Fio de Ariadne: Coisas que elas devem saber

07 março 2010

Coisas que elas devem saber


As mulheres deviam saber que homens também se apaixonam. Eu diria até que existe uma corrente de pensamento que acredita que homens são seres incapazes de se entregarem ao amor. Balela. Eles são, sim, um bando de medrosos que não querem parecer tolos. Resistem, mas acabam rendendo-se a alguém. Eu me junto à corrente de Fernando Pessoa, que disse que “cartas de amor não seriam cartas de amor se não fossem ridículas”. E essa não é uma visão pessimista. O ridículo do amor é necessário à vida. E, resistentes ou não, os homens também se entregam a ele.

Foi assim com Ícaro. Antes de prosseguir, aliás, melhor apresentá-lo. Sei tanto dele que às vezes esqueço dessas formalidades. Ele é um cara bacana, cabelos pretos lisos, olhos escuros com um quê de invasores, um corpo legal (o que, na minha visão, vale dizer, significa não ser gordo nem magro, nem alto, nem baixo). É bonito, mas eu arriscaria dizer que é mais fofo que bonito (as mulheres entendem o que isso quer dizer). Fofo não é gordinho. É um daqueles caras que dá vontade de levar pra casa e fazer cafuné. Pois bem: Ícaro era um bonito mais fofo que bonito.

Não pense, no entanto, que ele não tinha personalidade. Tinha muita. Talvez por isso demorou a se apaixonar de verdade. Normalmente, acabava se interessando pelas mulheres que mais o desafiavam. Conquistava-as mais pelo gosto de vencê-las. E foi assim, sem nenhum relacionamento profundo, até que ela apareceu. A primeira mulher que Ícaro não conseguiu vencer. Não demorou muito, ela o venceu. Ele se apaixonou.

Dessa vez, foi ele quem correu atrás. Como mulher, confesso que adorei ver a situação se inverter. Ele penou um tiquinho. Mereceu. Mas ela também não conseguiria resistir muito tempo a toda a graça de Ícaro. Rendeu-se, por sua vez, mas, o fato é que foi bem depois dele. Ficaram juntos por um tempo, só beijinhos, até que Ícaro, como bom moço, fez o pedido. Ela aceitou, ainda insegura. E foi assim que ela seguiu todo o namoro. Ele, apaixonado.

Importante dizer que homens apaixonados não só existem, como são pura imagem do que é mais intenso e ridiculamente afetivo, bem à la Fernando Pessoa. Ícaro foi um desses. Foi fiel e sempre disposto a fazer as vontades dela. Não que fosse o homem perfeito (esse, sim, não existe), mas chegou algumas vezes a desconsiderar as próprias vontades para agradá-la.

Ela era uma boa namorada, fiel e carinhosa, mas um observador mais atento perceberia que havia um descompasso. Ela não o amava com a mesma intensidade. Talvez nem o amasse. Não que fizesse por mal. Acho que nem mesmo ela havia se dado conta do que não sentia. Seguiram juntos e supostamente apaixonados até que um dia ela percebeu. Não foi bem de uma hora pra outra. O desencanto é um processo gradativo.

Foi difícil, mas ela pôs fim ao namoro. Ícaro achou que não suportaria. Era sua primeira desilusão afetiva. Foi difícil entender. Principalmente quando lembrava tudo o que havia se passado entre eles. As mulheres também deviam saber que homens são muito mais frágeis diante dos males do coração. E não estou falando de veias entupidas. Acho incrível como um homem abandonado chega ao fundo do poço. É um desespero que quase dói na gente, que não tem nada com a história.

Ícaro também sofreu assim. O que ele não percebia (e todos na situação dele não percebem) é que na vida o tempo é um santo remédio. As mulheres sabem bem disso. Por isso, se recuperam tão rápido. Eu mesma tenho meu tempo de “luto”. É o suficiente para esvaziar o peito de mágoas, fazer um balanço de tudo e sacudir a poeira. Ícaro também sacudiu a dele, mas demorou um bocadinho. Homens não apenas se apaixonam, como, quando acontece, é difícil fazê-los entender que não era para sempre. As mulheres deviam saber disso. E ensiná-los antes do “tarde demais”. Pena que não pude avisar Ícaro à tempo.

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