Fio de Ariadne: I scream

13 março 2010

I scream


- Os dois de pistache, por favor. - falou Alice à garçonete.

De frente para ela na mesa, ele a olhou, estranhando. Ela ficou desconcertada.

- É meu sorvete preferido. Você vai gostar. - justificou um tanto sem jeito.

Ele aceitou. O sabor do sorvete era o que menos importava naquela tarde ensolarada de sábado. Tudo o que ele queria era entender o porque do convite repentino para um encontro. Alice e ele sempre foram amigos - grandes amigos, é verdade - mas um encontro vespertino no sábado não era mesmo comum. Eram daquele tipo de amigos que ficam dias sem se ver, mas estão sempre em contato. Naquele dia, ela pareceu nervosa ao telefone.

- Preciso conversar com você. - disse quando ligou no sábado cedo.
- Sobre o quê?
- Na hora eu te falo.
- Nossa, que suspense! Fiquei preocupado agora. Aconteceu alguma coisa?
- Hoje de tarde, pode ser?
- Que horas?
- Às três. Na sorveteria perto da sua casa.

Acertaram tudo, desligaram. Ele preocupado. Ela apreensiva. Escolheu uma sorveteria por achar que a leveza do lugar pudesse ajuda-la a desengasgar. Enrolou um bocado, enquanto o sorvete não vinha. Perguntou do trabalho, da família, falou da sua. Assim que o sorvete chegou, ele disparou:

- E, então? O que você tem pra falar?

Alice meteu uma colherada na boca para ganhar tempo. Quase engasgou.

- Eehr... - foi ficando cor-de-rosa.
- Fala, Li, você tá me assustando!
- É que... Ah, é que já faz um tempo que... - parou e olhou para ele envergonhada.

Ele permaneceu calado, esperando a conclusão. Fez sinal para que ela continuasse.

- Já faz um tempo que eu não te vejo mais como meu amigo.

Ele arregalou os olhos.

- Mas o que foi que aconteceu? Falei alguma coisa que você não gostou? Te magoei? O que foi que eu fiz? Não estou entendendo, Alice. - disse agitado.
- Calma! Você está entendendo tudo errado. Eu só quis dizer que... eu gosto de você. Não só como amigo. Mais que isso, entendeu? - dessa vez, a voz dela foi serena.

Ele demorou alguns segundos para processar a informação.

- Hum. - foi o único som que conseguiu emitir de cara – Mas como é isso? Você pode estar misturando as coisas. - continuou depois de um tempo.

Alice bem queria estar misturando as coisas. Infelizmente não estava. Foram muitas recusas a si mesma antes de dizer tudo a ele. Eram amigos há anos e nunca antes o tinha visto como homem. Tinha medo de interromper a amizade, mas a situação chegou a tal ponto que ela não conseguia mais sufocar o que sentia. Ele precisava saber, nem que fosse apenas um desabafo. Não esperava que ele dissesse que sentia o mesmo e lhe desse um beijo de cinema. Era realista. Queria apenas dizer que as coisas já não eram como antes. Sinceridade é o que se espera de um amigo. Seria injusto que continuassem se tratando como irmãos, quando ela o via de outra forma.

- Não estou misturando nada e não espero nada de você ao te contar isso. É apenas uma forma de ser transparente, como sempre fomos um com o outro. Não podia conviver com essa bomba dentro de mim. Falar para você, mesmo que me envergonhe, é minha forma de desarmá-la.

Ela ainda estava nervosa, mas tentava aparentar serenidade. Ele não sabia o que dizer. Estava muito surpreso. Considerava Alice uma mulher bonita, mas sempre a tinha visto como o ouvido que o escutava, alguém com quem se divertia nas conversas de fim de tarde.

- Li, desculpe, mas você sempre foi minha amiga. E só isso.
- Não precisa se desculpar. Para estar aqui hoje, foram muitos dias de reflexão. E eles me fizeram entender que seria importante dizer isso a você, sem que isso signifique uma cobrança. Não quero que as coisas mudem. Quero apenas que entenda minha própria mudança e que não deixemos de ser amigos por causa disso.

Ele entendeu. Acreditou nela. A situação não deixava de ser estranha, mas concordou que ela fez o certo. Tentaria, dali em diante, lembrar que, embora amigos, de uma das partes vinha algo mais. Equilíbrios que a vida nos exige. Alice, por sua vez, tentaria lidar com o desejo que, em respeito à amizade de tantos anos e, principalmente, ao sentimento do outro, não poderia ser saciado. Teve orgulho de si mesma. Em outros tempos, não conseguiria dizer assim, na lata.

Começava a escurecer, quando se despediram. Alice estava leve. Ele, ainda fora do ar. A vida é cheia de impactos. Não fosse assim, que graça teria? Na taça dela, o sorvete de pistache estava quase todo, derretido. A dele estava vazia. Ele realmente havia gostado. A digestão da história, porém, seria demorada. Talvez, no entanto, ainda viesse a lhe cair bem.

Um comentário :

Sandrinha disse...

Td de bom o seu blog!!!
Parabens e sucesso!!!

Sandrinha,

http://tempodeviver2.blogspot.com/