Fio de Ariadne: Fevereiro 2010

23 fevereiro 2010

A bruxa de Street Land


Ela era uma bruxa. Dizem as más línguas que já tinha eliminado pelo menos três. Morava no centro de Street Land, um povoado aparentemente amigável, bem na divisa entre Real e Imaginário. Não era uma bruxa assim com pés de galinha, vassoura e verruga na ponta do nariz. Era até bonita. Não era bem uma beleza espetacular, mas atraía olhares masculinos. Pobres daqueles que se deixavam encantar! Com esses, era ainda mais impiedosa. Não tinha pudores em dizer não. Menos ainda em dizer os motivos da negativa. Triste lembrar que, na maioria das vezes, são justamente os motivos que machucam.

No fundo, ela tinha medo. Bruxas medrosas são mais comuns do que parece. São medos de diferentes naturezas, mas, principalmente, há o medo de serem superadas. Isso pode acontecer, por exemplo, quando ela se apaixona. Quando alguém se entrega ao amor, acaba, de certa forma, refém do outro, não tem jeito. E bruxas não admitem isso. Acontece também quando alguém parece melhor que ela. Seja na arte ou no ofício, no jeito de ser que seja... Ela não aceita. Bruxas sofrem do mal de Narciso e não aceitam dividir palco e holofotes com ninguém.

Quando ela se irritava, logo se via. Sua fumacinha negra espalhava-se pela sala, pela casa, pelas ruas. E ai de quem cruzasse seu caminho! Saía distribuindo feitiços por onde passasse. Alguns maiores que os outros. Ela tinha lá suas simpatias. O que ela não imaginava é que um dia as coisas poderiam mudar. Foi, então, numa noite dessas mesmo, de fumaça negra no ar, que eles se esbarraram. Já estava pronta para soltar seus impropérios, quando o olhou nos olhos. Eram olhos diferentes. Eles a compreendiam. Não que fossem olhos frios como os dela. Eles, na verdade, conseguiam vê-la além da capa escura.

Nasceu ali uma amizade diferente. Talvez a primeira da vida dela. Foi tão natural que ela nem percebeu que estava na condição à qual mais resistia o tempo inteiro: totalmente entregue. Ele gostava dela mesmo sabendo que estava diante de uma bruxa. Na verdade, nem a via tão bruxa assim. Conhecia seus segredos, entendia seus feitiços. Ela não sabia, claro. Teria crises só de imaginar ser descoberta.

Ele conhecia sua fragilidade.Talvez até se identificasse em algumas delas. Ele não era bruxo, porém. Não como ela. Era um homem comum, que tinha como hobby entrar na alma das pessoas. A dela era fechada. Alma de bruxa. Mas ele entrou. Conseguiu transpor as barreiras e, do outro lado, encontrou uma bruxa quase boa. Entendeu que seus ataques eram pura defesa. Percebeu que a bruxa por baixo da capa queria muito ser uma pessoa legal. Queria carinho.

Ele tentou ajudá-la. Sutilmente, sem que ela notasse. Era um bom rapaz. Sabia que a tentativa lhe renderia alguns espinhos. A amiga bruxa costumava ferir quem se aproximava. Natureza de bruxa. Ele quis tentar mesmo assim. Acabou ferido, como previsto, mas foi mais longe do que qualquer outra pessoa havia conseguido. Ao menos com ele, ela era menos bruxa. Ao poucos, bem aos poucos, estava aprendendo que podia viver sem a capa.

Ele foi forte. Contam em Street Land que permanece firme. Mesmo com ele, ela só percebia que lançara os espinhos, quando era tarde demais. Seguiram amigos, porém. Nas ruas por onde a bruxa passava, sua fumaça ainda inebriava, seus feitiços ainda faziam efeito. Sabia o povo, no entanto, que, em algum momento, em algum lugar, ela havia mudado. Enquanto ele estivesse ao seu lado, havia esperança.

21 fevereiro 2010

Febre

"Quando penso em você, eu tenho febre."
Renato Russo



Ás vezes dá febre. Mas não é febre de doença. É de sentimento. É estranho. O corpo esquenta, os olhos ardem, o rosto fica cor-de-rosa. A sensação é maluca. É um estar doente sem estar. A boca fica seca, o estômago revira, dá tremor nos braços, as pernas ficam bambas.

A causa é variável. Pode ser sentimento paixão, pode ser amor à primeira vista, pode ser decepção, vergonha e pode ser raiva também. Aquela que faz a gente chorar sem saber se é raiva de alguém ou da gente mesmo. Às vezes é expectativa pura e simples. Medo do desconhecido. Quando é vergonha, ela vem acompanhada de uma vontade louca de sumir do mundo, com a capa de invisibilidade do Harry Potter ou com o pó de pirlimpimpim do Monteiro Lobato, pra falar uma coisa mais da minha época.

Pensando assim, dá quase pra comparar os sentimentos a microorganismos, que às vezes fazem bem e outras, derrubam um leão. Sim, porque, sejamos justos, tem sentimentos que, em vez de febre, fazem efeito de remédio. Aqueles que deixam a gente assim... legal... na paz... Entende? Sei lá, quando tenho “a sorte de um amor tranquilo”, me sinto assim. Ou quando faço o bem. A sensação de missão cumprida ou de ter feito a boa ação do dia dispensa qualquer Prozac.

Talvez Deus fez dessa forma para nos mostrar o quanto os sentimentos podem nos fortalecer ou arruinar. Deus também faz metáforas. E eu gosto de buscá-las. É nas sutilezas que entendemos a vida.

Depois do tylenol, a febre passou. :)

19 fevereiro 2010

Metamorfoses de Alice


Choveu a noite toda. Era muito cedo e a chuva fina persistia, dando à manhã escura um ar ainda mais deprimente. Alice no entanto precisava retomar a vida. As coisas aconteciam lá fora, indiferentes ao vazio que ela sentia. Carros, pessoas, dinheiro, interesses, tudo transitava no mesmo ritmo, acelerado e frio, enquanto nela tudo era lento e pedia um pouco mais de calor. Alice saiu. Ainda chovia, mas seus pensamentos não tinham medo de chuva. Enfrentaram grandes tempestades nos últimos tempos.

Agora os pingos caíam suaves, quase como carícia, e ela deixava-se levar – seu hobby predileto – pelas divagações. Deu-se conta do quanto tudo estava diferente, principalmente em si mesma. Trazia da antiga Alice apenas alguns valores e crenças. A maioria das convicções de outra época foi embora, derrubada pelos tropeços da vida, pelas certezas que só a vivência pode trazer. Era agora uma Alice mais madura e mais serena. Começava a entender as razões dos “mais velhos”. Alice já era quase um deles, o que não significava ser antiquada ou inflexível.

Careta definitivamente sempre foi uma característica que, ainda que o ar retraído aparentasse, Alice nunca teve. Gostava de conhecer pessoas e suas histórias secretas. Achava curioso confiarem a ela tantos segredos “inconfessáveis”. Era curioso, mas Alice gostava disso. Gostava de desvendar a diversidade do mundo. Engenheiro talentoso esse que criou os homens!

Alice tentava entender a engenhoca humana nas sutilezas do dia-a-dia. Vezes entendia, vezes não. É o que tornava o objeto ainda mais complexo: nenhum exemplar é igual ao outro. A humanidade é formada de produtos em escala absolutamente desiguais! Não é aconselhável rotulá-los, pois há sérios riscos de fugirem do previsto. Só mesmo uma inteligência sobre-humana para construir algo assim.

De tempos em tempos, Alice dava uma pausa nos pensamentos para olhar em volta. Apreciava a chuva, as ruas, as árvores, os prédios. Ria de si mesma e emergia novamente no exercício individual de filosofia. Filosofar para Alice era quase como respirar. Gostava do verbo, mas tinha receio de usá-lo impropriamente. Quando falava em “Filosofia”, lembrava-se dos grandes filósofos da história e não queria parecer pretensiosa demais, equiparando-se a eles. Filosofava, sim, mas sabia seu patamar e que ele estava indiscutivelmente abaixo de Platão, Aristóteles, Sócrates ou mesmo dos genuínos filósofos modernos, a quem tanto admirava.

Alice era, portanto, uma mulher com pés no chão. Tinha lá suas viagens ao conhecido País das Maravilhas, mas sabia que a volta era certa e bem real. Seus mundos haviam mudado também. No seu País imaginário, muita coisa era diferente de outros tempos: outros sonhos, novas perspectivas e desafios. A realidade também já não era a mesma. Talvez por isso a sensação de vazio naquela manhã. Mas Alice sabia que era passageira e logo estaria plena de novo. Aprendera várias vezes a nascer para novos mundos, novos sentimentos, outros olhares, novas histórias em sua própria história.

Ela era naquele dia exatamente o resultado de todos os fenômenos naturais que a vida lhe trouxe. Reconhecia-se e entendia-se como nova pessoa. Deixava para trás, mais uma vez, a velha casca. Não era, definitivamente, a Alice de outrora. Parou os pensamentos por um instante. Sorriu. Não era, também, a Alice de tempos futuros. A sabedoria de Deus, engenheiro dos homens e da vida, consistia exatamente em permitir que o mundo não pare.

18 fevereiro 2010

É o que me interessa


Daqui desse momento
Do meu olhar pra fora
O mundo é só miragem
A sombra do futuro
A sobra do passado
Assombram a paisagem.

Quem vai virar o jogo
E transformar a perda
Em nossa recompensa
Quando eu olhar pro lado
Eu quero estar cercado
Só de quem me interessa.

Às vezes é um instante
A tarde faz silêncio
O vento sopra a meu favor
Às vezes eu pressinto e é como uma saudade
De um tempo que ainda não passou
Me traz o seu sossego
Atrasa o meu relógio
Acalma a minha pressa
Me dá sua palavra
Sussurra em meu ouvido
Só o que me interessa.

A lógica do vento
O caos do pensamento
A paz na solidão
A órbita do tempo
A pausa do retrato
A voz da intuição
A curva do universo
A fórmula do acaso
O alcance da promessa
O salto do desejo
O agora e o infinito
Só o que me interessa.

Lenine/Dudu Falcão

17 fevereiro 2010

Das mortes da vida


“Para nos tornarmos imortais, é preciso aprender a morrer”, diz uma das letras do fascinante grupo que mistura música, teatro e poesia, O Teatro Mágico. Já morri várias vezes na vida. Não vou mentir: quase sempre dói. Mas é a dor da passagem, do momento, da quebra. O que fica é a renovação, o gosto de começar, não do zero, mas de um novo ponto, com novas perspectivas, sem ignorar as experiências passadas, mas reduzindo-as ao que merecem: passado. O que passou serve apenas de orientação para que façamos um futuro melhor, com mais acertos ou, pelo menos, sem os erros, agora banais, de outrora.

Essa semana eu morri novamente. Coincidência saborosa que o renascimento aconteça exatamente em uma quarta-feira de cinzas. Sempre me identifiquei com a Fênix, a ave que renasceu das cinzas. Coincidência igualmente feliz que eu volte a escrever também agora. As palavras sempre foram minhas asas. E agora, como Fênix, visto minhas asas e renasço para muitas coisas das quais eu havia, por tempo indefinido, desistido.

A Literatura sempre encontrou formas de dar o ar da graça em minha vida. Às vezes me escondo, chego a achar que não consigo mais escrever. É aí, então, que ela vem de novo, como a dizer “achou que ia se ver livre de mim?”. Não, eu não consigo me livrar dela. E, sinceramente, adoro essa perseguição. Nessas férias, a literatura novamente bateu em minha porta. Literalmente. Ou quase. Fui procurada por um escritor que me convidou a fazer parte de um novo projeto. Fizemos as pazes, eu e ela. Entendi que ela precisa de mim tanto quanto eu dela. Voltamos às boas. E espero que desta vez o casamento seja sólido e duradouro.

Volto agora para o blog. Renasço para as palavras e para uma série de coisas em minha vida. Deixo para trás aquilo que já não me trazia produtividade ou, melhor, aquilo que já não me fazia feliz. Há momentos na vida em que o que era saudável se torna doença e, então, é preciso morrer e expurgar tudo o que já não fazia bem. A morte dói, mas o prazer de se sentir limpa, como uma folha em branco, pronta para receber as mais belas histórias, supera qualquer golpe, ultrapassa, e muito bem, qualquer quebra.