Fio de Ariadne: 2010

28 dezembro 2010

Retrospectivas e perspectivas

"Quem conhece os outros é sábio;
Quem conhece a si mesmo é iluminado."
Lao-Tsé


"É preciso tanto movimento, tantas mudanças internas e externas, para descobrir que a paz está bem tranqüila dentro do nosso coração."
Denise Portes




Se eu tivesse que escolher uma palavra para explicar meu ano de 2010, ela seria: autoconhecimento. Decerto disputaria o primeiro lugar com outra bastante importante: amadurecimento. Provavelmente porque autoconhecimento e amadurecimento caminham muito próximos. 2009 foi sem dúvida um ano de muitas transformações em minha vida. 2010 foi o ano de assimilá-las, de estar comigo mesma e compreender que é muito bom estar na minha própria companhia. E, satisfeita ou não, este ano tive que estar na minha própria companhia (e só com ela) muitas vezes. Aprendi que estar sozinho não significa estar em solidão. E que estar com alguém não significa estar acompanhado. Coisas que a vida ensina, quase sempre depois de nos dar algumas surras. Faz parte.

Sinto-me bem agora. Não que eu esteja imune a sentimentos como dor, saudade, decepção, expectativa. Ainda sinto tudo isso. Talvez até mais fortes e pulsantes. O fato é que hoje sei lidar bem melhor com eles. Conhecer-se implica ter ideia (nunca sabe-se totalmente) de nossos limites e potenciais. Conhecemos do que somos capazes e sabemos como podemos lidar com determinadas coisas, inclusive com nossas próprias dores e esquisitices. 2010 não foi um ano de grandes transformações externas, mas de uma faxina interna sem precedentes.

Bani a auto-piedade do meu vocabulário. A culpa também. Não preciso delas. Aliás, não preciso de nada que tolha a minha liberdade. Eis algo que descobri a meu respeito: o que mais desejo é ser livre. E, para ser livre, o autoconhecimento é um passo fundamental. Talvez o primeiro. Antes de conhecer a liberdade, é preciso saber o que me liberta.

Voltando à questão da auto-piedade, vale a dica: é ela a grande responsável por nossas mais impiedosas fossas. Parece contraditório? E é. Ter pena de si mesmo é a maneira mais eficiente de se maltratar. Reparem: enquanto pensamos o quanto fomos injustiçados e nos vemos como coitados, incompreendidos, humilhados, desvalorizados, não saímos do lugar. Ficamos durante meses, às vezes anos, aumentando o tempo de vida de uma história que já está moribunda, apodrecendo dentro de nós. Escolhi não viver isso mais. Eutanásia já!

A culpa também joguei pela janela. O erro ensina. Se não ensina, ao menos transforma. Nada permanece igual depois de um erro. Resta-nos conviver da melhor forma possível com essa transformação. E isso começa riscando a culpa da história. Reconhecer um erro e tentar tornar a vida melhor depois dele é bem diferente de alimentar a culpa. Ela é como a autopiedade do parágrafo de cima: trava a roda da vida, causa estagnação. Stay away!

Eis, então, o melhor resumo de 2010: estou apaixonada por mim mesma. Não, eu não desenvolvi um ego desmedido. Apenas me compreendo e me aceito. Respeito meus limites, exploro meus potenciais, exijo de mim mesma o que sei que posso cumprir. Permito-me errar. Enfrento o medo de tentar de novo. E tento quantas vezes forem necessárias. Percebo minha beleza. Isso tudo me deixa mais aberta para o mundo, mais receptiva e cada vez mais amante. No melhor sentido da palavra. Sou dona de uma alma leve e acolhedora. Ela é pensante, tranquila, entende-se e aceita-se como gente. Essa classe apaixonante da invenção divina!

Em 2010, eu chorei sem vergonha de chorar. Admiti minhas fraquezas, entendendo que elas não me diminuem. Dei boas gargalhadas. Viajei. Saí mais. Busquei mais. Questionei mais. E encontrei mais respostas! Rompi com situações que me incomodavam. Conheci pessoas novas e novas pessoas naquelas que eu já conhecia. Aproximei-me do Divino. Fortaleci minha espiritualidade. Entendi o ser humano, suas mazelas e individualidades. Em 2010 eu me apaixonei! Despertei paixões. Decepcionei-me. Surpreendi-me (principalmente comigo mesma). Este ano eu me joguei. Cantei. Dancei. Escrevi bastante e pensei muito mais. Dei muitos abraços, contei e ouvi muitas histórias, troquei energias. Senti tudo o que um ser humano tem direito a sentir, de bom e ruim, aprendi a lidar com esses sentimentos e moldá-los, dosá-los, como numa receita de bolo, para chegar ao melhor resultado: a minha paz.

Para 2011, não tenho planos ambiciosos, mas tenho planos. Também tenho desejos, sem dúvidas. Ano novo que se preze tem que começar cheio de expectativas e esperança. Exemplos? Em 2011, quero um emprego que me desafie. Preciso do novo, quero quebrar paradigmas, tenho que descobrir novos talentos, explorá-los, derrubar meus próprios muros. Em 2011, quero um amor que me esfrie a barriga. Daquele que não me permita titubear, que se jogue e me leve junto, que saiba o valor das palavras, mas, sobretudo, saiba que há formas mais eficientes e saborosas de se falar à alma. Um amor que torne minha vida ainda mais leve. Quero viajar. Conhecer gente diferente, histórias diferentes, novos cenários.

Tenho, na verdade, uma lista generosa de coisas a fazer. Ainda vou refletir sobre cada uma delas, mas posso dizer, tranquilamente, que elas se resumem em apenas uma:

Em 2011, eu quero (e quero muito!) VIVER.


*Esta música foi um achado. Acho que representa um pouco do que fui em 2010, do que sou hoje e do que quero ser. Sintam a letra e deleitem-se com a melodia.


11 dezembro 2010

Clar-alice


Ele a olhava de longe. Ela, claro, percebeu, mas não conseguiu assimilar. A mesa do bar estava lotada de amigas lindas. Porque ele a escolheria? Não, não devia ser pra ela - pensava. Girava os olhos ao redor, como a procurar o verdadeiro alvo daqueles olhares. Ninguém.

Sim. Ela estava sendo olhada. Não entendia, porém. A vida toda tinha se esforçado para encontrar beleza em si mesma. Por vezes, até garimpava alguma coisa, mas quase sempre achava as amigas mais bonitas que ela. Não notava, no entanto, os olhares que a perseguiam por onde andasse. Quando notava, era sempre assim: desconfiada. Um auto-boicote descarado. Impiedoso.

Alice sempre foi assim: condescendente com os outros, cruel consigo mesma. Talvez por isso sempre tenha se apaixonado pelos rapazes errados. Uma forma inconsciente de punir-se sabe-se lá porquê. Coisa estranha. De outras vidas, talvez.

Alice é doce e sonhadora. Gosta de pensar na vida e de não entendê-la. Estranho não? Alice gosta da insapiência. Talvez porque saiba que o “não saber” é a mola que move o mundo. Enquanto o homem não souber de alguma coisa, estará buscando, se movimentando. A angústia de não saber nos leva adiante.

Alice segue ignorante de seu futuro, mas sempre supondo, inventando e desinventando histórias para si mesma. Tentar definir o indefinível é seu melhor passatempo. Às vezes, um flash de lucidez e auto-solidariedade a acomete. É, então, que Alice começa a supor sobre os homens. Entende que eles podem, naturalmente, achá-la bonita. E admite que talvez realmente seja. Diverte-se de pensar que alguns olhares sejam para a aura pensante que percebem nela. Alice tem atração pelo intelectual. É quase físico. Como se inteligência e capacidade de questionar a vida fossem afrodisíacos. Ela acha graça de si e dos outros, por pensar que existam homens igualmente insanos a ponto de desejar a “cabeça” de alguém. Alice ama com a cabeça e a alma, depois com o corpo. Quando consegue unir os três, a tríade perfeita, aproxima-se do cosmos.

Por vezes, a sonhadora Alice divaga a ponto de aproximar-se de seu alter-ego: Clarice, uma mulher inquieta, mas plena; questionadora, mas segura; madura, sedenta de conhecimento, de gente, de vida. É como se Alice fosse o passado e Clarice o futuro. No presente, alguém dividido entre ambas. Alguém que traz um pouco de Alice e já tem traços evidentes de Clarice. Alguém a quem falta pouco para ser completo. Uma mulher inteira. Clar-alice. Capaz de ver, aceitar e entender os olhares do rapaz do bar. Afinal, pra quem mais eles poderiam ser?

01 dezembro 2010

A seta e o alvo



Eu falo de amor à vida,
Você de medo da morte.
Eu falo da força do acaso
E você de azar ou sorte.

Eu ando num labirinto
E você numa estrada em linha reta.
Te chamo pra festa,
Mas você só quer atingir sua meta.
Sua meta é a seta no alvo,
Mas o alvo, na certa, não te espera.

Eu olho pro infinito
E você de óculos escuros.
Eu digo: "Te amo!"
E você só acredita quando eu juro.

Eu lanço minha alma no espaço,
Você pisa os pés na terra.
Eu experimento o futuro
E você só lamenta não ser o que era.
E o que era?
Era a seta no alvo,
Mas o alvo, na certa, não te espera.

Eu grito por liberdade,
Você deixa a porta se fechar
Eu quero saber a verdade
E você se preocupa em não se machucar.

Eu corro todos os riscos,
Você diz que não tem mais vontade.
Eu me ofereço inteiro
E você se satisfaz com metade
.
É a meta de uma seta no alvo,
Mas o alvo, na certa não te espera!

Então me diz qual é a graça
De já saber o fim da estrad
a,
Quando se parte rumo ao nada?

Sempre a meta de uma seta no alvo,
Mas o alvo, na certa, não te espera.

Então me diz qual é a graça
De já saber o fim da estrada,
Quando se parte rumo ao nada?

17 novembro 2010

De carne e osso

"Vou te pedir que fique. Mesmo que o futuro seja de incertezas, mesmo que não haja nada duradouro prescrito pra gente. Esse é um pedido egoísta, porque na verdade eu sei que, se nada der realmente certo, vou ficar sem chão. Mas, por outro lado, posso te fazer feliz também. É um risco. Eu pulo, se você me der a mão." Verônica H.



Eu não sou um blog, uma tela de computador, um SMS. Não sou uma conta no twitter, uma foto no facebook, uma empresa, uma profissão. Eu sou gente. Carne, osso e muito sangue. Tem um coração acelerado aqui dentro. Ele sente amor, raiva, tristeza, birra, alegria, tesão. Este corpo - ora frio, ora em febre - abriga uma cabeça cheia de histórias, ideias e caraminholas por tabela.

Como qualquer ser humano, eu preciso de beijos, abraços, toques, sorrisos e cheirinhos. Preciso que alguém me olhe com fome. Quero elogio, água na boca, confidências, pegada. Preciso que alguém discuta comigo a filosofia pós-moderna, o cosmo, a lei anti-fumo, a nova economia mundial. Antes disso, porém, preciso de quem sente comigo na calçada, admire a lua, coma um cachorro quente do carrinho da praça, morrendo de rir do molho na bochecha.

Isso tudo porque eu sou gente. Eu fantasio coisas, eu interajo, eu me decepciono, eu espero respostas. Eu também tenho receios, eu também lembro o passado, eu também temo o futuro. E pouco me afeta tudo isso. É volátil demais pra me prender as pernas. Ficam as experiências, o que eu trago dessa bagunça toda dentro de mim. Necessito mais do que palavras: de sentimento. Quero mais do que o olhar: o raio-X. Preciso mais do que a presença: a intensidade.

Respiro fundo. Eu posso pular agora mesmo. E você?

14 novembro 2010

10 mandamentos da balzaquiana feliz

Este post foge um pouco à linha principal do blog, mas acho que merece o espaço. Como alguns sabem, sou a mais nova balzaquiana neste mundão. 3.0, completados com orgulho (e carinha de 20) no último 12/11. De presente, duas amigas e um amigo queridos, companheiros inseparáveis de almoço, prepararam-me uma lista pra lá de especial: os 10 mandamentos da balzaquiana feliz. Segundo os autores, são coisas que nunca fiz e preciso fazer para marcar a tão importante troca de idade. Não sei se de fato vou cumprir alguma delas, mas as boas risadas que me garantiram já contribuiram muito para que eu seja uma balzaquiana feliz!

Vejam aí!

PS: reparem nas assinaturas de "testemunhas" e "ciente" no fim do texto.

12 novembro 2010

"Uma eterna criança, meu bem"


Hoje é meu aniversário
Corpo cheio de esperança
Uma eterna criança, meu bem
Hoje é meu aniversário
Quero só noticia boa
Também daquela pessoa, oba

Hoje eu escolhi passar o dia cantando
De hoje em diante
Eu juro felicidade a mim
Na saúde, na saúde, juventude, na velhice
Vou pelos caminhos brandos
A minha proposta é boa, eu sei
De hoje em diante tudo se descomplicará
Com um nariz de palhaço
Rirei de tudo que me fazia chorar
Cercada de bons amigos me protegerei
Numa mão bombons e sonhos
Na outra abraços e parabéns

Quero paparicações no meu dia, por favor
Brigadeiros, mantras, músicas
Gente vibrando a favor
Vamos planejar um belo futuro pra logo mais
Dançar a noite toda
Fela Kuti, Benjor e Clara

Dar este o espaço

Parabéns Bianca!
Parabéns Felipe!
Parabéns Micael!
Parabéns Mateus!
Parabéns Artur!
Parabéns Luisa!
Parabéns eu! Parabéns eu!

Parabéns Brendon!
Parabéns Guiga!
Parabéns Mayanna!
Parabéns João!
Parabéns Duda!
Parabéns Dri!
Parabéns eu! Parabéns eu!

Vanessa da Mata


04 novembro 2010

Recado ao medo


Ei, seu medinho de merda, cafajeste de quinta, picareta escolado, saia daqui. Não há espaço pra você na minha vida. Já faz um tempo acreditei nas coisas que você dizia, no fracasso que você me anunciava, nas feridas que, de longe, você já me trazia. Hoje sou eu a escolada, não caio mais na sua cilada, quero mais é ser feliz. Quero sentir o frio na barriga, quero roer as unhas de ansiedade, mas certa de que o que vir, virá para me tornar melhor.

Já saquei qual é a sua. Você tem gosto pela estagnação alheia, pela inércia daqueles que você consegue convencer. Não caio mais. Hoje sou livre e me lanço. Danço na pista, de olhos fechados, braços e sorriso abertos. Tudo muito melhor sem você. Se eu cair? Dane-se, senhor medo! Levanto e vou dançar em outras pistas, outros ritmos e, o que é melhor: mais madura e com mais sabedoria.

Você não me faz falta. Quero o sabor do perigo, a busca do desconhecido, o motor que me leva a algum lugar. Quero gargalhar da sua cara, zombar do que me para, e dizer: “Qual é? Agora eu vou a qualquer lugar!” Lamento dizer, velho medo: per-deu.

Sem você, eu corro todos os riscos. Inclusive, o de ser feliz.

24 outubro 2010

Tanta saudade


É como se tivesse um buraco. Dá até pra sentir o vento passando. Falta alguma coisa. Desconfio que seja meu coração. Mas ele está lá ainda. Continua onde sempre esteve, pra te abrigar sem ressalvas. O problema é a saudade. É ela que faz o buraco. Eu puxo o ar com força. O buraco continua lá. É porque você não está aqui. Às vezes esqueço que saudade dói tanto. Ela cria o vazio da lembrança. É uma projeção. A gente vê, sente (e como sente!), mas não toca. É uma imagem vazia. Um filme que a gente quer continuar e não consegue. Não consigo tocar seu rosto, sentir seu perfume, nem ter o seu abraço de novo. É aí que dói. O ver e não ter, o sentir e não tocar. Como disse Clarice Lispector, é “como se faltasse um dente na frente”.

Por favor, venha logo. Antes que eu me perca inteira.

17 outubro 2010

Aquarela


Desculpe-me. Não estou inspirada. Talvez seja esse amor, que não passa de uma promessa. Ou, quem sabe, essa saudade, que não tenho tempo nem grana pra matar. Pode ser ainda essa gente imatura e difícil que surge no caminho. Quiçá seja eu mesma e essa terrível mania de tentar entender o mundo. Mais fácil, enfim, que seja tudo isso, junto e misturado, dentro desse coração que já não é dos mais exemplares. É inferno astral. Talvez isso ajude. Ou melhor: atrapalhe. Acho que um bom colo resolveria tudo. Ou pelo menos me traria mais conforto para enfrentar.

Hoje tem um mundo cinza dentro de mim. O céu nublado, nenhuma cor, nenhuma estrela. Não gosto disso. Não sou assim. Tenho uma aura colorida e aconchegante, feliz em alegrar o que precisa de um pouco de cor. Quero minha aquarela de volta. Não é qualquer chuvinha que vai tornar meu mundo gris.

Ei, Deus, pode me ajudar a faxinar a alma? Desenha um sol aqui no lugar dessa nuvem e faz aquela árvore florescer. Agora me ensina a ventilar a casa, sem deixa-la vulnerável ao que não presta. Põe um balanço no meu quintal e um sorriso na minha cara. Um abraço de pai, um colo de mãe, um beijo de amor. De resto, só a certeza de que, não importa o quão cinza meu mundo possa ficar, basta jogar um balde de tinta pra fazer tudo colorido outra vez.

13 outubro 2010

Quebra-cabeça


De novo. Eu e meus pensamentos. Na escola, meu professor de filosofia dizia que eu bem fazia jus ao nome: Clarice. “Você pensa tanto quanto sua xará, a Lispector.” Naquela época, eu pouco conhecia Clarice, mas hoje concordo com Francis. Nome de pensador também. Os meninos da escola se divertiam com isso, diziam que era nome de mulher. Coisa de adolescente bobo. Fato universal: meninas amadurecem bem mais cedo que meninos. Eu amadureci. Na verdade, às vezes me pergunto se já não nasci pensante. Vez em quando, pego minhas primeiras redações e me deparo, mesmo que na linguagem infantil da época, com profundas reflexões existenciais.

Aos oito anos, eu já tinha esperanças de mudar o mundo. Hoje, essa expectativa não existe mais. Entendi que, cedo ou tarde, o mundo se encontra, ainda que do jeito dele. Pura teoria de Gaya. O x da questão está nas pessoas. Elas bagunçam tanto o pobre do mundo, que ele tem crises absurdas de identidade. Está surtando, mas eu ainda acho que ele se encontra. Acho mesmo que este é o sentido da vida: encontrar um lugar no mundo, o encaixe perfeito, como uma peça de quebra-cabeça, ainda que isso demore e signifique muitas tentativas frustradas. Enquanto isso, tudo vai girando. O mundo não pára para a gente descer, nem espera que encontremos um bom assento. Às vezes, vem a mão de Deus e dá uma forcinha, coloca a gente no lugar exato, mas o grande teste consiste em identificarmos as pistas e encontrarmos nós mesmos a ilha perdida.

Ainda estou colhendo meus sinais. São muitos e o caminho parece longo. Quer saber? Não me importo. Tenho gosto pelo desafio. Olha só: agora mesmo acabou de surgir uma pista! É exatamente assim que elas aparecem: no destino disfarçado de cotidiano. O mais saboroso é tentar desvendá-lo, entender suas charadas e surpreendê-lo, fazendo de conta que caiu na sua conversa de que “hoje é só mais um dia comum”. Lá na frente, a gente mostra pra ele que o seguimos, por gosto e convicção, por sabermos que, por mais tolas que as coisas aparentem ser, elas podem nos encaixar perfeitamente neste quebra-cabeça chamado vida.

12 outubro 2010

Constatação do Amor perdido nº 2


Era uma manhã diferente. Não tinha cheiro de primavera como aquelas que passara ao seu lado. Não tinha gosto de sorvete na praça, e a sensação que trazia não era o conforto daquele abraço. Era uma manhã cinza antes de tudo. Vazia. Silenciosa. Sem o barulho gostoso das gargalhadas em sintonia, sem o sabor de um bom dia especial, do olhar e do sorriso que, juntos, diziam mais que todas as palavras de todas as línguas do universo. Era uma manhã sem porquê.

Por mais que ela se perguntasse não encontrava respostas. É duro descobrir depois dos 25 que há perguntas sem respostas. Ou que há respostas que é melhor permanecerem escondidas no fundo do armário, simplesmente porque doem. Doem e não são capazes de nos dar a solução. Era prudente não buscá-las.

E naquela manhã estranha, sem cores, sem sabores, sem porquê, ela abriu os olhos e tentou encontrar algo a fazer. Não algo que trouxesse de volta as cenas que ininterruptamente ela recordava, mas algo que a fizesse cumprir o papel de estar ali. Desistira de buscar soluções. Já estava constatado: mais um amor perdido. “Triste coleção a minha”, pensou. Verdade. Triste coleção essa de amores passados, frustrados, contos de fadas sem o “felizes para sempre”.

Suas lágrimas já não tinham indignação. Eram lágrimas resignadas. Daquelas que rolam, mas sabem que trazem o peso do aprendizado. Mais um. Nada se rompe sem dor. E a dor é um grande mestre. Ela já aprendera, por exemplo, que é impossível tornar as lembranças palpáveis. Recordava e, ali mesmo, no seu masoquismo solitário, tentava extrair de dentro de si um pouco do sentimento que vivera naqueles instantes passados. Os sorrisos, os olhares, as bobeirinhas e confissões. As sensações, os toques, os conselhos e torcidas. O orgulho, a corujice trocada, o beijo suave, a êxtase de estarem juntos, o encantamento de terem se encontrado nesse mundo insano e tantas outras coisas que davam às outras manhãs todas as cores, aromas, sensações e sabores agora perdidos.

E naquele dia sem graça e sem sol, ela levantou e resolveu seguir. Ainda sem rumo, ainda sem forças, mas resoluta. Iria em frente. Um dia, certamente, todos aqueles aprendizados serviriam e ela não mais precisaria constatar que o amor, e toda a sua aura mágica, acabou perdendo-se no tempo, na distância, nas mágoas, nos desencontros, no espaço. O cinza não duraria para sempre.

26 setembro 2010

Coleção


Nem selos, nem cartões de telefone, nem miniaturas. Eu coleciono pessoas. Trouxe cada uma de algum lugar por onde passei ao longo da vida. Cada peça é especial, exclusiva e muito bem guardada. Colecionar pessoas exige cuidados. É preciso entender que cada uma delas tem características próprias e idiossincrasias que as fazem especiais. Cada uma tem suas alegrias e dores e, com cada uma, há de se saber lidar de forma diferente. É preciso saber moldar-se às pessoas. Todas carecem de afeto e atenção, mas cada qual a seu modo e intensidade. Colecionar pessoas exige flexibilidade e capacidade de observação. Sou feliz com minha coleção. Ela oferece algo que outras não conseguem: a troca. De cada um dos exemplares, recebe-se algo diferente: um aprendizado, um sentimento, uma alegria.

Minha coleção é grande e bem polida, sem marcas, mas com ótimas histórias. Tenho aquelas que trouxe da infância, da escola e das brincadeiras no quintal. As da adolescência têm as histórias mais divertidas, as maluquices e chatices que todo adolescente tem para contar. Algumas vieram dos lugares onde trabalhei. Tiveram a oportunidade de conhecer-me no dia a dia, com todas as minhas chatices cotidianas, mas foram aquelas com quem tive algumas das melhores oportunidades de aprender a ser alguém melhor. Há ainda aquelas que garimpei em um dos melhores períodos da vida: na faculdade. Essas são especialíssimas, obras raras e resistentes, com as quais dividi grandes pressões, mas, sem dúvida, as melhores histórias de todos os tempos.

Não posso esquecer das peças que trago da família. São as que me conhecem melhor e, ainda assim, conseguem dar-me em troca as amostras mais sublimes de amor. Em uma prateleira especial, guardo meus amores. Com eles, aprendi lições incríveis, exerci a arte da entrega, da simplicidade, da compreensão e, principalmente, entendi o quanto ceder pode ser bacana. Há, enfim, muitas pessoas em minha coleção, espalhadas pela vida, pelos lugares e pelo tempo, mas todas muito bem guardadas debaixo do meu sentimento.

Nem todo mundo sabe colecionar pessoas. Há quem machuque seus exemplares e faça com que eles percam sua principal característica: a da troca. Há quem deixe pessoas quebradas por onde passa, sem notar que isso o torna mais passível de quebrar-se também. Às vezes vejo isso de perto e me aborreço, mas logo entendo que é só mais um exemplar rebelde que, cedo ou tarde, vai compreender que as coisas não são bem assim. Enquanto isso, sigo com as minhas peças, as minhas pessoas, exclusivas, especiais e que me fazem sentir-me assim também. Pessoas ricas que me enriquecem e me fazem colecionar, além delas, alegrias inumeráveis.

23 setembro 2010

Fora do alvo


Era um dia comum. Nada de diferente no céu, o mesmo clima, os mesmos vizinhos mal educados, o mesmo engarrafamento na Avenida Antônio Carlos, as mesmas árvores na Pampulha. Alice queria apenas entender o que estava acontecendo. Dentro dela, sobretudo. Tudo estava muito estranho desde o dia em que decidiu que aquele seria seu próximo amor. Fez algumas análises e concluiu que ele tinha boas características. Não era feio (nem bonito também), era inteligente, estudado, tinha um bom emprego e demonstrava lá certa sensibilidade. Era um bom alvo. Talvez tenha sido esse o erro de Alice: tratá-lo como alvo.

A conquista virou uma meta e Alice que, nem apaixonada estava, acabou acertando a si mesma. De cara percebeu-lhe o jeito alheio, o distanciamento, a imaturidade. Alice, no entanto, queria tanto acertar o alvo que tomou aquilo como charme. Tolice. Nem era charme, nem Alice era capaz de defender-se. Quando percebeu, já estava enredada por aquele homem confuso, que a levava para a mesma caminhada sem rumo, sem destino, sem sucesso. E, assim, Alice, que pensou em acertar, se viu acertada. Passou a ser alvo de um jogo estranho, que sequer sabia se era mesmo jogo, mas que lhe fazia mal porque ora a fazia feliz, ora a deixava perdida, sem respostas, sem amparo, sem companhia.

Ela não conseguia entender e, algumas vezes, nem queria, mas, naquele momento, era preciso. Sabia que ela também era um bom alvo. Era bonita, inteligente, estudada, tinha um bom emprego e sensibilidade. O que havia de errado, então? Ainda que ele não a quisesse, nada justificava aquele tipo de atitude. Ele sumira sem deixar pistas, como uma criança amedrontada e egoísta. Deixou para trás muitas possibilidades e uma boa moça, sonhadora, mas plenamente capaz de fazê-lo feliz. Dentro dela, ficara apenas a dúvida e o vazio, o espaço reservado para uma história que não aconteceu, mas que, ela sabia, traria, no mínimo, um pouco mais de tempero a duas vidas sem muito sal nem muito açúcar. Alice respirou fundo e seguiu. Finalmente, o trânsito fluía na Avenida Antônio Carlos.

16 setembro 2010

Conselhos para um (quase) homem


Tô pouco ligando para as suas viagens internacionais e me lixando para o seu MBA em Gestão de Negócios. Também pouco me importa seu carro do ano, seu conhecimento sobre vinhos e seu inglês fluente. Na verdade, quero que você pegue seu inglês e... Bom, deixa pra lá. O que esperava de você é algo que, já entendi, você não pode me dar: o mínimo de hombridade, de maturidade e alguma atitude diferente de olhar para o seu próprio umbigo.

O que eu quis de você, esse tempo todo, é algo que seus títulos não garantem e seu dinheiro não compra: a capacidade de se relacionar bem, a inteligência emocional, a sabedoria, o equilíbrio. Um pouco de coragem também lhe cairia bem.

Hoje, que compreendi nossa incompatibilidade, entrego os pontos e fecho a porta, mas deixo alguns conselhos sobre a mesa. Sinceramente, desejo a você: Mais pé na terra, menos sapato apertado. Mais cachorro quente, menos salmão ao molho de alcaparras. Mais ar livre, menos ar condicionado. Mais teatro na praça, menos Youtube. Mais castelos de areia, menos engenharia. Mais guerra de travesseiros, menos conflito de interesses. Mais olho no olho, menos MSN. Mais chocolate no rosto, menos goma na camisa. Mais amizade, menos terapia.Mais beijo de novela, menos beijinho de tia chata. Mais riso solto, menos sorriso amarelo. Mais abraço forte, menos aperto de mão. Mais relacionamento, menos conveniência.

Triste saber que você é hoje o que sempre buscou e construiu: uma conta no banco, alguns carimbos no passaporte, um bom carro, um imóvel na zona sul. A realização financeira e social por si só. Pura. Sem pontes, sem laços. Quisera eu ter lhe quisto antes. Quisera eu ter entrado em sua vida, quando você não passava de um menino avoado, mas cheio de planos, um magrelinho do interior, repleto de boas idéias e esquisitices contornáveis. Quisera eu ter intervindo a tempo de impedir que você fizesse de sua vida uma conta complicada. A tempo de, sim, compartilhar contigo as vitórias materiais, mas fazer delas simples cenário para uma história cheia de personagens, cores, sentimentos e VIDA. No sentido mais pleno da palavra. Pena mesmo não terem inventado a máquina do tempo. Carrega agora meus conselhos contigo e o adeus decepcionado de quem não conseguiu vê-lo transformar-se em um homem de verdade.

08 setembro 2010

O que você precisa saber


"Só tem uma coisa que você precisa saber para conviver comigo: eu só tenho a cara de boazinha. Não se deixe enganar pelas roupas cor de rosa ou pelo cabelo devidamente repartido, eu sou terrível. É sério. Pergunte aos meus melhores amigos, ou melhor, pergunte a minha mãe. Posso ser a pessoa mais compreensiva e tolerante do mundo, mas o limite da minha paciência é bem curto e eu fico emburrada fácil. Também sou a pessoa mais antipática que alguém pode conhecer, porque por mais doce e educada que eu seja, eu não tenho nenhuma vocação para atriz, portanto se eu não gosto eu não gosto e ponto. Sem contar que eu sou um pouco neurótica e cheia de manias esquisitas. Ah, e além das mil alergias eu tenho TOC e segundo meu melhor amigo eu também sou hipocondríaca. Mas eu posso ser muito amável e doce, se você preencher alguns requisitos básicos como gentileza, inteligência e um pouco de amor. E ser um pouquinho terrível também, porque gente comum me cansa."

Paula Fernandes

07 setembro 2010

Quem vai fazer a faxina no meu coração?


Está tudo limpo. A casa, a louça, as roupas. A cama está feita, os armários arrumados. As contas estão pagas, a despensa cheia. Falta organizar a bagunça do meu coração. É que ele não sabe se ama ou se ignora, se espera ou vai-se embora, se apazígua ou se apavora. Há tempos eu queria um coração desses que nem liga para o que se passa lá fora. Um coração alienado, desocupado, do tipo que só bate por bater. Fazer o quê? Nasci assim, com este coração bobo, que se alegra e se entristece por tão pouco, que insiste em saltitar por quem nem me olha. Um coração torto, remendado, que vive fazendo puxado pra caber mais alguém. Fora dele, está tudo ajeitado, mas aqui dentro, ai Deus, que bagunça em má hora! Quem há de querer uma moça de casa arrumada e coração agitado, confuso, sambado? Que não sabe se o fecha ou se enamora?

Quem, afinal, vai fazer a faxina no meu coração?

01 setembro 2010

Sol de primavera

"Quando entrar setembro e a boa nova andar nos campos..." Beto Guedes


Tenho tendências a imaginar coisas. Em todas as épocas do ano, todos os dias da semana, ocasiões diversas, eu divago. Sonho, especulo, faço planos futuros para um presente imaginário. E na primavera, curioso, esta é uma característica que transborda, chega a passar pelos poros e se espalha pelo ar como um perfume que deixa marcas sem pedir licença.

Não sei se por ser assim ou por outro motivo qualquer, basta entrar setembro e percebo algo diferente também nas pessoas. Talvez a causa seja fisiológica. É fim do inverno e o sol traz de novo a liberdade e a leveza das roupas da estação, é equinócio no hemisfério sul, o céu parece mais limpo e a claridade funciona como energético natural nos dias mais difíceis. Pode ser ainda que a culpa seja de uma tal psique primaveril, uma aura colorida, desperta pelo perfume das flores ou pela brisa mais forte, que insiste em levantar vestidos e atrapalhar cabelos.

É hora de deixar a pele à mostra e parece que à mostra também ficam os sentimentos. Ficamos mais vulneráveis a paixões anônimas instantâneas e mais entregues àquelas que têm nome, forma e endereço certos. Sem dúvidas, há algo de não sei o quê no ar de setembro. Tem cheiro de O Mundo de Sofia e sabor de embalo na rede ao som de Chico Buarque.

Acho que em setembro fico mais pensante. As coisas passam suaves diante dos olhos, como um filme que nunca olhamos e de repente paramos pra ver, descobrir. E surpresos ficamos diante das sutilezas de palavras, gestos, pessoas, detalhes. Tudo o que a escuridão do inverno não nos permitiu perceber. Às vezes passamos mesmo pela vida como quem passa por um poste.

É 1º de setembro e o ar muda. Chega a ser cabalístico. Uma influência dos astros que vem para anunciar que, dali a 22 dias, uma força mágica erguerá plantas, quebrará o silêncio dos pássaros, abrirá flores. Mais que isso: abrirá corações e chamará mentes à reflexão. Em setembro, imagino mais coisas que no restante do ano, uma produção de pensamentos em larga escala, quase uma hemorragia do pensar. E do sentir. E de acreditar que ainda há o que fazer pela humanidade, e que a natureza das coisas (e das pessoas) é a de florescer mesmo depois de um rigoroso inverno.

26 agosto 2010

Amor de livro


Era um amorzinho cult. Tinha cheiro de livro novo, desses que a gente compra, alisa a capa e fica louco para conhecer o conteúdo. Lembrava um amor de infância, inocente mesmo, sem beijo na boca e sarro atrás da prateleira. Nem por isso tinha menos sabor. Era um amor de olhares. Eles tentavam se esconder por trás das páginas dos últimos lançamentos da FLIP, mas acabavam descobertos por outros olhinhos curiosos.

João trabalhava em uma livraria metida à besta, das muitas que existem na Savassi, dessas aspirantes a café argentino. Alice não era uma cliente como as outras. Tinha um quê de personagem do Garcia Marquez, lembrava os versos de Neruda e carregava um certo mistério de Agatha Christie. Ele gostava do seu jeito hippie cult e seu ar de Clarice Lispector. Ao entrar na livraria, por sua vez, os olhos de Alice já escaneavam as estantes à procura de João. Ela também adorava o estilinho do rapaz, aparentemente despretensioso, mas que no fundo escondia deliciosas intenções. Alice gostava do seu olhar. Era um olhar firme, porém doce, a la Che Guevara mesmo. Um olhar de quem já leu Dostoievski .

À primeira vista, Alice viu apenas o vendedor de livros. O segundo olhar, depois das críticas bem construídas sobre cada edição de uma pilha, foi bem mais profundo. Ouvindo a voz suave, a descrição pausada, os comentários ponderados, a jovem deixou-se perder naqueles olhos. Eram olhos que guardavam uma biblioteca.

- O que achou? - perguntou ele.
- Ahn?
- Perguntei o que achou.
- Ah! Achei maravilhoso. - respondeu ela, com um sorriso que se via mais nos olhos do que na boca.

A partir de então, as idas à livraria tornaram-se constantes. As críticas literárias dos jornais e revistas nunca foram tão atrativas como depois daquele encontro. Elas ditavam a pauta da próxima visita. Alice decorou os horários de João e ele, então, passou a viver a expectativa de esperá-la. Os comentários sobre as obras ficaram cada vez maiores e mais elaborados. Alice interagia, fazia suas críticas também. As bienais do livro transformaram-se em “copas do mundo” da literatura.

Era um amor de livros, sorrisos e olhares. E eles não precisavam mais que isso. Era um amor que não precisava ultrapassar as prateleiras, sob o risco de perder o encanto. A livraria metida da Savassi era o cenário. Alice e João, os personagens e autores de uma história que não precisava de outros elementos. Por si só, tinha a doçura de um final feliz.

23 agosto 2010

Moça delicada


Mais um belo texto, com o qual me identifiquei, retirado do blog Costurando Estrelas:

"Ela é uma moça de poses delicadas, sorrisos discretos e olhar misterioso. Ela tem cara de menina mimada, um quê de esquisitice, uma sensibilidade de flor, um jeito encantado de ser, um toque de intuição e um tom de doçura. Ela reflete lilás, um brilho de estrela, uma inquietude, uma solidão de artista e um ar sensato de cientista. Ela é intensa e tem mania de sentir por completo, de amar por completo e de ser por completo. Dentro dela tem um coração bobo, que é sempre capaz de amar e de acreditar outra vez. Ela tem aquele cheiro doce de menina romântica e aquele gosto ácido de mulher moderna."


Paula Fernandes

22 agosto 2010

Os poemas que me assombravam


Clarice. Os dicionários dizem que meu nome significa claridade. No entanto, nada estava claro para mim. Eram duas horas da manhã; a casa às escuras. Acendi a luz do banheiro, olhei-me no espelho. As olheiras denunciavam as semanas que eu não dormia. Observei meus olhos, como se os inspecionasse. Eles já eram frios, indiferentes ao tormento que me consumia.

Voltei ao quarto, sentei-me apoiada à cabeceira da cama. Há dias, a situação era a mesma. Não sei precisar quando tudo começou; sei que pareceu durar anos. No começo, pensei que fosse apenas o fruto de uma imaginação atormentada pela solitude. Estava só, perdida em um país que não era o meu, suportando as discrepâncias culturais e todos os mitos que cercavam minha “brasileirice”.

Com o passar dos dias, vi que meu problema não se tratava, simplesmente, de estar sozinha. A diferença era sutil: o que me afligia era a convivência comigo mesma. Não era a falta dos outros o que me atordoava. Era o excesso do meu eu. Tentei fugir o quanto pude. Mudei de profissão, de país, de vida. Tudo em vão. Eu sempre estava lá para me atormentar; eu sempre fui o meu próprio fantasma.

Recordo que, durante um tempo, cheguei a experimentar a serenidade. Tinha um bom emprego, uma boa vida social e o telefone servia de consolo nos momentos de maior solidão. Entretanto, na vida de um poeta, nada pode ser cem por cento satisfatório. É indispensável que haja um conflito. Caso contrário, ele pode sucumbir. A poesia, então, mostrou-me que os conflitos eram inumeráveis.

Durante toda a minha vida, a literatura fora a única coisa que me manteve de pé, mas naqueles dias... Naqueles dias, era o meu algoz. Meus livros, meus cadernos antigos, as agendas guardadas, tudo o que me relacionasse à literatura insistia em me torturar. Eu estava sendo traída. Eu, que sempre me dediquei aos textos que lia e escrevia, eu, que me entreguei à ela de corpo e alma, estava sendo apunhalada.

Meus versos, de repente, ganharam vida. Esperaram o momento mais propício da minha solidão para gritar em meus ouvidos tudo o que eu não queria ouvir. Eu fugia do que era e eles insistiam em pular diante de meus olhos, tais como espelhos censores. Tudo o que de meu constituía aqueles poemas, as múltiplas faces que utilizei ao longo dos anos, se rebelava como a dizer: “não podes fugir, estamos aqui para lembrar-te de quem és”.

Eu não dormia, não tinha mais apetite. A todo instante, eles me interpelavam. As fraquezas diante da paixão, os medos, o egoísmo, a arrogância. Faziam questão de destacar todas as minha falhas. De nada adiantou mantê-los presos em gavetas durante anos. Na verdade, eu sempre soube que um dia eles poderiam tornar-se livres. E fraca, como sempre, nada fiz para evitar.

Naquela noite, enquanto me olhava no espelho, decidi virar o jogo. De alguma forma, o que estava acontecendo seria útil: eu aprenderia a me enfrentar. Era chegada a hora do combate que sempre temi: eu contra eu mesma. Permaneci na cama por alguns minutos, pensando em uma forma de me libertar.

Olhei em volta e, não sei o porquê, a prateleira de livros me chamou a atenção. Talvez porque os livros, até então, só tinham feito aumentar o meu transtorno. Meus olhos foram direto a um deles: Fernando Pessoa. Lembrei imediatamente dos versos célebres: “O poeta é um fingidor/finge tão completamente/que chega a fingir que é dor/a dor que deveras sente.” Há muito, eu não sabia o que era sorrir mas, naquele momento, sorri da esperteza de Pessoa. Ele não era mais capaz de versejar, mas me dera a solução.

Recordando os versos do poeta português, entendi que só havia uma maneira de deter a poesia que me assombrava. Tudo o que eu tinha a fazer era usar, como arma e escudo, a própria poesia. Se eles insistiam em repetir mentiras que eu acabei fazendo verdades, havia chegado o momento em que eu lhes fingiria verdades nunca ditas.

Estapeei meu próprio rosto, como se quisesse despertar de um transe que durou anos.
Meus poemas eram criação minha e eu não poderia deixar que me dominassem daquela forma. Eles não seriam meu Frankstein de papel. Respirei fundo e fiz aquilo de que tanto fugira: peguei caneta e papel. As idéias fluíram naturalmente; vinham em forma de enxurrada e, com elas, ressurgiam as lágrimas que eu já não tinha. Eu escrevi; escrevi como se fosse a primeira vez, com o mesmo entusiasmo e vigor dos primeiros dias.

Naquelas páginas eu me entreguei sem medo. Disse àquela parte do meu eu, a que sempre me acovardou, tudo o que eu ainda tinha de belo em mim. Eu ainda guardava motivos de orgulho e aqueles versos audazes sabiam disso. Por mais que tentassem gritar meus erros ao mundo, eles precisavam admitir que este mesmo mundo, aliado ao tempo, ensinara-me a errar menos.

Eles se calaram. Os poemas que me assombravam converteram-se em silêncio e voltaram às suas gavetas. Eu venci. A partir daquela noite, não tive mais medo. Resgatei, em mim, a literatura da qual fugira. Entendi que nossa relação seria sempre permeada de intrigas e faíscas, mas que isso não diminuiria a paixão recíproca. É apenas o reflexo da intensidade que nos une.

Amo a literatura e ela me corresponde. Bastou-me, naquele instante, compreender que, para que a poetisa fale, não é preciso que a pessoa se cale. Somos uma e gritar juntas nos garante o equilíbrio. A partir daquela madrugada, entendi que versejar minhas virtudes é torná-las latejantes e escrever meus problemas é terapia incomparável. Naquela noite, o Frankstein que eu destruíra não fora a antologia que guardei e, sim, uma parte inútil de mim. Os poemas, na verdade, fizeram-me feliz.

15 agosto 2010

Equações da vida


Não sou do tipo que aceita migalhas. Sempre gostei do pleno. Dou-me inteira, lanço-me. Nada mais justo que não admitir menos que isso. Não espero mais do que pode me dar. Quero apenas o que é capaz de oferecer. E sei que pode me oferecer bem mais que seu medo. Estou certa que a comodidade da sua covardia não é o melhor que pode alcançar.

Conselho de quem lhe quer bem: entregue-se. Sinta o vento percorrer o seu corpo, eriçando seus pelos. Sinta-se vivo. Há muito mais sabores no mundo que o feijão com arroz que te sustenta. Feche os olhos, não tenha medo da vida, nem seja tolo de pensar que tem algum controle sobre ela.

A equação matemática de viver é apenas esta: somos inteiros que se somam. Juntos nos multiplicamos. Sozinhos deixamos que tolices como o medo nos subtraiam. É, então, que viramos números primos, solitários, divisíveis apenas por um, quando o resultado é igual a nós mesmos. Sem acréscimos. Sem nada a mais que a nossa mesmice. Uma sem “graceza” sem fim.

13 agosto 2010

Sobre marcas e feridas


Parece clichê, mas é exatamente como uma ferida, que o tempo vai curando aos poucos. Fica a marca, mas ela também vai diminuindo, até não ser mais percebida. Ela, no entanto, permanece lá, convivendo com a gente, fazendo parte do nosso corpo. Eu tenho um sentimento assim. Curou, virou marca, foi desaparecendo, aceitei-a como parte de mim.

Nunca fui de estender a dor de um machucado. Há quem o faça por pura manha. Eu não. Saio logo metendo um mertiolate. Dou o grito consequente, seco o choro e vou mimbora. No caso de sentimento, nem sempre isso resolve. Quando menos se espera, a dor volta, o machucado abre de novo e não tem mertiolate que dê jeito. Eu continuo tentando. Não sei ainda o que é certo: tentar encurtar o tempo de cura ou aceitá-lo com toda a sua lentidão. Acho que, na verdade, o certo não existe. Existem sentimentos e feridas. Existem remédios, o tempo e a gente. A ordem dos fatores não altera o produto, já dizia a tia da escola.

A ferida está aberta de novo. Pior é que já nem incomoda mais. Há uma sensação de estranhamento apenas. Um questionamento inicial, do tipo: “Ah, você ainda está aí?” Depois me acostumo com ela e ela some de novo. Mais um ciclo curioso da vida.

26 julho 2010

Uma homenagem a todos os "Zés" (em todos os sentidos)
que encontramos por aí...




Você dita ao meu coração o que ele não quer aprender, Zé
Você faz com que o meu coração siga a tua receita só
Não, quero que aceite o jeito que eu te dou de mulher
Não! E aproveite: o resto o tempo dá jeito
Mesmo que tenha a minha oração,
Que você dispensa, Zé
Você faz com que o meu coração siga a tua beleza só
Vá lembrar a tardinha quando nos conhecemos, Zé
Havia uma beleza ali ou era criatividade minha?
Quando andava pela rua, cor de sol amarelo-ouro
Me fitava e eu me avermelhando,
Som de jardim de sonho
Zé, era seis da tarde, dia e escuridão.
Tinha tom, sino e alarme roubando o meu coração.
Hortelã, alecrim e jasmim, ave-Maria cantando.
Ela tão satisfeita por mim e eu num galho de sol,
Que nem passarinho, que nem passarinho.
Desvanecida de amor, cor de carmim.

Vanessa da Mata

22 julho 2010

Reflexões de Saturno

"E aos 29, com o retorno de Saturno, decidi começar a viver." Renato Russo


Desculpem-me a falta de literatura. Dei folga aos meus personagens. Cansei, por hora, de ser Alice, Clarice e outras “ices” que gosto de inventar. Nunca fui tão eu. Não sou exemplo. Nunca fui modelo de nada, mas agora me assumo, com todas as insapiências, inconseqüências e tolices da minha alma. Não sou só de erros também. Sou cheia de “eus”. Algumas de minhas faces são gostosas de se ver. Outras, nem tanto.

Coloco-as à mostra agora. Sou a principal espectadora de mim. Acho graça das minhas cagadas, mas não deixo de aplaudir os meus acertos. Acho que sou mais livre. E espero, sinceramente, não encontrar ninguém no caminho que me faça sentir presa novamente. Ao contrário: a partir de agora, só aceito aqueles que quiserem ser livres comigo. Ou que queiram ser libertados. É como um salto de pára-quedas sobre si mesmo. Você é o próprio ar livre.

Estou começando a aceitar a proximidade dos 30. O que é melhor: estou gostando disso. Acho que a maturidade é que me traz a liberdade de presente. É ela que me diz: olha, você é isso aí mesmo e não está ruim assim. Os astrólogos diriam que é o tal retorno de Saturno. Que seja. Se for para me fazer entender, sem culpas, quem eu sou e o que há de bom e ruim nisso, Saturno é muito vindo.

Entendi que consigo conciliar características muito diversas, sem que isso faça de mim alguém do tipo “duas caras” ou indecisa. Sei dosar cada uma delas de acordo com o que preciso. Sou contida, mas sou intensa. Sou sensível, mas sou forte. Sou metida, mas gosto de aprender. Sou leve, mas comprometida. Sou medrosa, mas provei (e gostei!) do sabor dos desafios.

Poderia gastar muitas linhas falando o que descobri a meu respeito, mas melhor parar por aqui. Seria me revelar demais. E de uma coisa sempre tive certeza: do meu gosto pelo mistério, que agora conta com um aliado a mais: a convicção de que só me revelo até onde meu bem-estar permitir.

20 julho 2010

Fábrica de Amores: Vende-se

Para os dias de inspiração em baixa, um texto das antigas.


Cansei de brincar. Estou juntando minhas coisas e indo embora, de volta ao consolo do meu travesseiro. Não quero mais inventar amores. Essa brincadeira dói. É como passar o dedo na chama da vela: é divertido, mas uma hora ou outra a gente acaba se queimando.

É curioso que depois de tantos anos as coisas não tenham mais muito sentido. Você ouve suas músicas e sonha com ninguém, escreve poemas pra ninguém, sente saudades de ninguém. Ou de todos. Ou para todos. Você diminui a velocidade, desliga as turbinas e pousa a cabeça no velho urso de pelúcia, exatamente como fazia aos cinco anos, quando acordava e não via ninguém ao seu lado. E daí você entende que não evoluiu grande coisa de lá para cá. Vinte anos se passaram e você ainda sente medo por não ter ninguém ao seu lado. E da mesma inocente forma como você inventava amigos imaginários, você hoje inventa amores.

O agravante da questão é que os amigos imaginários te ajudavam a superar o medo. Já os amores... Os amores só fazem fragilizá-la ainda mais. Você deseja sinceramente o amor dos filmes, das canções, dos livros de auto-ajuda. Bobagem. São todos de uma tremenda ilusão barata, embora, como toda ilusão, maravilhosamente mágica. Por vezes é bom e saudável sonhar, mas, depois de algum tempo, chega a hora em que a fábrica fecha ou, se não fecha, passa a produzir mais desilusões que sonhos.

Tenho minhas produções prediletas. Aqueles amores que criei e, se pudesse, os colocaria em uma prateleira, observando-me com um olhar de quase verdade. Tenho, sim, aquele que guardo a sete chaves, embora tenha anunciado a todos que o quebrei e joguei os cacos fora. Na verdade, os cacos eram meus e os tive que juntar, pedaço a pedaço, para seguir em frente. O amor, obra prima dentre todos os que já fiz, ainda guardo. Ele permanece lá, na estimada caixinha trancada, de onde eu o retiro todos os dias, às escondidas, para o polir e ressaltar seu viço. Ainda que eu não possa usá-lo, ainda que eu não possa colocá-lo em exposição aos quatro cantos do mundo, como se faz com as obras primas, ao menos, posso curti-lo no escuro do meu quarto, enquanto ouço Chico cantar minhas dores.

Hoje estou aqui para dizer que fechei a fábrica. Coloco à venda àqueles que acharem que possam tirar algum proveito. Não tenho mais talento para construir amores, se é que cheguei a tê-lo um dia. De hoje em diante, tenho espaço apenas para amores verdadeiros, naturais, que cheguem até mim com suas próprias pernas. Não os inventarei mais. Não quero mais passar o dedo na chama dessa vela. Cultivo, ainda, meus velhos amores fabricados, por mera covardia de destruí-los. E acho que, no fundo, por ter a mesma esperança de Gepeto com Pinochio: de que eles se tornem, um dia, meninos de verdade.

18 julho 2010

Cansei


Desculpem, mas tive que postar isto. Sou eu!

"Desisti de sustentar uma imagem e procurar o amor da minha vida no caminho. Quem quiser olhar pra mim vai ter que se conformar com minhas Havaianas roxas e meu cabelo despenteado, minha desatenção e minha falta de correspondência. Ando abatida e pensando demais." Verônica H.

*Retirado do blog Costurando Estrelas

16 julho 2010

Ciclos



A vida é um grande ciclo de expectativas.

A criança que não cresce, o amor que não chega, a moça que não casa, o óvulo que não fecunda, o bebê que não nasce, a criança que não cresce...

A aula que não termina, o diploma que não chega, o emprego que não sai, a dissertação que não acaba, a tese que não se defende, a aula que não termina...

A segunda que não se anima, a quarta que não ameniza, a sexta que não acaba, o fim de semana que não chega, a segunda que não se anima...

O coração que não bate, os olhos que não olham, a declaração que não acontece, o pedido que não se faz, a rotina que não se quebra, a liberdade que não vem...

E assim tudo gira. Perdemos tanto tempo esperando que nem percebemos a vida passar...

13 julho 2010

Ajeitando-se no mundo

"Faltava-lhe o jeito de se ajeitar. Só vagamente tomava conhecimento da espécie de ausência que tinha de si mesma. Se fosse criatura que se exprime diria: o mundo é fora de mim, eu sou fora do mundo." Clarice Lispector


É como se o mundo fosse pequeno pra mim. Tem uma coisa que me cutuca, pinica, pede pra eu me ajeitar. Eu me ajeito, mas não me acomodo. Falta alguma coisa, sabe? Como eu não tenho pra onde ir, vou ficando. Olho um e-mail aqui, outro acolá, enquanto isso. Dou uma tuitada. E eu que nunca imaginei que um dia utilizaria um verbo desses: tuitar. Um verbo inventado, esquisito e mais estranho ainda no seu significado: publicar palavras obrigatoriamente lacônicas para algumas pessoas lerem. É modernidade demais pra mim. Pior é que eu gosto. Triste de tudo é que, na busca por um cantinho neste mundo, acabei tentando me encontrar no ciberespaço. Não me encontrei, é fato, mas ao menos tenho algo pra me distrair enquanto não me resgatam para o meu planeta.

Eu às vezes tenho saudades não sei de quê. Você sente isso? Talvez seja o que Lenine disse em uma de suas canções: “é como uma saudade de um tempo que ainda não passou.” Lenine me entende. Os artistas sempre me entendem. Clarice Lispector é um exemplo clássico. Às vezes ela me entende tanto que, ao ler seus textos, acho que sou eu falando. Como é possível descrever tão precisamente o meu sentimento? É meu, pôxa! Muitas vezes Clarice faz parecer que é dela. Ou serei eu a roubar pra mim o que ela sente? Metidinha eu achar que sinto como Clarice, não? Mas eu sinto. Acho que aqui cabe um parêntese: Clarice pra mim é sempre presente. Sempre. Pra sempre.

Muitas vezes dá vontade de ter um mundinho só meu. Sei lá, algo como uma Casa da Barbie de verdade. Se bem que a Casa da Barbie, cá pra nós, era uma chatice também. Dessas fórmulas de felicidade prontas que tentam corromper a infância da gente. Ok, retiro o que eu disse. Não quero uma Casa da Barbie. Posso continuar querendo um mundinho meu. Mas só de vez quando também, porque eu acho que me cansaria fácil dele. Eu sou do tipo que reclama, mas gosta. Mulher de malandro. Com o mundo somente, que fique claro! É que dá realmente muitas vezes vontade de fugir, sair correndo dessa bola que gira, mas sou apaixonada por pessoas. Ser gente é complexo demais. E eu gosto do que é complexo. O simples é belíssimo, não posso deixar de dizer, mas é que, às vezes, de tão simples, é complexo. Acho que o ser humano passeia entre os dois extremos. O simples, puro e belo, e o complexo, esse labirinto do Minotauro, que só mesmo uma figura atrevida, com o nome de Ariadne, pra tentar desvendar.

Nessa brincadeira, lá vou eu, de novo, tentar me acomodar. Não adianta. Não vai adiantar nunca. O incômodo de viver é o que me move.

10 julho 2010

O peso de ser diferente

“Não me mostre o que esperam de mim porque vou seguir meu coração. Não me façam ser o que não sou. Não me convidem a ser igual porque sinceramente sou diferente.” Clarice Lispector


Nunca fui das mais populares. De qualquer forma, sempre consegui meu lugar em alguma turminha por onde passei. Sempre me senti querida. Sempre fui o ouvido que ouve, o abraço que conforta, a palavra que aconselha. Algumas vezes fiquei esquecida nessa brincadeira, mas sempre lidei bem com isso. Afinal, nunca gostei muito de me revelar. Acostumei-me a agregar à minha vida pessoas muito diferentes de mim. Amá-las, compreendê-las, aprender com elas. Com o passar dos anos, fui percebendo que a mais diferente de todos era eu mesma. E fui entendendo, e sentindo, o quão penoso isso pode ser.

Sempre consegui me entrosar, mesmo sendo diferente, mas a diferença nem sempre é compreendida, inclusive, por aqueles a quem chamamos de amigos. Sou a amiga careta. Nunca fumei, nunca fui de ficar por ficar, nunca dei um “tapa na pantera”, nunca bebi, a não ser uma caipirinha aqui, uma tacinha de vinho acolá. Nada que me deixe mais que risonha. Aprecio uma boa conversa, adoro programas culturais, odeio lugares cheios demais, não suporto ter que gritar para ser ouvida e, numa noite de sábado, o que me atrai é música suave, um barzinho tranquilo, com companhias agradáveis. Nada disso, porém, supera meu prazer de estar em casa. Amo minha casa, meu quarto, meu canto, minhas divagações.

A questão é que tudo isso , por muitas vezes, me faz ser vista como um E.T. Mais que isso: me coloca como a má amiga, a companhia chata, a pessoa esquecida. É o fardo que se carrega por ser diferente. Ele, às vezes, é dolorido. Tenho aprendido a lidar com ele, no entanto. Tenho entendido que maior que o incômodo de carregá-lo é o incômodo de fazer algo que não quero ou que não combina comigo. É o fardo de trair a mim mesma: minhas vontades, convicções, meu “estar bem comigo mesma”. Não quero me isolar do mundo, me trancar na minha caverna de Platão. Sou apaixonada pelo ser-humano e toda a sua maravilhosa complexidade. Confesso, inclusive, que, por vezes, me concedo a licença de extravasar. E faço isso com a consciência de quem sou. É tudo o que eu espero da vida: A liberdade de ser quem sou, agir conforme o que me conforta, ainda que isso seja diferente da maioria ou diferente de mim mesma, de vez em quando. A liberdade de ser quem sou e ser amada assim, exatamente desta forma, pois foi assim que aprendi a amar tanta gente à minha volta que em nada se parece comigo.

Cores e temperos


Nem era bonito. Tinha lá um certo charme no olhar, uma boca interessante talvez. Foi o caráter, na verdade, que lhe chamara a atenção. Ele reunia algumas das principais características que ela considerava importantes em um homem. A sensibilidade, pelo menos à primeira vista, era uma delas. Ele tinha brios, valores, apreciava a boa cultura, era inteligente. Era a descrição do cara (quase) perfeito, esperado por tanto tempo. Ela esqueceu-se, no entanto, que não só de características impecáveis se faz um homem. Nele, faltava um pouco de tempero. Sabe aquele sal com pimenta que não precisa ser muito, mas dá todo o charme? O tempo mostrou que sobravam algumas chaticezinhas também, daquelas que acabam desandando a receita. Uma pitada de imaturidade, outra de arrogância, uma colherinha de inércia.

Era estranho perceber aquelas coisas, depois de ter apostado tanto nele, mas uma das delícias da vida é justamente nos revelar enredo e personagens online, em tempo real, sem ensaios, sem sinopses, sem scripts. Aquilo não era suficiente para deixar de ter por ele o carinho de antes, mas tinha a medida de sua vontade de acertar da próxima vez, de não deixar a fila empacar ali, naquela alma bacana, mas sem as cores que ela sempre quis ver. Ele era o nude. Ela queria a paleta inteira.

03 julho 2010

Francesinha da Savassi

Foto: Alessandro Bastos

É inverno e os ipês colorem a Praça da Liberdade. Amo a Praça da Liberdade. Amo os ipês. Adoro o inverno na Savassi. Tem um ar que beira o europeu. Norah Jones ao fundo me transporta ao cenário, de casaco pesado, botas, cachecol, gorro e maquiagem despretensiosa. Quase posso sentir o vento que carrega as folhas e brinca com meus cabelos, pretos e curtos, que saem pelas laterais do gorro. Bem me disseram que o novo corte tinha me deixado como uma “francesinha”. Pois então: sou a francesinha da Savassi. Amélie Poulain das montanhas. Uma francesinha brazuca, metida à besta, achando que seu cachecol e gorro cabem bem ao inverno de um país tropical.

Lá vamos, então, Norah Jones e eu, caminhando entre os ipês da Praça, como se a vida estivesse ganha, como tudo o que ela esperasse de mim fosse uma caminhada matinal com ar de “rien ne compte” (ou “nada importa”, no bom e velho português). De fato, quando vejo os rosas, roxos e amarelos dos ipês, misturando-se ao azul do lindo céu de inverno, realmente nada importa. É como se aquelas cores tomassem minha alma, ampliassem meus sentidos. Visão, olfato, tato e audição: todos sobressaltados, atentos e maravilhados com tudo ao redor.

Se Monet ainda vivesse, talvez fizesse dali um de seus jardins. É como se ali, naquela Savassi metida a Paris, não existisse nada além de mim e minha alma de poesia. Como se fossemos somente eu, minhas roupas de frio e a voz doce e chorosa de Norah Jones, dizendo-me que meus sentidos me levam a qualquer lugar e fazem de mim o que minha imaginação permitir: inclusive uma francesinha da Savassi.

28 junho 2010

Trocas da convivência

Conviver é uma troca. Como toda troca, pode ser vantajosa ou não. A boa notícia é que quem determina se vai ser vantajosa ou não somos nós mesmos. Quando convivemos com alguém, a relação freqüente acaba nos brindando com um pouco do que o outro carrega. Às vezes incorporamos trejeitos, expressões, ideais, visões de mundo e até mesmo características da pessoa próxima. O que percebo, entretanto, é que nem sempre há um filtro, um “controle de qualidade” do que extrair de outra pessoa.

Reparo o quanto é delicioso aprender com o outro e até mesmo mudar nosso ponto de vista por entender que o dele é mais bacana. No entanto, vejo que o que algumas pessoas absorvem de outras é exatamente aquele defeitinho chato, que lhes tira todo o charme. Uma mania, uma implicância ou até mesmo a falta de sensibilidade. Algumas pessoas têm o dom de ensinarem às outras como não sentir. Outras têm o dom de aprender. Quando duas pessoas assim se encontram, o resultado é a multiplicação de chatices.

Penso, então, que, antes de ser uma troca, conviver é uma arte. A arte de saber que o outro sempre tem coisas muito mais legais pra nos doar do que defeitinhos absolutamente deletáveis. A procura por algo de bom pode ser longa em alguns casos, mas, sem dúvida, vale bem mais que multiplicar chatices por aí. Se for para brincar de matemática, que seja povoando o mundo de boas ações, bons sentimentos, boas atitudes. Exercício de hoje: pensar sobre o que estamos, sem perceber, aprendendo. E ensinando.

22 junho 2010

Eu, mulherão


Sempre desconfiei, mas nada como ter a certeza: sou um mulherão. Não que eu tenha, de uma hora pra outra, ganhado maiô estilizado, máscara e capa de super-heroína. Mulherão também sofre, também tem suas fraquezas e inseguranças. O fato é que ela enfrenta tudo isso com cara de quem acabou de sair do cabeleireiro. Mais: ela sente-se como se tivesse acabado de sair do cabeleireiro.

Mulherão não deixa o medo a vencer e menos ainda deixa desenrolarem-se situações que a incomodam. Um mulherão sempre sabe o que quer. Se não sabe ainda, pelo menos, sabe que não sabe e aceita-se assim. Ela não cai na armadilha da auto-piedade. Não deu, não deu, ora bolas! Vamo que vamo que uma hora dá. E ela vai. Respira fundo e dispara. Dá-se o direito de fazer umas pausas de vez em quando porque sabe, como ninguém, a importância de parar a caminhada, contemplar a paisagem e conhecer a si mesma. Um mulherão está sempre em busca de si. E ela sabe, sem desânimo, que é uma busca que nunca termina porque ela, afinal, é uma metamorfose ambulante. E sabe que ela gosta de ser assim?

Pois, então. Eu sou um mulherão. Não do tipo que tem silicone farto ou uma super bunda, mas do tipo que tem caráter farto e uma super coragem. Mulherão é metida. Ela se acha. Na realidade, ela sabe que muitas das vezes tá fazendo cena. É justamente aí que está toda a sua verdade. Porque um mulherão não mente pra si mesma. Ela gosta de encarar os fatos. Eles não a amedrontam. Podem até trazer alguma dúvida sobre o futuro, mas ela respira fundo e pensa que o que tiver de ser será. E é. Sempre é.

Mulherão sofre também. E chora. Tem TPM, síndrome de Betty a feia. O que acontece, no entanto, é que um mulherão sabe que essas coisas passam e só a fazem mais mulher. E eita orgulho que ela tem dessa raça! Mulherão adora ser mulher. Nem liga pra tripla jornada, acha graça da imaturidade masculina e gosta de ter que lutar por tudo, porque, afinal, ela sabe que consegue. Além disso: ela consegue sem perder a sensibilidade que lhe é peculiar. Um mulherão nunca trai a si mesma, nunca esquece suas convicções, não atropela seus valores. É cheia de si, mas, nem por isso, deixa de contemplar o outro.

Demorei um pouco a entender. Precisei passar por algumas provas, mas acho que, no fim das contas, tirei uma boa nota. Sou, sim, um baita mulherão.

Abram o caminho que eu preciso passar.

20 junho 2010

Acima do sol (e de outras coisas)


Não faz muito tempo, soube, por acaso, que a banda mineira Skank faria um show no Mineirão para a gravação de seu próximo DVD. Achei legal, mas confesso que não fiquei muito empolgada. Algumas pessoas me perguntaram se eu iria ao show e minha resposta sempre era não. Acontece que a gente não manda nada na vida da gente. Na véspera da apresentação, que foi nesse sábado, 19 de junho, uma amiga me ligou dizendo que estava com um par de ingressos e que havia separado um para mim. Eu, mineiríssima, respondi de pronto: “uai, se é assim, eu animo”. Fiz um intensivão de Skank durante o dia, pois não queria fazer feio no show. Gostei muito da banda no passado, mas, de uns tempos pra cá, já não acompanhava muita coisa.

Combinamos de chegar mais cedo para conseguir um bom lugar. Então, lá fui eu, com o dia ainda claro, para o show. Mal sabia que estava recebendo um presente de Deus, em um dia, que sabemos bem, Deus e eu, que eu estava precisando. Enfim, conseguimos um bom lugar, a poucos metros do palco. Depois de bastante espera, finalmente a banda apareceu. Samuel Rosa estava visivelmente feliz e eufórico em ver o Mineirão lotado. Cerca de 60 mil pessoas. Realmente, foi emocionante. O show foi muito bacana, longo, e me fez lembrar o quanto Samuel Rosa manda bem nas letras das músicas.

A banda tocou muitas canções que me transportaram ao passado, muitas músicas que aprecio. Decidi colocar uma delas no blog, mas confesso que foi difícil a escolha. Eu poderia enumerar muitas que me tocam e que acho fantásticas. Poderia colocar aqui pérolas como Dois Rios, Tanto, Te ver, Tão seu, Sutilmente, Ainda gosto dela, Amores imperfeitos ou Resposta, que é uma música que mexe demais comigo, mas escolhi uma que, embora não seja tão profunda como algumas das que citei, foi uma das que mais me tocaram no show. Espero que apreciem e que Samuel Rosa continue nos brindando com a sabedoria e a doçura de suas palavras.

Acima do sol
Samuel Rosa/Chico Amaral



Assim ela já vai
Achar o cara que lhe queira
Como você não quis fazer

Sim, eu sei que ela só vai
Achar alguém pra vida inteira
Como você não quis

Tão fácil perceber
Que a sorte escolheu você
E você cego nem nota

Quando tudo ainda é nada,
Quando o dia é madrugada,
Você gastou sua cota

Eu não posso te ajudar,
Esse caminho não há outro
Que por você faça

Eu queria insistir,
Mas o caminho só existe
Quando você passa

Quando muito ainda é pouco,
Você quer infantil e louco
Um sol acima do sol

Mas quando sempre é sempre nunca,
Quando ao lado ainda
é muito mais longe
Que qualquer lugar

Um dia ela já vai
Achar o cara que lhe queira
Como você não quis fazer

Sim, eu sei que ela só vai
Achar alguém pra vida inteira
Como você não quis

Se a sorte lhe sorriu,
Porque não sorrir de volta?
Você nunca olha a sua volta

Não quero estar sendo mal,
Moralista ou banal
Aqui está o que me afligia

Um dia ela já vai
Achar o cara que lhe queira
Como você não quis fazer

Sim, eu sei que ela só vai
Achar alguém pra vida inteira
Como você não quis.

17 junho 2010

Malas feitas pra ficar


"Estou sempre de partida, malas feitas, portas trancadas, chave em punho. No fundo eu quero dizer 'Me impede de ir. Fica parado na minha frente e fala que eu tenho lugar por aqui, que não preciso abandonar tudo cada vez que a solidão me derruba. Me ajuda a levar a vida menos a sério, porque é só vida, afinal.' E acabo calada, porque não faz sentido dizer tudo isso sem ter pra quem." (Verônica H.)

*Retirado do blog Costurando Estrelas, que eu adoro.

Amor passageiro


Era ele. Mariana sentiu o coração bater em um ritmo estranho. Não soube explicar. Sabia que era bom. Sorriu para si mesma. Há dias observava aquele rapaz. Havia decorado o ponto em que ele embarcava e esperava ansiosa a sua chegada. A condução lotada, de sete da manhã, impedia que tivessem a oportunidade de sentarem-se lado a lado. Para Mariana, no entanto, bastava a oportunidade de vê-lo. Fazia bem aos olhos e ao coração.

Tímida, olhava de soslaio, registrando cada movimento, cada olhar, cada esboço de palavra, num Big Brother sem câmeras e sem disputas. Imaginava diálogos e situações ao lado dele, rindo-se sempre da própria tolice. Nada sabia sobre aquele homem e talvez justamente o desconhecido fosse o que mais a atraísse. Podia supor nomes, profissões, preferências.

A fita que sustentava o crachá, despretensiosamente colocado no pescoço, denunciava o local de trabalho. Mariana esforçou-se para ler o nome do funcionário. Em vão. A identificação do jovem rapaz estava encoberta pela camisa. Ah, sim, a camisa! Era sempre bem passada, de gola e botão, colocada impecavelmente dentro da calça. “Mauricinho”, pensou Mariana sem usar a palavra no sentido pejorativo. Gostava de “Mauricinhos”. Sorriu discretamente, fingindo distrair-se com algo na janela.

Por vezes, a jovem moça teve a impressão de também estar sendo olhada. Por algumas, os olhares chegaram a se encontrar, desviando-se em seguida, numa coreografia particular. Os dele eram olhos cor de mel, doces, infantis, colocados quase estrategicamente por Deus em um rosto de homem. Quantos anos teria afinal? Para Mariana não importava. Gostava daquele platonismo consciente, como forma de se distrair enquanto o amor não vem.

Incomodava-lhe, no entanto, saber que talvez nunca mais voltasse a vê-lo. No dia seguinte, ela começaria o trabalho em uma nova unidade da empresa, o que significaria outro itinerário. Em horas como aquela, gostaria de ser menos tímida, flerta-lo mais explicitamente, puxar conversa ou até mesmo ter a ousadia de lhe passar seu cartão. Condenava-se, imaginando o que poderia ser e não seria. “Pura incompetência para se relacionar”, criticava a si mesma.

Mariana olhou pela janela. Assustou-se. Distraída, quase havia passado do ponto em que desceria. Levantou de repente, lançando um último olhar para ele, numa suave fotografia mental. Desceu, já envolvida nos pensamentos rotineiros do trabalho. Como já fizera com tantas coisas na vida, deixava para trás o amor secreto. Marcante. Mas tão passageiro quanto cada um dos que seguiam viagem.

13 junho 2010

Inspiração que me faz expirar


Gosto daquilo que me inspira. Você me inspira, mas você não vem. Eu espero em vão, eu te chamo em vão, eu insisto e desisto. Tudo sem sair do lugar. Você será o dono incontestável da culpa, se minha poesia morrer de inanição. Ela vem, me olha, solta um sorriso malicioso porque sabe que me domina. Ela, minha poesia, sabe que vem quando quer vir e que estou à mercê dela. Presa ou liberta, conforme o que ela decide. E normalmente ela decide vir quando você está. Você a alimenta. Assim, você me cativa também. No pior sentido do verbo. Permaneço presa. Torturada pelo silêncio, seu e de minha poesia. O que, na verdade, é como dizer “por meu próprio silêncio”, já que minha poesia fala por mim. Preciso então que você venha. É como se meu futuro literário-filosófico dependesse disso. O que sinto já não importa. Coração de poeta é lenhado por natureza. Importa minha inspiração. Importa o que me esvazia, me desincha. Importa o tanto que tenho a dizer, o tanto que posso compartilhar com o mundo e quantas almas posso ajudar a esvaziar por meio das minhas palavras. Entende a gravidade da sua falta? Preciso que venha e que venha depressa. Não precisa trazer mimos nem flores, os olhares me bastam. Não quero promessas, conforto-me com a presença. Simples e certa. Sem firulas e exageros. Apenas ela. Apenas você. Minha inspiração e eu. Tudo por almas mais vazias e um mundo mais leve.

09 junho 2010

Túnel musical


Coloquei o CD pra tocar. Era um CD das antigas, daqueles que quase furam de tanto rodar. A cada nota, um passo no túnel do tempo. Há anos não ouvia aquelas canções. Incrível como as músicas têm o poder de nos remeter ao passado de uma forma tão absurda. É quase possível sentir novamente os cheiros, as sensações, ouvir as vozes. Foi um CD que marcou época. Trilha sonora suave e despretensiosa de um momento peculiar.

Adoro as músicas e o poder que elas têm. Ouvi-las é como ser telespectador da própria vida. Fundo sonoro de um filme antigo (ou nem tanto) em 3D, com uma função pra lá de avançada: a de nos fazer sentir tudo de novo. Fechei os olhos e me entreguei àquele momento, que já não era o hoje, mas o ontem perdido no calendário. Fui, por algumas músicas, a menina sonhadora de sete, oito anos atrás. Como ela, fiz planos, tive medos, chorei, gargalhei, fiz charme para o moço do prédio, esbravejei com o colega mala, aprendi coisas novas, fiz amigos, me apaixonei. Tudo de novo. Com o mesmo sentimento de menina, com a mesma imaturidade que hoje acho bonita porque era espontânea.

O CD rodou inteiro e, ao final, inteira também estava eu. Plena pela ideia clara de passado, presente e futuro. São peças de um quebra-cabeças que Deus tem prazer em montar. A menina de sete anos atrás era eu. Igual e, ao mesmo tempo, tão diferente. Acho que ela não imaginava que seria observada tão intimamente anos depois. Sorte que tenha boas histórias para mostrar.

08 junho 2010

Em queda livre


Meus olhos olham,
fogo e frio.
Meu olhos choram,
chuva e estio.

Entrego o sonho
e a certeza.
Perco a esperança
e a fineza.

E lanço ao alto
- me lanço ao alto! -
toda a vontade de ser livre,
todo o desejo que não tive,
toda a entrega que contive,
toda algema que guardei.

E no meu vôo de Ícaro,
sem sol, sem cera,
um vôo solto, quase um rito,
sem amarras, sem espelhos.
Toda a essência que retive.
Na paz da minha entrega,
a êxtase de ser livre!

05 junho 2010

Ele não está tão a fim de você


Impossível lembrar do leve e divertido filme “Ele não está tão a fim de você” sem lembrar da personagem Gigi, de Ginnifer Goodwin. O filme retrata bem o universo feminino, contando diferentes histórias, de diferentes mulheres. Identifiquei-me com muitas delas, mas criei com Gigi um elo especial. Talvez porque tenha ouvido comentários sobre nossa semelhança física, talvez porque ela goste de roxo tanto ou mais que eu, mas acho mesmo que pela forma infantil (no melhor sentido) como ela vê a vida e espera seu grande amor.

Muitas vezes me encantei por caras que “não estavam tão a fim de mim” e sei que isso pode acontecer muitas outras vezes. O que eu não quero perder é isso que Gigi tem: a certeza de que uma hora eu vou acertar. Uma das melhores cenas, na minha opinião (se você não viu o filme, não continue a ler este parágrafo), é aquela em que Gigi, depois de levar um fora do moço por quem está apaixonada, diz a ele que está muito mais próxima de deixar de ser sozinha do que ele. Verdade. Muito mais triste o amor não recebido porque fugiu-se dele do que o amor não recebido porque não encontrou-se no outro um terreno fértil.

Não quero protagonizar uma busca tresloucada como a de Gigi, mas quero ter a certeza de que SINTO, com todas as letras, e de que todo sentimento que vir de mim, correspondido ou não, será verdadeiro, intenso e eterno enquanto dure. É um exercício e tanto esse de conviver com um sentimento, e só com ele, sem que ele se materialize nos gestos de outra pessoa. Cansado de bater e ninguém abrir, como diria meu mestre Renato Russo, ele acaba mudando de alvo, mas um dia, como certamente diria minha amiga Gigi, um dia a gente acerta. E aí é só, literalmente, correr pro abraço. :)



Amor, meu grande amor
Ângela Roro e Ana Terra

Amor, meu grande amor,
Não chegue na hora marcada.
Assim como as canções
Como as paixões
E as palavras.

Me veja nos seus olhos,
Na minha cara lavada.
Me venha sem saber
Se sou fogo
Ou se sou água.

Amor, meu grande amor,
Me chegue assim
Bem de repente,
Sem nome ou sobrenome,
Sem sentir
O que não sente.

Pois tudo o que ofereço
É meu calor, meu endereço
A vida do teu filho
Desde o fim até o começo.

Amor, meu grande amor,
Só dure o tempo que mereça
E quando me quiser
Que seja de qualquer maneira.

Enquanto me tiver,
Que eu seja
O último e o primeiro
E quando eu te encontrar,
Meu grande amor,
Me reconheça.

03 junho 2010

Everybody's free

O que é belo é para ser compartilhado.
Segue mensagem que adoro. Ouça, sinta, reflita, deixe-se levar. =)

01 junho 2010

Encantos e paixões


Clarice sentou-se perto das árvores para descansar. Estava caminhando faz tempo. Fazia isso sempre que queria pensar um pouco mais. A natureza de Clarice já era pensante, é fato, mas naquele dia os pensamentos berravam e gesticulavam como se estivessem em rebelião. Clarice era um mulherão. Não que chamasse a atenção por onde andasse. Sua casca, na verdade, era de menina. A mulher estava atrás dos olhos negros e magnéticos. Era profunda e tinha uma insaciável sede de respostas.

Meio a toda essa curiosidade pelo mundo e pelas pessoas, vez ou outra acontecia de Clarice se apaixonar. Por vezes, era um encanto secreto e passageiro (não pouco intenso); por outras, uma relação duradoura entre Clarice e o seu sentimento (não a pessoa), em que hora Clarice amava intensamente, hora não achava muita graça.

Acontece que Clarice encantou-se novamente. Não sabia ainda que tipo de sentimento era aquele. Não estava claro. Na verdade, não estava claro nem quem ele era. Talvez por isso Clarice gostasse. E talvez por isso se irritasse também. Odiava não conseguir desvendar as pessoas. Aborrecia-se ainda mais quando era a si mesma que não conseguia decifrar. No caso, eram ambos.

Ele a encantava. E a irritava profundamente. Clarice era um mulherão. E ele? O que era? Era opaco, sombrio e irritantemente atraente. Como ousava roubar-lhe o ar de mistério que só admitia em si mesma? Como ousava não agir? Clarice gostava da atitude, essa hemorragia do sentir que tinha o poder da transformação. Seja qual fosse o resultado. Agir sempre significava não deixar as coisas como antes.

Ele não agia porém. Não se mostrava ou mostrava-se muito pouco. E Clarice, ali, naquele impasse entre a curiosidade e a indiferença. Odiava-o por ser assim tão inerte e odiava-se por ser assim tão complexa. Queria e não queria. Ele, por sua vez, parecia e não parecia querer. Clarice recusava-se a fazer o que esperava dele. Era um mulherão que gostava de, às vezes, ser mulherzinha. E estava decidido: naquela história, seria mulherzinha.

O tempo era outra coisa que a incomodava. Na verdade, detestava tudo o que a prendesse. E o tempo ria da cara da Clarice. Ria da cara dele também. Clarice sabia que o tempo não teria piedade. Nem dele, nem dela. Levaria, como uma enxurrada, tudo o que haviam construído juntos: a cumplicidade, o encantamento, as partilhas e todo aquele mistério que, por mais que a irritasse, ainda os unia. Seria o fim do que nem chegou ao começo. A menos que ele saísse da inércia. Ou ela deixasse o mulherão vencer a mulherzinha.