril 2010

Vidinha mais ou menos

"Gaste mais horas realizando que sonhando,
fazendo que planejando,
vivendo que esperando porque,
embora quem quase morre esteja vivo,
quem quase vive já morreu."

Sarah Westphal Batista da Silva




Norma, a quem cabe muito bem o trocadilho “morna”, é uma mulher de estatura mediana, mais ou menos gordinha, nem feia, nem bonita. Nasceu e cresceu no mesmo lugar, de onde traz lembranças vagas da infância. Não foi uma criança das mais quietinhas, embora não colecionasse muitas travessuras pra contar. Na escola, não dava trabalho e nunca saiu da média. Hoje, mora em um apartamento padronizado, em um bairro de classe média, numa cidade de tamanho razoável.

Norma gosta de rock, mas também ouve música clássica e, vez ou outra, se arrisca no forró. Lê livros que não considera “cults”, mas acredita que a intelectualidade está no leitor, como co-autor das histórias, e não exatamente no teor dos livros. A cozinha não é o seu forte, mas faz uma média com pão como ninguém. Quando tem visitas, consegue deixar a casa quase toda arrumada. No dia-a-dia, nem sempre é possível, pois está quase sempre atolada no trabalho.

A empresa em que Norma trabalha é de médio porte, mas, como ela diz, “está em ascensão”. Ela é uma funcionária padrão. Nunca houve quem reclamasse, mas também não costuma ouvir elogios. Na verdade, Norma nem sabe ouvir elogios. Reage estranho. Melhor: não reage. Quem a conhece de perto, não se importa. Norma também não elogia.

Dia desses, ela arrumou namorado. Faziam planos de casarem-se. Ele não era um grande partido, mas para Norma estava suficiente. Era um namoro bacana. Gostavam mais ou menos das mesmas coisas e adoravam as teorias da vida, que lhes rendiam boas horas de conversa. Eram mesmo duas metades. Dia desses, quando estavam prestes a subirem ao altar (pobre Norma!), o romance teve fim. Nossa heroína chorou e quase sucumbiu, mas logo retomou sua vidinha e hoje acha até que está pronta pra outra.

Com a família, Norma consegue ser quase presente. Não falta nos aniversários e sempre leva panetones no Natal. Nos banquetes com os parentes, gosta de levar as sobras pra casa. Matulas do almoço sempre têm utilidade na casa de uma moça solteira. Dá-se bem com as tias chatas, dessas que todo mundo tem, mas tem suas diferenças com as primas mais moderninhas. Irrita-se, principalmente, com as piadinhas que elas fazem sobre seu vestuário. Devo dizer: Norma veste-se como as tias chatas.

Entre amigos, ela consegue soltar-se um pouco mais. Tem lá suas opiniões, mas, convence-se com argumentos bem amarrados. Espelha-se em alguns amigos. Gostaria de ser como algumas de suas amigas, com mais estilo, mais leveza e, até mesmo, mais doçura, mas tudo o que tenta sai sem sal ou sem açúcar. Admira também alguns de seus amigos homens, com tanta inteligência, perspicácia e convicção em suas opiniões, mas sempre que tenta parecer firme, torna-se grossa e sempre que tenta ser doce, soa falsa. Perde-se tanto entre o que quer ser e o que realmente é que acaba não sendo ninguém.

E, assim, entre o mais e o menos, Norma continua vivendo. Um dia a vida a levará, certamente, e talvez a terão preenchido (ou ao menos parte dela) os seus laços mal atados, seus amores mal vividos, suas amizades não profundas, seus projetos inconcluídos. Talvez ela siga seu caminho preenchida até a metade. Para Norma já estará bom. A vida continuaria e o mundo ainda seria mundo. Por fim, em sua lápide, alguns chamariam sua história de triste, mas é tudo uma questão de perspectiva. Prefiro ser otimista. Para mim, a história de Norma é apenas quase feliz.

10 abril 2010

Quem tem medo de vacina?


Nunca tive medo de vacina. Sempre fui corajosa. Já tomei vacina contra a gripe sazonal umas três vezes e jamais apresentei reações. Sinceramente, não me recordo a última vez que tive uma gripe de verdade. Sendo assim, seguindo o velho clichê, melhor não mexer em time que está ganhando. Fui lá, toda pimpona, tomar a vacina contra o H1N1. Feliz da vida, por ainda estar na faixa etária da primeira remessa de vacinados, encarei a agulhada já no segundo dia de campanha. Até aí, nenhuma novidade.

O problema veio à noite. À primeira esquisitice, não liguei uma coisa à outra. Achei que fosse cansaço ou um mal estar passageiro. Só desconfiei quando comecei a tremer de frio. A temperatura ambiente estaria mesmo tão baixa ou a minha é que estaria quente? Sei apenas que tudo o que eu queria era dormir e, como havia tomado um remédio, não me preocupei muito com o frio. Apaguei. No dia seguinte, uma bambeza estranha, que julguei ser ressaca de enxaqueca, coisa à qual já estou, de certa forma, acostumada.

Demorei a entender que estava, na verdade, apresentando reações à vacina. Caiu a ficha quando ouvi depoimentos de outras pessoas que, depois da imunização, tinham ficado “estranhas”. E eu estava MUITO estranha, diga-se de passagem. Além da inevitável dor no braço, a cabeça estava zoada, assim como eu fico quando tomo algumas tacinhas de vinho. Enfim, eu fiquei tonta, com dores no corpo, minha garganta ficou um pouco dolorida, meio tapada até eu diria, perdi totalmente o apetite (coisa rara, quem me conhece sabe). Foi então que veio a febre, a ardência nos olhos e a dor de cabeça. Eu, que tenho enxaqueca, como já disse, tive nesse dia uma das maiores dores de cabeça da minha vida.

Já passou. Durou pouco mais de dois dias. Não foi nada agradável. É difícil não saber ao certo o que está acontecendo com o nosso corpo. Fiquei imaginando: se fragmentos do vírus fizeram isso comigo, o que faria o vírus inteiro? É por isso que não me arrependo de ter tomado a vacina e é por isso que sou à favor da campanha. Há quem diga que a imunização é bobagem, que, como o vírus é mutante, a vacina terá pouca utilidade. Há também os "apocalípticos", que acreditam que a gripe suína é invenção das grandes indústrias farmacêuticas ou que a vacina seja uma armadilha à saúde pública. Não sou tão radical. Tenho minhas dúvidas sobre o grau de eficácia, mas acredito que traga mais bem do que mal, até que se prove o contrário.

E você? Já foi ao posto de saúde?

06 abril 2010

Um pulinho no futuro


Quem assiste o seriado norte-americano Lost sabe que nas últimas temporadas é comum aparecerem os flash fowards, cenas que remetem ao futuro dos personagens. Curioso é quando isso acontece na vida real. Vivi um flash foward outro dia. Uma experiência estranha, eu diria, mas bem interessante. Foi uma sensação nítida de estar vivendo algo que (ainda) não aconteceu. Loucura? Talvez. Foi um momento tão breve, no entanto, e tão real que não acho justo classificá-lo como falta de lucidez. Foi como dar um pulinho no futuro e voltar.

Talvez tenha sido apenas resultado de um desejo tão forte que se realizou em forma de sentimento. Ou então (por que não?) tenha sido mesmo um presente de Deus, a dádiva de conhecer um pouco do futuro antes de vivê-lo. Muito provavelmente porque Deus conhece meus anseios e sabe o quanto não saber o que me aguarda, por muitas vezes, me aflige. Às vezes acho mesmo que o tempo dá seus tiltes, alguma falha na "matrix".

Seja qual for o motivo e haja o que houver de real nisso tudo, foi uma sensação única. E a vida é um conjunto de sensações. Antes de seres sociais, somos seres sensitivos, no sentido mais concreto da palavra. Encontrar explicações para tudo é impossível e, acho essa busca, sinceramente, uma perda de energia. Os melhores lances da vida, como o meu flash foward, dispensam, absolutamente, quaisquer explicações.

05 abril 2010

O retorno de Clarice


Ah, Clarice! Tão pensante! Tão metida à mulher, tão independente, tão ousada, tão livre, tão segura. Tão sozinha! Já nem se lembra da última vez que se apaixonou. É bom - disso ela se lembra bem -, mas é uma sensação que ficou perdida no tempo, meio amarelada, como os poemas que gostava de escrever na adolescência. Guarda apenas a lembrança de alguns romances que acabaram perdidos com as intolerâncias da juventude.

Achou, por algum tempo, que podia viver bem sozinha. Agora, no entanto, bate a falta de sentir de novo. Sábio Balzac que reverenciou a mulher de 30! A diferença existe. Depois dos 30, o olhar desanuvia, a cabeça esfria e o coração começa a considerar novas possibilidades. Já sabe se defender melhor, começa a ficar velhaco. O de Clarice está assim. E ela quer se apaixonar de novo.

Engraçado! Se Murphy também gosta de agir nos terrenos do coração, Clarice está sob a força da Lei. Nem um moço, de longe sequer, chama a sua atenção. Nenhum olhar masculino toca além da sua vaidade. Logo agora que ela quer tanto. Por algum tempo, ela chegou a pensar que a culpa fosse toda sua. Talvez, tanto tempo sem gostar de alguém a tivesse deixado fria de vez. Mas, no fundo, ela sabia que não era isso. Clarice tem alma de artista e artistas nunca perdem a capacidade de amar. Podem, sim, mudar o foco por algum tempo, seja por opção, auto-defesa ou falta de oportunidades do destino, mas esfriar o coração, isso não. Vai contra a arte.

Clarice sabe que ainda pode acontecer. Na verdade, sente que vai ser logo e, se uma coisa nunca lhe faltou, é a intuição. Ela tem medo. Não sabe se ainda sabe viver um grande amor. Mas é um medo que vem num lampejo, na verdade. Ela sabe que sentir, amar verdadeiramente, é como andar de bicicleta ou escrever as poesias da adolescência: o retorno pode até ter seus tropeços, mas esquecer... Ah, isso ninguém esquece.