Fio de Ariadne: O vizinho

20 março 2010

O vizinho


Olhou pela fresta da cortina. Ele estava lá de novo. Do outro lado, na janela do seu apartamento. Moravam em um desses condomínios novos, que mostram claramente que tudo o que a construtora queria era ganhar espaço. As janelas eram tão próximas que pareciam extensão do apartamento vizinho. Mudaram-se na mesma semana. Já no primeiro dia, alguns olhares denunciaram a inspeção mais que natural quando um homem e uma mulher se vêem pela primeira vez.

Naquele ato rotineiro, ela lembrou-se de tudo. Moravam ali há quase seis meses e nenhuma palavra havia sido trocada. Só olhares pelas janelas. Ele sempre sem camisa. Ela com os pijamas nada comportados dos quais gostava. Eram íntimos sem nunca terem se falado. Incoerências da vida moderna.

Ela gostava de ver o vizinho pelas frestas da cortina. Uma espécie de Big Brother da vida real. Sabia que ele gostava de vê-la também. Fez o flagrante várias vezes. Era sempre seguido de cabeça baixa e cortinas fechadas.

Custou até se cruzarem nos corredores do prédio pela primeira vez. Foi estranho ver o outro fora daquela moldura chamada janela. Primeiro, foi só um bom dia. Depois vieram outros. Na janela, tudo permanecia igual. Apenas olhares de soslaio. Era como se a janela criasse uma aura especial e quebrar o silêncio significasse invadir o terreno alheio. Lá fora, os cumprimentos rotineiros evoluíram para um “qual é seu nome?”. A partir daí, não é difícil imaginar a história.

Começaram trocando impressões sobre o condomínio. O cachorro da vizinha que não parava de latir, as contas que haviam subido sem explicação, a conservação mal feita. Quando perceberam, já estavam desabafando histórias do trabalho e falando da família. Ambos moravam sozinhos.

Vizinhos podem ser bons companheiros nos momentos de solidão. E foi isso o que aconteceu. Tinham a beleza e o vigor da juventude. Lógico que isso se transformaria, fácil, em romance. O primeiro beijo a deixou desconcertada. Ele aconteceu na despedida, quando ele ia da casa dela para a dele, logo em frente. Ela, como é inevitável a toda e qualquer mulher, imaginou uma vida inteira depois daquele beijo. E se o namoro não desse certo? Como seria ter que vê-lo todos os dias, sem camisa, do outro lado da janela? Sim, foi só um beijo, mas ela é mulher e mulheres têm a triste tendência de tentarem prever o que não precisa ser previsto.

Ela quase acertou dessa vez. Foram muitos beijos depois daquele, mas o namoro não aconteceu. Havia uma coisa de pele, motivada pela curiosidade excitante de descobrir o que havia, de fato, do outro lado da janela. A proximidade era cômoda. A química era boa. Homens, no entanto, borram-se de medo de que, cedo ou tarde, as previsões femininas pós-primeiro beijo se tornem realidade. Alguns deles encaram o tal medo. Outros fogem. Foi o que ele fez. Era o melhor a ser feito por um homem jovem, belo e que mora sozinho. Ainda tinha muito o que curtir a vida. Ela também. Só ainda não sabia disso.

Não demorou muito e os beijos calientes voltaram a ser apenas “bons dias”. Felizmente, ainda existiam os “bons dias”. Ela recuperou-se logo. Entendeu que havia muitos outros vizinhos no mundo e que ela ainda tinha muitas boas histórias para prever. Era feliz assim. Tinha um segredo, porém. Ainda o espiava sem camisa pela fresta da cortina, que agora, no entanto, era escura. E de tecido bem mais grosso.

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