Fio de Ariadne: Desinfância

06 março 2010

Desinfância


Quando criança, eu ouvia na televisão
que as armas não são brinquedos pra comprar.
Quando cresci, eu aprendi
que as palavras são as armas mais mortais
e que a TV, se não mata, fere.
E fere muito mais,
porque machuca onde os remédios não alcançam.
Feriu a integridade e a inocência que eu tinha.
E os jornais das sete horas
Tiraram-me os finais felizes das histórias.
Percebi que as bruxas que me punham medo
estão nas ruas e não nos contos.
Percebi que o para sempre não existe,
e que a felicidade acaba quando se fecham os livros.

Quando criança, eu lia nos gibis,
que os heróis salvam os homens dos perigos do mundo.
Mas percebi que o mundo não alerta os heróis
sobre os perigos dos homens.
E eles morrem com a infância,
ou por notar que não é tão fácil como parece.

Quando criança, eu ouvia na escola
tanta coisa que o universo, eu acho, esqueceu.
Ou simplesmente entendeu que era só encenação.
Quando criança, fui tão iludida, enganada,
Que agora acho que crescer não vale a pena.
Ensinaram-me que eu poderia tudo.
Mas hoje eu posso apenas um poema.

*Escrito em 2002.

Nenhum comentário :