Fio de Ariadne: Metamorfoses de Alice

19 fevereiro 2010

Metamorfoses de Alice


Choveu a noite toda. Era muito cedo e a chuva fina persistia, dando à manhã escura um ar ainda mais deprimente. Alice no entanto precisava retomar a vida. As coisas aconteciam lá fora, indiferentes ao vazio que ela sentia. Carros, pessoas, dinheiro, interesses, tudo transitava no mesmo ritmo, acelerado e frio, enquanto nela tudo era lento e pedia um pouco mais de calor. Alice saiu. Ainda chovia, mas seus pensamentos não tinham medo de chuva. Enfrentaram grandes tempestades nos últimos tempos.

Agora os pingos caíam suaves, quase como carícia, e ela deixava-se levar – seu hobby predileto – pelas divagações. Deu-se conta do quanto tudo estava diferente, principalmente em si mesma. Trazia da antiga Alice apenas alguns valores e crenças. A maioria das convicções de outra época foi embora, derrubada pelos tropeços da vida, pelas certezas que só a vivência pode trazer. Era agora uma Alice mais madura e mais serena. Começava a entender as razões dos “mais velhos”. Alice já era quase um deles, o que não significava ser antiquada ou inflexível.

Careta definitivamente sempre foi uma característica que, ainda que o ar retraído aparentasse, Alice nunca teve. Gostava de conhecer pessoas e suas histórias secretas. Achava curioso confiarem a ela tantos segredos “inconfessáveis”. Era curioso, mas Alice gostava disso. Gostava de desvendar a diversidade do mundo. Engenheiro talentoso esse que criou os homens!

Alice tentava entender a engenhoca humana nas sutilezas do dia-a-dia. Vezes entendia, vezes não. É o que tornava o objeto ainda mais complexo: nenhum exemplar é igual ao outro. A humanidade é formada de produtos em escala absolutamente desiguais! Não é aconselhável rotulá-los, pois há sérios riscos de fugirem do previsto. Só mesmo uma inteligência sobre-humana para construir algo assim.

De tempos em tempos, Alice dava uma pausa nos pensamentos para olhar em volta. Apreciava a chuva, as ruas, as árvores, os prédios. Ria de si mesma e emergia novamente no exercício individual de filosofia. Filosofar para Alice era quase como respirar. Gostava do verbo, mas tinha receio de usá-lo impropriamente. Quando falava em “Filosofia”, lembrava-se dos grandes filósofos da história e não queria parecer pretensiosa demais, equiparando-se a eles. Filosofava, sim, mas sabia seu patamar e que ele estava indiscutivelmente abaixo de Platão, Aristóteles, Sócrates ou mesmo dos genuínos filósofos modernos, a quem tanto admirava.

Alice era, portanto, uma mulher com pés no chão. Tinha lá suas viagens ao conhecido País das Maravilhas, mas sabia que a volta era certa e bem real. Seus mundos haviam mudado também. No seu País imaginário, muita coisa era diferente de outros tempos: outros sonhos, novas perspectivas e desafios. A realidade também já não era a mesma. Talvez por isso a sensação de vazio naquela manhã. Mas Alice sabia que era passageira e logo estaria plena de novo. Aprendera várias vezes a nascer para novos mundos, novos sentimentos, outros olhares, novas histórias em sua própria história.

Ela era naquele dia exatamente o resultado de todos os fenômenos naturais que a vida lhe trouxe. Reconhecia-se e entendia-se como nova pessoa. Deixava para trás, mais uma vez, a velha casca. Não era, definitivamente, a Alice de outrora. Parou os pensamentos por um instante. Sorriu. Não era, também, a Alice de tempos futuros. A sabedoria de Deus, engenheiro dos homens e da vida, consistia exatamente em permitir que o mundo não pare.

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