Fio de Ariadne

21 agosto 2017

Mundos paralelos



Às vezes paro e penso no quanto levou de mim. Tive de aprender a ser outra, ainda que, no íntimo, eu seja a mesma. A sensibilidade aqui de dentro, aí fora, virou tolice. A empatia, os medos, os sonhos... Tudo teve de ser guardado numa caixinha escura, num canto qualquer. Por muitas vezes, eles arranham a tampa da caixa e se debatem, como um animal querendo sair. Desejam viver em liberdade, num mundo sem regras ou julgamentos, sem teatro. Sei, porém, que não sobreviveriam aqui fora. Difícil ser de verdade em um mundo de mentira. Impossível ser leve onde tudo ganha o peso que não deveria. 

Vou tentando seguir, no pequeno mundo paralelo que me restou, enquanto ele resiste. Doloroso vê-lo encurtando no tamanho e no encanto, contaminado pelas mazelas da vida real. Mais triste é saber que não precisava ser assim. O mundo moderno não tinha que, necessariamente, vir num pacote de desumanidade. Não tinha de ser tão árido. Um cenário onde não me encaixo, apenas disfarço pra não ser descoberta. Ironia de um universo que entendo, mas não aceito. 

A vida segue desse jeito torto e dividido: metade de mim grita por liberdade, outra só quer permanecer  invisível na tarefa de viver. Ambas são partes da mesma pessoa, com a mesma essência, a mesma sede de justiça e exatamente o mesmo amor pela humanidade. Essa tal raça que domesticou tantos animais e nunca foi capaz de dominar a si mesma.

21 maio 2017

Saindo da rota

É preciso aprender a improvisar, a vida nem sempre é previsível.” A frase saiu naturalmente durante uma conversa entre amigas. Poderia ter passado despercebida, mas ecoou na cabeça de Clarice por um fim de semana inteiro. Apertou o botão, acionou o alarme. A moça deu-se conta de sua ignorância na arte de improvisar! Percebeu que, até então, tudo o que saiu do script foi resolvido de uma forma torta e dolorida. O improviso até pode, sim, ser um pouco torto, mas não dolorido. Ele serve para tornar mais leve o que acabou pesando mais do que deveria. É a forma criativa de viver. 

Não só de improvisos deve ser a vida, mas ela tampouco tem de estar em uma planilha de Excel. Perceber que fez da vida uma tabela incomodou Clarice. Horários, números, traçados, metas. Tudo milimetricamente calculado, enquanto o mundo seguia girando, presenteando com a delícia do inesperado a quem não se deixou abalar por uma mudança de rota. 

Desvios acontecem e obstáculos também fazem parte do trajeto. Só assim é possível buscar outros cenários, ver outros ângulos, novas formas de chegar a um mesmo lugar. Essa descoberta não precisa causar medo, nem dor ou qualquer sentimento ruim. É apenas um novo modus operandi. Muitas vezes, por inexperiência, ou despreparo mesmo, vai ser estranho, mas sempre enriquecedor. Clarice lembrou a velha frase de Nietsche: “o que não me mata me fortalece”. Encarar o que não estava escrito (pelo menos nas nossas planilhas), pode não só fortalecer, como desvendar opções que não surgiriam se tudo desse certo. Ou melhor: se tudo fosse como planejado, já que o improviso também pode nos ensinar que nem sempre o certo é o que estava no roteiro. 

Sair da linha pode ter um sabor especial e, ainda que vez ou outra não tenha, pode não ser tão terrível assim. Clarice achou graça da própria tolice. Não estava nos planos descobrir, agora, que ela pode sair deles. Largou o computador ligado, improvisou o melhor sorriso e foi lá fora ver o que o inesperado tem pra ela. Sem receitas. Sem tabelas. Somente ela e a capacidade que a vida tem de surpreender.

18 outubro 2016

Silenciando


Quando o mundo está em caos, eu me calo. Faz barulho lá fora, tem ruído aqui dentro. Então, eu me calo. Não entendo o que dizem, quando leio o que não dizem e as informações não batem. Então, eu me calo. Tem gente que diz sem dizer. Ou que ouve sem ouvir. Falta matéria ou explicação científica, mas os sinais caminham pelo ar. Eu capto. Tem um radar supersônico na minha cabeça. Quando ele apita, eu me calo. O silêncio é meu sistema de segurança. Uma espécie de capa voadora, que me leva pra longe quando é preciso. Às vezes pinica, incomoda, porque, afinal, o silêncio nunca silencia de verdade. Ainda assim, suaviza as agressões que vêm de fora. O silêncio é meu refúgio sempre que os sons do mundo me atacam. Ou quando são confusos demais. Sou mais a confusão do meu silêncio! Aqui dentro, a gente se entende e as coisas acabam voltando à velha ordem. Eu me guardo e não machuco ninguém. Todo mundo devia vir com o silêncio configurado de fábrica. Ou aprender a programá-lo em algum ponto da vida. É fácil, não gasta energia e nos leva do caos para um espaço, talvez não menos caótico, mas bem mais interessante. Quando nos damos conta, o autoconhecimento, a resiliência e a sabedoria já estão batendo à porta. Vale o esforço da solitude. O silêncio melhora a qualidade da minha fala. E a saúde do meu coração. 

04 outubro 2016

Verdade



Gosto daqueles que são loucos, mas são de verdade.
São sistemáticos, mas são de verdade.
Dos que têm TOC, mas são de verdade.
De quem se recolhe, mas é de verdade.
Dos ogros. Mas são de verdade.

Agradam-me os super sinceros e suas gafes. Sem maquiagem. Sem firulas. Sem afetação.

Não me pertencem os que encenam. Não gosto do falso interesse, nem da curiosidade maliciosa. Não me agradam os manipuladores, os injustos, os fofoqueiros, os preconceituosos, os cínicos, os debochados.

Gente fake não me representa.

Sou esquisita, mas plenamente verdadeira.

25 março 2016

Procurando Clarice


Clarice dia desses veio falar comigo. Está perdida. O tempo passou e ela não viu. Lembranças fortes e ainda coloridas estão em outro lugar, ficaram distantes e ela nem percebeu. Pediu ajuda para se reencontrar. Quer alguém para trazer de volta as coisas boas que deixou no caminho. Eu disse a ela que certos reencontros só acontecem dentro de nós. 

Clarice é moça boa, mas acabou trazendo pesos que não precisa carregar. Perdeu-se ao tentar construir formas de não se perder mais. Bobagem. A natureza de Clarice é assim mesmo, perdida. Ela tem a sabedoria de quem está sempre em busca. Fazer perguntas é para os fortes. Entender que novas respostas vão gerar novas dúvidas nos faz mais leves. À Clarice também. Ainda que ela tenha se distraído, em seu interrogatório diário, vai se achar novamente. 

No fundo, ela sabe que a dor é o fio que serve de guia para fora do labirinto. Lá tudo é mais suave. Fora da caixa, dentro de si mesma. Exatamente ali, onde moram as canções de chuveiro, as caretas dos retratos, os poemas de Cecília. Ainda está tudo lá, à espera dessa Clarice perdida, que cedo ou tarde vai se rever. Quando a saudade apertar mais, Clarices do passado vão saltitar à sua frente e dizer coisas esquecidas. Lembrar desejos, motivações, qualidades. E afirmar que, não importa quantas vezes ela se perca, a essência vai estar sempre ali, firme e segura, à espera de um reencontro. Basta estender os braços e abraça-la.

08 março 2016

O cansaço destes dias


Não é o noticiário deprimente. Nem o olhar de quem me subestima. Não é o abraço que me falta. Nem os brancos da minha cabeça. Nunca foi Freud, nem Murphy. Tampouco aqueles livros que eu li. Não é a máquina que falha. Não é o grito que cala ou a fala que corta. Não é o texto inacabado, nem as poesias que guardei. Não é esse sorriso amarelo ou o oi que eu não dei. Não são os quilos a mais, o bolo que solou ou o doce que perdi.  Não é a dor de cabeça, nem a pressão que cismou de subir.

O cansaço destes dias tem um quê de apatia e outro tanto de desesperança. Tem um pouco de dúvida e de inexperiência talvez. Tem medo e uma vontade louca de dar um pulinho no futuro pra saber o que vem por aí. O desgaste destes dias tem, sim, um bocado de grilos soltos, capatazes da minha mania de querer tudo perfeito. Cansei de ser chicoteada por eles.

Não é o meu silêncio: meus olhos gritam cada vez que eu calo. Não são os amores que deixei: nunca chorei mais de um dia. Não é o não: eu sempre convivi bem com ele. Não é a falta de inspiração: a gente acaba fazendo as pazes. 

O que é, ao certo, eu ainda não sei. Se há quem saiba, decidiu não me contar. Ou fui eu que não quis ouvir. Sigo, então, com os pés cansados e descalços, deslocada, sem GPS. Pode ser que ainda ache o caminho. Ou então que ele me encontre. Na vida tudo é uma questão de ponto de vista. Ou de estar no lugar certo. Eu ainda descubro. E espero poder, enfim, descansar em paz. 

16 janeiro 2016

(Feliz) 2016!


Sempre que chega o fim do ano fico com a sensação de ter esquecido alguma coisa: de ter abraçado alguém, ter ligado, dito "obrigada", "você é importante pra mim", "não foi nada", "precisa de ajuda?". Talvez não seja apenas uma sensação. O mais provável é que eu de fato tenha me esquecido de algumas dessas coisas. Então, para este ano novinho, cheio de páginas pra colorir e escrever, eu desejo paz, saúde, amor... mas sobretudo que não esqueçamos do outro. Que não fique nenhum abraço ou agradecimento para trás. Que não falte um sorriso para quebrar o gelo e começar uma amizade, perdoar um tropeço ou simplesmente dizer "estou aqui, conte comigo".

Que não nos faltem gentilezas, nem compaixão, nem tolerância, nem grandezas. A grandeza de entender e respeitar as diferenças, de partilhar privilégios e de perceber que, sim, temos muitos deles. Que em 2016 a gente reclame menos, agradeça mais!

Que uma tal vida online seja mero instrumento para a vida real, ao vivo, repleta de pessoas pra curtir e adicionar, de bons momentos pra compartilhar e memes divertidos pra viver. E que, mesmo diante de tanta fartura, não nos percamos de nós mesmos. Haja o que houver, a nossa essência esteja lá, firme, forte e cada vez mais independente de opiniões e influências externas.

Desejo, enfim, um 2016 de verdades, doçuras e presenças. O "feliz" que costumamos escrever antes do número será simples consequência.

PS: Este post vale um abraço. Pessoalmente.
💜

14 dezembro 2015

Azul do meu tamanho


Abriu a janela. O azul do céu, tão vivo e tão claro, quase doía nos olhos recém acordados. Respirou fundo e sorriu. Era um presente de Deus. Tomou uma ducha fria. Gostava do efeito que isso causava. Acreditava que a água fresca toca na pele para lembrar às pessoas que elas estão vivas. É sempre mais excitante viver depois de um banho frio! Vestiu uma roupa confortável, comeu algo leve. Os dois toques breves de buzina avisaram que o amigo já estava no portão.

Alice saiu com a sensação de que algo, além do amigo, a esperava lá fora. Entrou no carro, cumprimentou o rapaz com um beijo e um sorriso, como era de costume. Foram em frente. Enquanto ele dirigia, ela selecionava a trilha sonora. Música boa para combinar com o dia ensolarado e a companhia sempre confortável daquele jovem motorista.

Enquanto o carro subia e sacolejava pelas ladeiras, dentro de Alice a viagem era suave e plana. Apenas uma fresta deixava o frio na barriga entrar. Ela estava feliz. Virou-se para o amigo e o olhar fez o convite. Seguiram cantando juntos por quase todo o caminho. O silêncio veio quando perceberam que estavam chegando. A cidade vista do alto parecia pequena e inofensiva.

Desceram do carro e apreciaram embasbacados o quadro pintado pela natureza. O medo bateu à porta mais uma vez, mas o desejo de ser livre sempre foi o impulso mais fiel do homem. Alice e o amigo entreolharam-se. Subiram abraçados. Sabiam que, embora estivessem juntos, teriam que absorver a experiência sozinhos. O abraço trazia coragem. O silêncio, reflexão. 

Cumpriram todas as exigências, ouviram as orientações, vestiram os aparatos e seguiram, finalmente, para o primeiro vôo de asa delta. Nos intermináveis segundos antes de saltar, Alice olhou o vazio e percebeu o quanto ele pode ser contraditório. Então, correu e voou. A imensidão de nada a fez perceber-se grande e pequena ao mesmo tempo. Entender e administrar isso pode ser o maior desafio da vida. Mas pelo menos ali, de asas abertas, ela conseguiu a façanha.

26 agosto 2015

Sem scripts


Esbarrei com a inspiração ontem na rua. Comentei que ela andava sumida, perguntei da família, lembramos velhas histórias... esse ritual que todos reproduzimos e nos faz tão normais e sem graça. 

Segui feliz com o reencontro, mas me perdi em pensamentos logo depois. Mais uma vez a estranha mania de deixar passar o que deveria, pelo menos, borrifar o ar de bom ânimo. Insistimos em deixar pesar o que poderia ser leve. Aceleramos o que mereceria contemplação. E, assim, escravos do tempo, ficamos presos ao relógio, como em um filme de ficção científica. Sem máquina do tempo. 

Dona Consciência às vezes chama. E eu escuto. Tenho crises de lucidez que me doem. Difícil enxergar-se parte do sistema. Ruim notar que há algo em você escondido ou maltratado, seja porque você não usou, seja porque as pessoas não perceberam. Às vezes nos ocupamos tanto em seguir o script que deixamos de ver a graça do improviso. Nos preocupamos tanto em sermos certos e perfeitos que não olhamos, não ouvimos, não sentimos o outro. E acabamos taxando de desinteressante tudo o que foge à regra. Sensibilidade e bondade são percebidas como tolice. 

Eu, sempre que acordo desse transe em que a rotina me coloca, tenho prazer em ser tola. Viva!

Acho que vou convidar a inspiração para um café. Quem vem também?



24 maio 2015

Sobre teatros, labirintos e um lugar que existe em mim

"Compositor de destinos
Tambor de todos os ritmos
Tempo, tempo, tempo, tempo
Entro num acordo contigo"

Caetano Veloso



Ninguém nunca me disse que viver seria fácil. Mas também ninguém nunca me disse que seria em vão. Algum sentido tem que haver neste circo todo. Não pode ser só isso: nascer, viver, morrer e todo o tom shakespeariano que há em volta. Um teatro permanente que nos distrai do que é real. É muito fácil perder-se diante de tantos papéis que nos oferecem para interpretar.

Haja novelos, fios de Ariadne, para nos levar de volta ao lugar certo: a essência. Cansei de me perder nesse labirinto. Ainda bem que sempre existe o fio. Mesmo que muitas vezes eu me esqueça de usá-lo, ele está lá. De tempos em tempos, eu me perco. Até que um dia, cansada de caminhar em círculos ou de andar em corredores que não levam a lugar algum, eu me lembro do fio. Ele me guia de volta ao que tenho de mais valioso: este lugar em mim que ninguém altera. Nele, eu não me estranho, não me confundo, não sofro. Tenho a sabedoria e a serenidade que me fizeram topar esta empreitada de ser gente. É onde eu entendo o valor e o lugar de cada coisa. Tudo é mais simples, mais claro e menos doloroso. É onde eu me lembro que não é em vão. E que por mais que o mundo pareça o cenário de uma obra de Shakespeare, o autor da vida é real e sabe bem o que está fazendo.

Não é fácil, de fato, mas pode ser mais leve quando estamos no lugar certo. E mesmo que não pareça, tem sentido, tem propósito e vai valer algo mais que aplausos quando se fecharem as cortinas.


19 maio 2015

Novelas


São tantos recortes, cenas aleatórias na cidade. Protagonistas de esquina, mocinhos das próprias histórias, coadjuvantes das alheias. Gosto de observar o mundo e imaginar os enredos escondidos em cada quarteirão. Sigo pra casa em silêncio e rio ao pensar que as pessoas que cruzam o meu caminho também desconhecem minhas novelas pessoais.

O pensamento é mesmo uma dádiva! E é ele que me leva à cena daquele velho capítulo. Eu, a mocinha. Você ainda não sei se o mocinho ou o vilão. No recorte, você me olha e não diz nada. Decepcionada, eu baixo os olhos e também sigo muda. É um silêncio dolorido. Você não faz nada. Não toca nada. Não transforma nada. E o nada faz morada entre nós dois. São três verões e alguns outonos de inércia. Apenas olhos covardes que olham e não dizem. Onde já se viu? Olhos mudos! Calados e surdos diante de tudo o que gritam os meus. 

Lembrando da cena, eu chorei. Os olhos desaguaram o que você nunca me deixou dizer.

24 março 2015

Nota de falecimento



Pagina 34.000 do livro da vida. Registrou-se nesta data, às dez é nove horas, horário de Brasília, o óbito da Exma Sra. Expectativa Esperança da Silva. Causa da morte ainda desconhecida. A falecida não deixa herdeiros, o que, cá entre nós, não deve ser motivo de lamento. Aos possíveis descendentes, restaria de herança a farta perda de tempo, acumulada nos muitos anos vividos. Desconfia-se, inclusive, que a morte tenha sido em razão de velhice, já que Expectativa sempre travou árdua batalha pela sobrevivência.

Nas redondezas, a distinta senhora é lembrada pelo otimismo exacerbado e a notável criatividade nas relações humanas. Não raro, ouvem-se relatos de homens e mulheres que, anos a fio, apegados aos encantos de Expectativa, jamais conseguiram livrar-se dela.

O velório será ainda nesta noite, no Cemitério da Realidade, onde são previstas longas e chorosas visitas ao pé do caixão. As cabeças mais brancas da comunidade recomendam expressamente que o corpo seja cremado. Registros históricos relatam que outras Expectativas, mal enterradas, voltaram para assombrar a população.

Findas as informações do obituário, passamos a outro comunicado: registrou-se nesta mesma data, às dez é nove horas e um minuto, horário de Brasília, o nascimento de Felicidade Libertas Quae Sera Tamen. Página 34.001 do livro da vida. Que sigam os registros.

02 fevereiro 2015

Um pão anda à luz

"A cesta de pão", de Salvador Dalí, 1945 

As vezes me sinto num filme de vanguarda. Sou daquelas personagens que, de tão normais, dão charme à trama. O surreal parece ainda mais extraordinário pra pessoas como eu. Quase posso ouvir a trilha sonora enquanto caminho à tardinha pra buscar o pão. Gosto dos queimadinhos. Na verdade, sou solidária a eles, quase sempre preteridos, condenados a viver no porão dos pães até que alguém os resgate.

As vezes eu me sinto como um pão queimado. Talvez daí venha a minha solidariedade. Mas não se assuste nem se apiede de mim: também tenho meus dias de pão fresco, levemente corado, que exala perfume e saliva a boca. O mundo é mesmo assim: ora somos o pão queimado; ora, o quitute mais esperado da padaria.

Vou sempre caminhando no meu filme de vanguarda, que é pra vida ter um pouco mais de leveza. O surreal é uma deliciosa defesa contra a realidade. O contrassenso, na verdade, não choca. Ele desperta. Tira-nos deste mundinho sem sal em que vivemos. Cores e elementos inesperados transformam o cenário e tornam os personagens mais interessantes. O normal cansa. Às vezes, é melhor mesmo ser o pão queimado.

Volto pra casa dançando com a sacola de pães. Eles passeiam comigo, à luz da tardinha, colorida como meus sonhos vanguardistas. Irreais, espetaculares, inesperados, extraordinários, ousados. Como todo sonho deve ser. É minha fuga. Receita infalível contra o tédio. A maneira mais saborosa de controlar o que parece incontrolável.

O "the end", afinal, pode vir quando menos esperamos. E, quando nos damos conta, não sabemos onde foi parar o mocinho da história. O vilão acaba sendo a gente mesmo, perdido num enredo sem personagens, sem grandes cenários, um fracasso de bilheteria. Prefiro incrementar a história. Gosto das surpresas, da luz colorida, das trilhas doces, alegres e misteriosas do meu filme particular.

31 dezembro 2014

Feliz desapego novo!

Resumo os tantos conselhos para o ano novo em apenas um: desapegue-se.

Daquela roupa que já não serve - "um dia vai servir!" -, daquele corte que te envelhece - "mas eu sempre usei assim...",  daquele emprego chato - "pelo menos dá pra pagar as contas" -, daquele namoro que já não te faz feliz - "mas as coisas vão melhorar...".

Em 2015, não volte àquele lugar que não combina com você! Livre-se da vergonha de usar a roupa que sempre quis. E, de uma vez por todas, deixe de esperar que aquele moço te olhe diferente ou te chame pra sair.

No ano novo, desapegue-se do sofá, jogue fora a preguiça e saia à luta. A saúde e a autoestima agradecem. Livre-se da rotina, crie novas oportunidades e jogue-se sem medo nas que aparecerem. Aliás, anote e grife aí: em 2015, desapegue-se do medo. Não se preocupe com que roupa ir à festa. Acredite: o seu sorriso é o melhor figurino. E dispense a necessidade de estar certo ou de ser bom em tudo. Ninguém é bom em tudo.

Em 2015, desapegue-se do mundo virtual. Esteja menos conectado na rede e mais conectado às pessoas. Mais olho no olho, menos olho na tela. Vai por mim: é bem mais gostoso. E deixe de pessimismo! Às vezes, sem perceber, nos viciamos nele.

Nesta virada, livre-se, jogue fora, desapegue-se!

Dos radicalismos, da culpa, das lembranças dolorosas, daquela pisada de  bola que você diz que perdoou, mas vive trazendo à tona. Dos quilinhos a mais (mas da dieta exagerada também). Aliás, anote e grife de novo: nenhum exagero é bem-vindo em 2015. É o equilíbrio que nos faz voar. Um fora também ao perfeccionismo, à fofoca, ao mimimi.

Encare o novo ano sem penduricalhos. Ele terá prazer em te dar novas e belas histórias. Comemore! O que é bom a gente guarda no coração e na alma, onde tudo flui e nada pesa.

25 dezembro 2014

Sobre olhares, gaiolas e feridas


Hoje eu vi uma mulher. Cabelos e olhos claros, pequenina. O corpo magro sugeria fragilidade. Quando a olhei, os olhos cheios d'água pareciam assustados. Eu a vi! E isso a surpreendeu. Há tempos aquela mulher não era vista. Acostumou-se a ser invisível. Habituou-se a ser só mais uma entre tantas. Perdida no emaranhado de almas, muitas cegas ou míopes, incapazes de enxergar além do óbvio. 

Eu a olhei e percebi suas dores. Consegui captar mais que o aspecto franzino e o olhar perdido. Ela era uma alma atordoada, presa em si mesma, clamando por socorro. Alguém que, de tanto ser ignorada, passou a crer que realmente não tem valor. Deletou-se aos poucos: beleza, harmonia, magnetismo. Tornou-se uma sombra criada pela insensibilidade alheia. 

As lágrimas daqueles olhos brotaram nos meus. A ferida daquele coração doeu em mim. Talvez porque percebi que ela poderia ser eu. Ou por lembrar que eu já tive medos e tristezas semelhantes. Muitas vezes, por não ser vista, acabei não me vendo também.

A crueldade humana cria gaiolas invisíveis . Hoje eu vi aquela mulher e meu olhar disse a ela o seu valor. Deixei a gaiola aberta. Espero que ela consiga sair. A tolice do homem pode causar feridas profundas. A sensibilidade é o remédio. O exercício de perceber o outro além das aparências é restaurador. Basta abrir os olhos e, ainda que por um minuto, doar-se. A cura é para todos.

21 dezembro 2014

Dois mil e catarse



Ouvi muitos apelidarem este aninho que se encerra de dois mil e catarse. Essa tal coisa que nos expurga,  joga fora, por bem ou por mal, tudo aquilo que já não serve ou está fora do lugar. É certo: 2014 foi uma catarse do começo ao fim. Não apenas pra mim, mas pra boa parte das pessoas com quem troquei as impressões de dezembro. Não foi um ano ruim, mas sério, conselheiro, professor. Em 2014, li menos que o de costume, escrevi pouco. Não fui música, nem poesia. Pelo menos, não na medida que a vida merece.

Em 2014, eu guardei minhas asas. Nesta história, ora sou casulo, ora, borboleta. Neste ano, fui casulo. Preferi minha própria companhia na maior parte do tempo. Estar sozinho implica em conhecer melhor não só a si mesmo, mas também ao universo ao redor. Entendemos melhor as pessoas quando as observamos em silêncio, escondidos atrás da cortina.

Neste ano fui, sobretudo, reflexão. E pensar é um delicado exercício. O pensamento é um potencial inimigo, cheio de armadilhas e excessos que, se não forem combatidos, podem nos tirar do caminho.

Em 2014 (ou catarse) eu, de fato, purifiquei a alma. Dei uma faxina aqui dentro, como deve ser de tempos em tempos. Só assim dá pra perceber certas coisas. Só assim é possível aproveitar o melhor da vida e compreender a sorte e a doçura guardadas nos detalhes.

Estar no casulo é saudável e faz parte do processo. Algumas vezes é dolorido. Outras, cômodo. Mas estar lá é sempre finito. Invariavelmente chega a hora de abrir as asinhas e voar colorida. Só quem dedicou meses ao processo de aprender e transformar-se entende quão bela é uma borboleta. Tão pequena e aparentemente frágil, carrega o encanto da sabedoria que o silêncio e a solidão são capazes de trazer. Voam graciosas, mas resolutas. Sem estardalhaço. Sabem como é ser lagarta. Valorizam a beleza e as asas. Foram meses de casulo. Todas as dores e limitações encerradas. Catarse pura.

03 novembro 2014

Andanças



Eu não sou capaz de entender. Você também não. Por isso estamos. Viver é estar. Condição passageira de quem, como eu e você, não sabe. Eu não sei, mas questiono. Queimo fosfato todos os dias procurando explicações. Deus nos dá pistas, mas poucos conseguem alcançá-las. Não basta ler. É preciso interpretar o texto. Falta sabedoria, maturidade. Sobra curiosidade. Ok. Já é alguma coisa. Importante é não desistir. Perseguir a explicação ainda que ela demore a vir.

O sentido existe, mesmo que não possamos compreendê-lo. E se não podemos, ainda, é porque a estrada é longa. Resta nos distrair com a paisagem e com outros viajantes que cruzem o caminho. Começar uma viagem sabendo exatamente o que ela nos reserva tiraria o sabor da descoberta. Dá medo quase sempre, mas a felicidade também não costuma avisar quando vem. Estradas são sempre elos. Ligam lugares, pessoas, destinos. Ligam momentos diferentes de um mesmo alguém. Seguir o caminho sem grandes planos ou suposições é difícil pra gente como eu e você, que anseia por entender. A ignorância dói em todo aquele que deseja ser sábio. Seguir é o melhor a fazer. Ninguém é capaz de conhecer (e desfrutar) de um caminho se não passa por ele.

06 setembro 2014

O que não pesa

"A gente espera do mundo e o mundo espera de nós um pouco mais de paciência." Lenine


De repente, você se dá conta de que precisa viver. Enche os pulmões e chora, como um bebê que anuncia sua chegada ao mundo. É, então, que você percebe que já criou tantos mundos irreais em vão. Este daqui já é louco o suficiente e nada é capaz de te poupar dele. Daí você vai na sua infância e lembra do desenho do qual gostava. "Se não pode vencê-los, junte-se a eles", dizia o personagem. Eu diria mais: se não pode vencê-los, aprenda a amá-los, ainda que este planetinha em provação tenha muito a conhecer sobre o amor. Ainda que você também esteja aprendendo. Estagiários da vida é o que somos. Estamos no preâmbulo de tudo o que podemos ser. Entender esse preceito significa carregar menos peso na vida.

Às vezes levamos na mochila coisas e pessoas que não deveriam estar lá. Não é justo com você, não é justo com elas. Hora de abrir a tal mochila e libertar os amores mal resolvidos, os amigos distanciados, as lembranças repetitivas, os medos, as culpas. Já nos bastam as surpresas do caminho. O melhor a fazer é andar por ele de mãos e coração livres. Livres, não vazios.

Sabedoria e amor são coisas que não pesam. O peso que algumas pessoas atribuem ao amor vem da falsa noção que elas têm desse sentimento. Se quer viver com leveza, lição número 1: amor não pesa. A sabedoria é presente do tempo. Do tempo e da experiência. Não dá pra nos livrar de certos ensinamentos da vida, mas dá pra torná-los menos dolorosos. Olha aí a importância de ter a mochila vazia! A sabedoria evita alguns percalços. Outros, não. Mas sempre ajuda a passar por eles da maneira mais suave possível. E não pesa.

Eu ainda estou aprendendo a amar e a usar a sabedoria. Perceber o mundo real é uma boa prova disso. Passei de ano. Não esqueci tudo o que vivi, nem todos que amei. Apenas os deixo, agora, onde devem estar. O mundo é um cenário, cheio de adereços que não devemos carregar, sob pena de cada um perder o sentido. E nós, inclusive, perdermos o nosso. Tudo ficaria mais longo e mais dolorido. Lembre-se: junte-se a eles e aprenda a amá-los. O amor não prende, nem pesa.


29 julho 2014

Tristes prisioneiros


Eu tinha dito que são seus olhos. Não. São os meus. Eles e a antiga miopia que os acomete. São meus olhos que vêem o que não existe. São eles que vislumbram cores onde só existe cinza. Seus olhos, é certo, nunca olharam os meus de verdade. Sequer sabem o quanto carregam esses dois castanhos tristes e sempre marejados, cheios da água que você teve medo de explorar.

São meus olhos, quase infantis, que encaram os seus como não deveriam. Atrevidos, ousados olhos, que chegaram a pensar que teriam os seus. Ingênuos, tristes e esperançosos olhos. Um dia haveriam de cair em si.

Fique tranquilo: não são seus olhos. São os meus. Os seus são tolos e mais míopes que os meus. Não percebem o mal que me fazem quando me olham sem me querer. Não se preocupe: eu os absolvo. Entendi que eles procuram outras paisagens. Os meus olhos não encantam os seus. E os meus, baixos, seguem sozinhos. Até encontrarem outros olhos, menos duros e mais entregues, que não resistam em mergulhar em águas tão castanhas e profundas, guardiãs de velhos tesouros.

Leia também: Doces amarras

09 julho 2014

Despedidas


Despedidas costumam doer. Dar adeus a pessoas, lugares, momentos. Parar de viver alguma coisa é dolorido, mas dói mais despedir-se de algo que você quis viver e não viveu. A expectativa frustrada é como uma estátua erguida em praça pública, escancarando ao mundo o que você não alcançou. Pelo menos, ao seu mundo interno, que nunca mais será o mesmo, colecionando histórias que não aconteceram. Difícil apagar o que só existiu no plano das ideias. O imaterial tem a força do indestrutível. Fica preso na memória, em um replay interminável. A desistência, a verdade nunca dita, a vitória inalcançada, o beijo nunca dado, o e-mail não enviado, o desejo reprimido, o convite nunca feito (ou nunca aceito), as passagens não compradas, a palavra engasgada, o amor escondido, a conquista negada. Todos, impiedosamente todos, os “quases” em que esbarramos na vida. Ainda que muitos acabem arquivados pelas artimanhas da memória, eles ainda estarão lá, prontos para pipocar na primeira oportunidade. São doloridos, mas ensinam. Professores à moda antiga, munidos de palmatórias e cantinhos do pensamento. Sim, despedidas costumam doer. Mas, em boa parte das vezes, são absolutamente necessárias. Inclusive, quando se referem ao que queríamos viver e não vivemos. Difícil é saber quando deveríamos ter insistido ou tentado mudar o destino. Viver exige sabedoria. Abortar a operação ou segui-la a todo vapor? Melhor recorrer aos arquivos nessas horas. Eles remexem as feridas, mas ensinam, não é isso? Tomara que tenhamos sido bons alunos.