Fio de Ariadne: Quando nem a lei garante o bom senso

18 março 2010

Quando nem a lei garante o bom senso


As melhores conversas são as de ônibus. Daria um livro lotado de pérolas. Curioso como as pessoas escancaram suas vidas em um coletivo lotado, como se todos ao redor fossem surdos e acríticos. Hoje, em especial, ouvi uma conversa que me causou indignação. Um homem, na casa dos 35, e uma mulher que certamente já passou dos 45. Ambos vangloriavam-se de não respeitarem os assentos reservados a idosos, grávidas e portadores de deficiência.

- Ontem eram quase dez da noite quando um velho quis meu lugar. Não levanto. Falei bem alto que àquela hora meus pais já estavam dormindo. – disse a mulher, esquecendo-se de que não demora muito para chegar aos 60.

Ele riu.

- Está certa. Isso não é hora de velho estar na rua. Eu também não daria o lugar. Normalmente estamos muito mais cansados que eles.

- E as grávidas? – continuou a mulher, que usava franja nos cabelos e roupas joviais – Outro dia uma moça me cutucou e disse: “estou grávida”. Respondi: “E eu com isso? Não sou o pai do seu filho.”

Continuaram a conversa nesse tom. Fiquei irritada. Contive-me. As pessoas ao redor não mereciam um barraco no ônibus cheio às 7 da matina. Triste ver quanta gente egoísta existe no mundo. E em ver como as pessoas não sabem lidar com as regras. Sou uma pessoa livre. Abomino a “burrocracia” e a banalização das normas. No entanto, qualquer ser humano sabe que as regras são necessárias para garantir a boa convivência e os direitos de todos, inclusive desses dois aí da história.

Para mim, lei é lei. E, no caso dos assentos reservados, a questão não se limita à ela. Passa, principalmente, pela boa educação e pelo bom senso. Nossos velhinhos têm todo o direito de saírem e voltarem na hora que bem entenderem. Nossas gestantes têm todo o direito de descansarem os meses de gravidez em um assento reservado. Respeitar os direitos do outro é cuidar para que os nossos próprios direitos sejam respeitados. Não fazer isso e, como não bastasse, gritar aos quatro ventos que não faz, é deixar claro que realmente é preciso usar a força da lei para que as coisas sejam cumpridas. Ou para que, ao menos, as minorias tenham onde buscar ajuda. Triste é pensar que tudo poderia ser resolvido de uma maneira muito mais simples: com solidariedade.

4 comentários :

Leonardo Xavier disse...

Eu concordo totalmente com o seu texto. Agora sabe outra atitude que me revolta em relação ao transporte público é quando os motoristas queimam os idosos na parada. Eu acho absurdo, o camarada não parar porque o velhinho não paga passagem. Como se essas vagas não fossem subsidiadas pelo governo e além do mais parece que eles não percebem que serão velhos algum dia

Leo Cunha disse...

Oi, Ariadne,

Tem uma aluna minha, a Teaní, que criou um blog justamente pra contar estas histórias vistas ou ouvidas nos ônibus. O nome é "Essa eu ouvi no ônibus". O link é: http://essaeuouvinoonibus.blogspot.com/
Abraço,
Leo Cunha

Ariadne Lima disse...

Entrei no blog dela, Leo, e adorei. A bichinha escreve bem! :)

Macaco Pipi disse...

a lei garanta
mas nao se faz