Fio de Ariadne: Março 2010

26 março 2010

O que eu não quero ser


Não quero ser como eles. Eles têm olhar assustado, semblante tenso. Eles estão sempre com medo. Medo de errar, de serem surpreendidos, de serem ultrapassados. Estão sujeitos às intempéries de outras pessoas, à mercê do bom humor alheio. Quero ser mais que isso. Quero leveza. Não quero que minhas responsabilidades ganhem mais quilos do que deveriam ter. Eu não deixo. Eu não admito.

Não nasci para puxa-saquismos. Nem para puxar nem para ser puxada. Tudo tem sua medida e é essencial que todos saibam as suas e respeitem as dos outros. Não quero que minha família fique com as sobras. Não quero que minha vida própria, longe disso tudo, minhas vontades, meus desejos, meu planos, minha liberdade sejam afetados ou diminuídos porque eu mesma permiti que lhes roubassem o espaço.

Não quero ser como eles. Queria mostrar-lhes que tudo pode dar certo mesmo quando se é diferente. Queria que entendessem que as coisas fluem melhor quando se tem leveza no coração, quando se abre um sorriso sincero e a cabeça não tem o peso da preocupação descabida. Cada coisa em seu lugar. Não dou à nada mais ou menos do que é merecido. E, com isso, diminuo a quase zero as minhas chances de ter um enfarto ou algo parecido. Amplio, sim, os meus horizontes, as minhas oportunidades e as minhas chances de ser feliz.

20 março 2010

Um dedo de verso


Estava no meu canto santo,
ensaiando meu santo canto,
contando com alguém pra prosear.
Queria, queria muito falar!
O cheiro de mato, o verde.
Um dedo de prosa viria a calhar.

Grande descoberta fiz no meu cismar:
Prosa e eu não cabemos no mesmo lugar!
Alguém aceitaria versejar comigo?

O vizinho


Olhou pela fresta da cortina. Ele estava lá de novo. Do outro lado, na janela do seu apartamento. Moravam em um desses condomínios novos, que mostram claramente que tudo o que a construtora queria era ganhar espaço. As janelas eram tão próximas que pareciam extensão do apartamento vizinho. Mudaram-se na mesma semana. Já no primeiro dia, alguns olhares denunciaram a inspeção mais que natural quando um homem e uma mulher se vêem pela primeira vez.

Naquele ato rotineiro, ela lembrou-se de tudo. Moravam ali há quase seis meses e nenhuma palavra havia sido trocada. Só olhares pelas janelas. Ele sempre sem camisa. Ela com os pijamas nada comportados dos quais gostava. Eram íntimos sem nunca terem se falado. Incoerências da vida moderna.

Ela gostava de ver o vizinho pelas frestas da cortina. Uma espécie de Big Brother da vida real. Sabia que ele gostava de vê-la também. Fez o flagrante várias vezes. Era sempre seguido de cabeça baixa e cortinas fechadas.

Custou até se cruzarem nos corredores do prédio pela primeira vez. Foi estranho ver o outro fora daquela moldura chamada janela. Primeiro, foi só um bom dia. Depois vieram outros. Na janela, tudo permanecia igual. Apenas olhares de soslaio. Era como se a janela criasse uma aura especial e quebrar o silêncio significasse invadir o terreno alheio. Lá fora, os cumprimentos rotineiros evoluíram para um “qual é seu nome?”. A partir daí, não é difícil imaginar a história.

Começaram trocando impressões sobre o condomínio. O cachorro da vizinha que não parava de latir, as contas que haviam subido sem explicação, a conservação mal feita. Quando perceberam, já estavam desabafando histórias do trabalho e falando da família. Ambos moravam sozinhos.

Vizinhos podem ser bons companheiros nos momentos de solidão. E foi isso o que aconteceu. Tinham a beleza e o vigor da juventude. Lógico que isso se transformaria, fácil, em romance. O primeiro beijo a deixou desconcertada. Ele aconteceu na despedida, quando ele ia da casa dela para a dele, logo em frente. Ela, como é inevitável a toda e qualquer mulher, imaginou uma vida inteira depois daquele beijo. E se o namoro não desse certo? Como seria ter que vê-lo todos os dias, sem camisa, do outro lado da janela? Sim, foi só um beijo, mas ela é mulher e mulheres têm a triste tendência de tentarem prever o que não precisa ser previsto.

Ela quase acertou dessa vez. Foram muitos beijos depois daquele, mas o namoro não aconteceu. Havia uma coisa de pele, motivada pela curiosidade excitante de descobrir o que havia, de fato, do outro lado da janela. A proximidade era cômoda. A química era boa. Homens, no entanto, borram-se de medo de que, cedo ou tarde, as previsões femininas pós-primeiro beijo se tornem realidade. Alguns deles encaram o tal medo. Outros fogem. Foi o que ele fez. Era o melhor a ser feito por um homem jovem, belo e que mora sozinho. Ainda tinha muito o que curtir a vida. Ela também. Só ainda não sabia disso.

Não demorou muito e os beijos calientes voltaram a ser apenas “bons dias”. Felizmente, ainda existiam os “bons dias”. Ela recuperou-se logo. Entendeu que havia muitos outros vizinhos no mundo e que ela ainda tinha muitas boas histórias para prever. Era feliz assim. Tinha um segredo, porém. Ainda o espiava sem camisa pela fresta da cortina, que agora, no entanto, era escura. E de tecido bem mais grosso.

18 março 2010

Quando nem a lei garante o bom senso


As melhores conversas são as de ônibus. Daria um livro lotado de pérolas. Curioso como as pessoas escancaram suas vidas em um coletivo lotado, como se todos ao redor fossem surdos e acríticos. Hoje, em especial, ouvi uma conversa que me causou indignação. Um homem, na casa dos 35, e uma mulher que certamente já passou dos 45. Ambos vangloriavam-se de não respeitarem os assentos reservados a idosos, grávidas e portadores de deficiência.

- Ontem eram quase dez da noite quando um velho quis meu lugar. Não levanto. Falei bem alto que àquela hora meus pais já estavam dormindo. – disse a mulher, esquecendo-se de que não demora muito para chegar aos 60.

Ele riu.

- Está certa. Isso não é hora de velho estar na rua. Eu também não daria o lugar. Normalmente estamos muito mais cansados que eles.

- E as grávidas? – continuou a mulher, que usava franja nos cabelos e roupas joviais – Outro dia uma moça me cutucou e disse: “estou grávida”. Respondi: “E eu com isso? Não sou o pai do seu filho.”

Continuaram a conversa nesse tom. Fiquei irritada. Contive-me. As pessoas ao redor não mereciam um barraco no ônibus cheio às 7 da matina. Triste ver quanta gente egoísta existe no mundo. E em ver como as pessoas não sabem lidar com as regras. Sou uma pessoa livre. Abomino a “burrocracia” e a banalização das normas. No entanto, qualquer ser humano sabe que as regras são necessárias para garantir a boa convivência e os direitos de todos, inclusive desses dois aí da história.

Para mim, lei é lei. E, no caso dos assentos reservados, a questão não se limita à ela. Passa, principalmente, pela boa educação e pelo bom senso. Nossos velhinhos têm todo o direito de saírem e voltarem na hora que bem entenderem. Nossas gestantes têm todo o direito de descansarem os meses de gravidez em um assento reservado. Respeitar os direitos do outro é cuidar para que os nossos próprios direitos sejam respeitados. Não fazer isso e, como não bastasse, gritar aos quatro ventos que não faz, é deixar claro que realmente é preciso usar a força da lei para que as coisas sejam cumpridas. Ou para que, ao menos, as minorias tenham onde buscar ajuda. Triste é pensar que tudo poderia ser resolvido de uma maneira muito mais simples: com solidariedade.

Poder do pensamento

Ela não se acha bonita.
Ela não se acha legal.
Ela não tem relacionamentos estáveis.
Ela não é querida.
Ela se sente sozinha.
Ela não se acha capaz.

Mal sabe ela que, quanto mais pensa nisso, tudo se torna uma verdade universal.

16 março 2010

Sempre gerúndio


Há tempos não me sinto tão bem como nos últimos dias. Quando reflito, percebo que isso foi possível porque entendi que, algumas vezes, as quebras são necessárias. Por muitas vezes, levamos uma situação adiante, mesmo sabendo que ela não nos faz bem. O medo é a principal causa disso. O ser-humano tem a comodidade como característica marcante. Habituamos-nos até ao que não nos faz bem. E quase sempre só entendemos a proporção do mal, quando temos coragem suficiente para encarar a mudança.

Arrastei por muito tempo uma situação que me tolhia, que me impedia de ver novas possibilidades, outras esferas, e que não permitia, sobretudo, que eu visse a mim mesma. Olhar para si nem sempre é um exercício fácil. No entanto, quando conseguimos nos despir diante de nós mesmos, somos presenteados com a incrível sensação de estarmos nos conhecendo. Conhecer-se nunca é uma tarefa acabada. É sempre gerúndio. A vida não é estática e é esse seu tempero. Tudo o que para perde a graça, perde o sentido e acaba morrendo, nem que seja por indiferença.

Estou feliz agora. Estou me conhecendo. Estou feliz, na verdade, por ter me enxergado de novo. Devolveram-me as lentes diante do espelho. Não importa mais que eu mesma as tenha retirado. Importaria se eu nunca as tivesse colocado novamente. Tudo é aprendizagem. E tudo se torna mais simples quando estamos bem-resolvidos. É bom ser livre. E dar às coisas e pessoas ao nosso redor a mesma liberdade, só aumenta a sensação de que tudo se auto-regula, como na Teoria de Gaia.

13 março 2010

A sensação


Você já sentiu, assim, uma sensação estranha... Difícil de explicar. É estranha, mas não é ruim. Ao contrário, é boa, muito boa. Você fica um tanto aéreo, meio em extâse. Ela vem de repente, parece que você fumou alguma paradinha, mas eu não fumei paradinha nenhuma. Aliás, nunca fumei nada e odeio cigarros, que fique claro. É um sono sem ser sono. Como se você tivesse acabado de receber uma massagem. Já fez massagem profissional alguma vez? A gente fica molinho. A sensação é quase igual.

Ela começa de repente e não tem explicação concreta. É uma sensação abstrata. Adoro quando ela vem. E também curto imaginar seus porquês. Como uma sensação tão suave e bonitinha me invade de repente? Às vezes acho que pode ser alguém pensando em mim. O pensamento é mais poderoso do que muita gente imagina. Pode viajar quilômetros em segundos. Gosto de acreditar que alguém, em algum lugar, está pensando em mim com carinho, a ponto desse carinho chegar a mim em forma da sensação bonitinha.

Outras vezes, eu acho que é oração. Sei lá, alguém pode estar orando por mim e, da mesma forma, as energias que vêm da fé são canalizadas por Deus até mim. Aí vem a sensação bonitinha. Pode ser que as duas suposições estejam certas. Pode ser ora pensamento, ora oração. A gente precisa estar aberto para recebê-los. Senão a sensação não vem nunca. Ou, se vem, não se demora. Quando ela vem me visitar, gosto de ficar bem quietinha para ela não ir embora. Funciona. Uma hora ela passa, mas aí eu já curti o suficiente.

Hoje a sensação veio de novo. Fiquei tão molinha que tive sono.

Boa noite.

I scream


- Os dois de pistache, por favor. - falou Alice à garçonete.

De frente para ela na mesa, ele a olhou, estranhando. Ela ficou desconcertada.

- É meu sorvete preferido. Você vai gostar. - justificou um tanto sem jeito.

Ele aceitou. O sabor do sorvete era o que menos importava naquela tarde ensolarada de sábado. Tudo o que ele queria era entender o porque do convite repentino para um encontro. Alice e ele sempre foram amigos - grandes amigos, é verdade - mas um encontro vespertino no sábado não era mesmo comum. Eram daquele tipo de amigos que ficam dias sem se ver, mas estão sempre em contato. Naquele dia, ela pareceu nervosa ao telefone.

- Preciso conversar com você. - disse quando ligou no sábado cedo.
- Sobre o quê?
- Na hora eu te falo.
- Nossa, que suspense! Fiquei preocupado agora. Aconteceu alguma coisa?
- Hoje de tarde, pode ser?
- Que horas?
- Às três. Na sorveteria perto da sua casa.

Acertaram tudo, desligaram. Ele preocupado. Ela apreensiva. Escolheu uma sorveteria por achar que a leveza do lugar pudesse ajuda-la a desengasgar. Enrolou um bocado, enquanto o sorvete não vinha. Perguntou do trabalho, da família, falou da sua. Assim que o sorvete chegou, ele disparou:

- E, então? O que você tem pra falar?

Alice meteu uma colherada na boca para ganhar tempo. Quase engasgou.

- Eehr... - foi ficando cor-de-rosa.
- Fala, Li, você tá me assustando!
- É que... Ah, é que já faz um tempo que... - parou e olhou para ele envergonhada.

Ele permaneceu calado, esperando a conclusão. Fez sinal para que ela continuasse.

- Já faz um tempo que eu não te vejo mais como meu amigo.

Ele arregalou os olhos.

- Mas o que foi que aconteceu? Falei alguma coisa que você não gostou? Te magoei? O que foi que eu fiz? Não estou entendendo, Alice. - disse agitado.
- Calma! Você está entendendo tudo errado. Eu só quis dizer que... eu gosto de você. Não só como amigo. Mais que isso, entendeu? - dessa vez, a voz dela foi serena.

Ele demorou alguns segundos para processar a informação.

- Hum. - foi o único som que conseguiu emitir de cara – Mas como é isso? Você pode estar misturando as coisas. - continuou depois de um tempo.

Alice bem queria estar misturando as coisas. Infelizmente não estava. Foram muitas recusas a si mesma antes de dizer tudo a ele. Eram amigos há anos e nunca antes o tinha visto como homem. Tinha medo de interromper a amizade, mas a situação chegou a tal ponto que ela não conseguia mais sufocar o que sentia. Ele precisava saber, nem que fosse apenas um desabafo. Não esperava que ele dissesse que sentia o mesmo e lhe desse um beijo de cinema. Era realista. Queria apenas dizer que as coisas já não eram como antes. Sinceridade é o que se espera de um amigo. Seria injusto que continuassem se tratando como irmãos, quando ela o via de outra forma.

- Não estou misturando nada e não espero nada de você ao te contar isso. É apenas uma forma de ser transparente, como sempre fomos um com o outro. Não podia conviver com essa bomba dentro de mim. Falar para você, mesmo que me envergonhe, é minha forma de desarmá-la.

Ela ainda estava nervosa, mas tentava aparentar serenidade. Ele não sabia o que dizer. Estava muito surpreso. Considerava Alice uma mulher bonita, mas sempre a tinha visto como o ouvido que o escutava, alguém com quem se divertia nas conversas de fim de tarde.

- Li, desculpe, mas você sempre foi minha amiga. E só isso.
- Não precisa se desculpar. Para estar aqui hoje, foram muitos dias de reflexão. E eles me fizeram entender que seria importante dizer isso a você, sem que isso signifique uma cobrança. Não quero que as coisas mudem. Quero apenas que entenda minha própria mudança e que não deixemos de ser amigos por causa disso.

Ele entendeu. Acreditou nela. A situação não deixava de ser estranha, mas concordou que ela fez o certo. Tentaria, dali em diante, lembrar que, embora amigos, de uma das partes vinha algo mais. Equilíbrios que a vida nos exige. Alice, por sua vez, tentaria lidar com o desejo que, em respeito à amizade de tantos anos e, principalmente, ao sentimento do outro, não poderia ser saciado. Teve orgulho de si mesma. Em outros tempos, não conseguiria dizer assim, na lata.

Começava a escurecer, quando se despediram. Alice estava leve. Ele, ainda fora do ar. A vida é cheia de impactos. Não fosse assim, que graça teria? Na taça dela, o sorvete de pistache estava quase todo, derretido. A dele estava vazia. Ele realmente havia gostado. A digestão da história, porém, seria demorada. Talvez, no entanto, ainda viesse a lhe cair bem.

11 março 2010

Jornalisticamente Incorreta

Seguindo uma dica do meu querido e sempre professor Leo Cunha, quero deixar claro que alguém foi Jornalisticamente Incorreta muito antes de mim. Na verdade, acho que, se a questão for saber usar a subjetividade nos textos certos, há todo um histórico de jornalistas jornalisticamente incorretos. Ótimo isso, não é mesmo? Mas, sejamos justos: o fato é que Marilene Felinto, ex-cronista da Folha, já exteriorizou o termo em seu livro, Jornalisticamente Incorreto, publicado em 2000. Ele reúne as crônicas da autora publicadas entre 1997 e 1999 na Folha de S.P. Marilene se auto-intitulou jornalisticamente incorreta, devido à sua resistência em render-se às regras dos manuais de redação e estilo, tão utilizados pelos jornalistas. Em suas crônicas, assim como eu neste blog, é possível, sem receios, ser livre.

Vale a dica:



Jornalisticamente Incorreto
Marilene Felinto
Editora Record
362 páginas

O bárbaro ataque dos cabelos brancos


No começo, era um só. Depois viraram dois. E aí povoaram o mundo. Duro é saber que este mundo é a minha cabeça! Alguém me explica, por favor, qual a utilidade dos cabelos brancos? Outro dia, frente ao espelho, visualizei um. Recorri à pinça, claro. Feliz com a retirada, ia saindo, quando visualizei outro, depois outro, e outro. Meu Deus! Um ataque de cabelos brancos em uma negra cabeleira com menos de 30!

Quase tive que recorrer à terapia. Há um ano, eles não estavam lá! Como se atrevem a surgir assim, de repente, sem sequer pedir licença? Crescer já não é coisa fácil. Imagine ter que fazer isso lidando com as mudanças físicas? Tive que amadurecer na marra. De repente me vi tendo que pagar minhas contas, ir sozinha às reuniões de condomínio, carregar minhas próprias sacolas e decidir por mim mesma como administrar as coisas do mundo adulto. Não é, definitivamente, a mesma delícia de ser criança.

Não bastasse, agora tenho que lidar com mudanças para as quais a juventude não nos prepara. O bárbaro ataque dos cabelos brancos me assustou, mas sei que eles não são nada. Sei que é apenas um embrião do que está por vir. E, então, eu penso no quanto envelhecer exige uma super sabedoria. Senão a pessoa pira. Não é de espantar que tantos dos nossos idosos estejam em depressão.

A idade caminha sem pausas, tudo muda, mas nossa essência permanece intacta. E acho que isso é o que mais assusta. Imagino que uma dia a pessoa acorde sem grande pretensões e, então, o espelho, com toda a sinceridade que lhe é peculiar, mostre o quanto tudo mudou. Como os meus cabelos brancos. Como as rugas e o cansaço de nossas avós. É como, de repente, estar vestindo roupas que não reconhecemos. Saber que elas são nossas e não há escolha exige equilíbrio. Por isso, a importância de cuidarmos da essência. Só ela nos restará. A cor dos cabelos, o vigor, o viço da pele, a flexibilidade e a leveza do corpo, tudo isso muda. É a lei da vida. O brilho dos olhos, porém, deve permanecer firme até que eles se fechem para sempre. Talvez, quem sabe, se abram em outro lugar.

09 março 2010

Inspiração 2.0


Droga! É uma vontade estranha. Não dá pra explicar. Não, não é droga substância química. É droga xingamento. É que eu não queria ser presa assim. A dependência, na verdade, é quase como a de uma droga (desta vez, a substância). Dá uns tiltes de vez em quando. É aí que a vontade vem. Antigamente, nessas horas, eu catava papel e caneta e disparava traços que depois até eu mesma custava a entender. Hoje é o computador. Sorte minha ter um notebook. Quando a vontade vem, é um desespero que mal suporta esperar o programa carregar. Bons tempos estes da modernidade. Minha inspiração hoje é 2.0. Não vai me espantar se qualquer dia desses ela fizer um twitter. Não me importo. Desde que ela me siga. É ela que me sacia nas crises de abstinência. Nas noites insones, é ela que me faz companhia. É ela que está aqui agora. Não é dessas moças de comportamento exemplar. Tem um comportamento sem nexo na maioria das vezes. Mas acho que isso é o que a faz tão encantadora. Sinto uma inveja boa quando penso nisso. Não sei se eu deveria, já que ela me serve sem reclamar, mas sei que ela sem mim é livre enquanto, sem ela, me sinto sufocada. Não gosto de estar em suas mãos. Mas gosto quando ela aparece. Vem junto uma força estranha. Sono, dor, cansaço, tudo vai embora. Fica apenas a vontade. Esse desejo pulsante e insano, que só se apazigua quando vejo as palavras na tela.

08 março 2010

A dádiva de ser mulher


Sempre acreditei, sinceramente, que o fato de nascer mulher já conta, por si só, como favorável à evolução espiritual. A diferença física (caracterizada principalmente pela menstruação, suas conseqüências e a responsabilidade de carregar um filho no ventre), nossa condição na sociedade, nosso histórico de lutas, o espaço conquistado a duras penas, principalmente, porque nos levou a um acúmulo de funções que beira o desumano. Todas são questões que, de alguma forma, contribuem para o aprendizado que, acredito, nos trouxe a este mundo louco em que vivemos.

Nada disso, porém, tira a magnitude de ser mulher. Adoro e me sinto abençoada por ter a oportunidade de ser uma. A capacidade de ser multi me orgulha, a possibilidade de gerar um filho me emociona, gosto de ter a delicadeza feminina, gosto das minhas curvas, satisfaço-me em saber que tenho capacidade ilimitada de amar e que ela é mais aflorada pelo simples fato de ser mulher. Amo ser mulher e amo muitas mulheres em minha vida. Mãe, avós, irmãs, amigas. Todas têm papel essencial na minha história.

Admiro as mulheres. Agradeço a Deus por ter criado um ser que, clichês à parte, é tão sublime. Sou feliz por ser uma delas. Você, que é mulher, sinta-se também orgulhosa de sua “raça” e guarde consigo a consciência do quanto você pode fazer, aprender e ensinar com isso. Deus já nos deu a varinha. Cabe a nós mesmas o sucesso da pescaria.

À todas, um feliz dia internacional da mulher. :)

07 março 2010

Coisas que elas devem saber


As mulheres deviam saber que homens também se apaixonam. Eu diria até que existe uma corrente de pensamento que acredita que homens são seres incapazes de se entregarem ao amor. Balela. Eles são, sim, um bando de medrosos que não querem parecer tolos. Resistem, mas acabam rendendo-se a alguém. Eu me junto à corrente de Fernando Pessoa, que disse que “cartas de amor não seriam cartas de amor se não fossem ridículas”. E essa não é uma visão pessimista. O ridículo do amor é necessário à vida. E, resistentes ou não, os homens também se entregam a ele.

Foi assim com Ícaro. Antes de prosseguir, aliás, melhor apresentá-lo. Sei tanto dele que às vezes esqueço dessas formalidades. Ele é um cara bacana, cabelos pretos lisos, olhos escuros com um quê de invasores, um corpo legal (o que, na minha visão, vale dizer, significa não ser gordo nem magro, nem alto, nem baixo). É bonito, mas eu arriscaria dizer que é mais fofo que bonito (as mulheres entendem o que isso quer dizer). Fofo não é gordinho. É um daqueles caras que dá vontade de levar pra casa e fazer cafuné. Pois bem: Ícaro era um bonito mais fofo que bonito.

Não pense, no entanto, que ele não tinha personalidade. Tinha muita. Talvez por isso demorou a se apaixonar de verdade. Normalmente, acabava se interessando pelas mulheres que mais o desafiavam. Conquistava-as mais pelo gosto de vencê-las. E foi assim, sem nenhum relacionamento profundo, até que ela apareceu. A primeira mulher que Ícaro não conseguiu vencer. Não demorou muito, ela o venceu. Ele se apaixonou.

Dessa vez, foi ele quem correu atrás. Como mulher, confesso que adorei ver a situação se inverter. Ele penou um tiquinho. Mereceu. Mas ela também não conseguiria resistir muito tempo a toda a graça de Ícaro. Rendeu-se, por sua vez, mas, o fato é que foi bem depois dele. Ficaram juntos por um tempo, só beijinhos, até que Ícaro, como bom moço, fez o pedido. Ela aceitou, ainda insegura. E foi assim que ela seguiu todo o namoro. Ele, apaixonado.

Importante dizer que homens apaixonados não só existem, como são pura imagem do que é mais intenso e ridiculamente afetivo, bem à la Fernando Pessoa. Ícaro foi um desses. Foi fiel e sempre disposto a fazer as vontades dela. Não que fosse o homem perfeito (esse, sim, não existe), mas chegou algumas vezes a desconsiderar as próprias vontades para agradá-la.

Ela era uma boa namorada, fiel e carinhosa, mas um observador mais atento perceberia que havia um descompasso. Ela não o amava com a mesma intensidade. Talvez nem o amasse. Não que fizesse por mal. Acho que nem mesmo ela havia se dado conta do que não sentia. Seguiram juntos e supostamente apaixonados até que um dia ela percebeu. Não foi bem de uma hora pra outra. O desencanto é um processo gradativo.

Foi difícil, mas ela pôs fim ao namoro. Ícaro achou que não suportaria. Era sua primeira desilusão afetiva. Foi difícil entender. Principalmente quando lembrava tudo o que havia se passado entre eles. As mulheres também deviam saber que homens são muito mais frágeis diante dos males do coração. E não estou falando de veias entupidas. Acho incrível como um homem abandonado chega ao fundo do poço. É um desespero que quase dói na gente, que não tem nada com a história.

Ícaro também sofreu assim. O que ele não percebia (e todos na situação dele não percebem) é que na vida o tempo é um santo remédio. As mulheres sabem bem disso. Por isso, se recuperam tão rápido. Eu mesma tenho meu tempo de “luto”. É o suficiente para esvaziar o peito de mágoas, fazer um balanço de tudo e sacudir a poeira. Ícaro também sacudiu a dele, mas demorou um bocadinho. Homens não apenas se apaixonam, como, quando acontece, é difícil fazê-los entender que não era para sempre. As mulheres deviam saber disso. E ensiná-los antes do “tarde demais”. Pena que não pude avisar Ícaro à tempo.

06 março 2010

Desinfância


Quando criança, eu ouvia na televisão
que as armas não são brinquedos pra comprar.
Quando cresci, eu aprendi
que as palavras são as armas mais mortais
e que a TV, se não mata, fere.
E fere muito mais,
porque machuca onde os remédios não alcançam.
Feriu a integridade e a inocência que eu tinha.
E os jornais das sete horas
Tiraram-me os finais felizes das histórias.
Percebi que as bruxas que me punham medo
estão nas ruas e não nos contos.
Percebi que o para sempre não existe,
e que a felicidade acaba quando se fecham os livros.

Quando criança, eu lia nos gibis,
que os heróis salvam os homens dos perigos do mundo.
Mas percebi que o mundo não alerta os heróis
sobre os perigos dos homens.
E eles morrem com a infância,
ou por notar que não é tão fácil como parece.

Quando criança, eu ouvia na escola
tanta coisa que o universo, eu acho, esqueceu.
Ou simplesmente entendeu que era só encenação.
Quando criança, fui tão iludida, enganada,
Que agora acho que crescer não vale a pena.
Ensinaram-me que eu poderia tudo.
Mas hoje eu posso apenas um poema.

*Escrito em 2002.

02 março 2010

Dos nossos carmas

"Mulher é um bicho esquisito, todo mês sangra"
Rita Lee/Roberto Carvalho



Sumi eu sei. Mas a culpa é toda dela, da TPM. Não sei pra quê ela existe. E não sei porque, ora bolas, os homens se safaram dessa. Algo cármico, acredito. Sim, porque se, nós mulheres, passamos por essa quase tortura todos os meses e isso não nos render sequer uns chamuscados no tal do carma, é uma puta sacanagem. Que O lá de cima me perdoe, não gosto de questionar as coisas de Deus, mas confesso que tenho dificuldade em compreender algumas delas. Não tenho problemas em admitir minhas limitações humanas.

Se você é homem, tente entender. Se é mulher, identifique-se. Ela, a TPM, varia de uma mulher para outra. Algumas sortudas (dentre as quais, eu definitivamente não estou) não apresentam sintomas. É coisa pouca, porcentagem pequena, que não vou checar porque aqui, afinal, não preciso ser jornalisticamente correta (mania chata de jornalista essa de querer arranjar números e fontes oficiais pra tudo).

Quem não tem a felicidade de se enquadrar no seleto grupo de mulheres livres da TPM, tem que conviver com a dita e torcer pra estar entre outro grupo: o de quem tem sintomas brandos e consegue vê-la como a prima “pelinha” que aparece de vez em quando.Chata, mas dá para aturar. Agora, àquelas que não estão nem num grupo nem noutro, resta jogar o jogo do contente e acreditar que um dia, nem que seja ganhando um pouco mais de elevação espiritual, isso vai ser recompensado.

No mais, é tentar conviver numa boa, como a gente convive com parente chato, vizinho fofoqueiro, chefe autoritário, colega invejosa. Às vezes dá vontade de pirar e descer do salto, mas a gente respira fundo e vai levando. Imagine você, homem, o que é ter que estar linda e fina, enquanto o inchaço te dá uma barriga de cinco meses e um sutiã 56? Ou ter que fazer seu trabalho, como se fosse um dia qualquer, enquanto sua cabeça lateja uma dor que um remedinho comum não resolve? E ter que ser simpático, quando está a fim de se juntar ao Osama e explodir o mundo? Nada pior.

É, caro amigo, lembre-se desses detalhes na próxima vez que achar que sua namorada ou mulher está estressada à toa. Aliás, vale uma dica: nunca, jamais, em hipótese alguma, diga a ela que ela está “estressada à toa”. “Você está de TPM?” também é uma pergunta proibida. Normalmente, ela vai estar mesmo, mas isso não é pergunta que se faça. Diga-se de passagem que ela tem considerável poder potencializador da TPM. Ouça-me: não faça essa pergunta.

A boa notícia é que o que parece interminável um dia termina. Ê, sinal vermelho que é bem-vindo! Nos dias que restam (em alguns casos, são poucos), nós continuamos doces, lindas, competentes, inspiradas e - isso é sempre! – cheias de vontades. Afinal, vocês hão de convir que, se as mulheres carregam o carma da TPM, alguma penitência teria de sobrar para os homens. E, se você está questionando o que eu disse, melhor não contrariar: estou naqueles dias!